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SÃO PAULO – As ações da Hypermarcas (HYPE3) foram pelo segundo dia ‘sufocadas’ por uma avanlanche vendedora no mercado financeiro. Investidores que preferiram sair dos papéis aos primeiros sinais de que irregularidades – que podem afetar seu ótimo retrospecto na Bolsa – do que esperar para ver os desdobramentos da notícia. Até a última segunda-feira, ações acumulavam ganhos de 30%, enquanto o Ibovespa subia cerca de 13%. Uma realidade bem diferente agora, com a ação acumulando alta de apenas 3% em 2016.
Nesses dois pregões, entre a delação premiada do ex-diretor da empresa e investigações sobre pagamentos efetuados por holding do dono da empresa ao ex-ministro petista José Dirceu, a Hypermarcas afundou 20% na Bovespa, representando uma perda de R$ 3,6 bilhões em valor de mercado. As ações, que na metade de maio alcançaram sua máxima histórica (R$ 32,11), fecharam esta quarta-feira (29) a R$ 22,25, menor patamar desde 29 de janeiro.
Para Adeodato Volpi Netto, head de mercados de capitais da Eleven Financial, isso não foi apenas uma realização de lucros, quando investidores aproveitam um movimento mais brusco para embolsar os ganhos, mas uma saída da exposição, mesmo que sem ganhos. “Não há companhia que possa sair incólume de um processo como esse (…) A delação é um tiro que ela não precisava tomar. Ela vai acabar exposta”, disse.
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Em relatório, o Credit Suisse disse que as notícias vão, no mínimo, aumentar a volatilidade na ação. “Nós não estamos mudando nossa recomendação, mas continuaremos a acompanhando a situação da empresa”, disseram os analistas Tobias Stingelin, Giovana Oliveira e Antonio Gonzalez, do banco. Eles têm recomendação outperform (desempenho acima da média) para a ação, com preço-alvo de R$ 25,00 – o que traz um upside de 12,5%em relação ao fechamento desta quarta-feira.
Os 3 pontos
Há três pontos que o investidor precisa monitorar neste momento, dizem os analistas do CS: 1) a Hypermarcas não foi acusada de qualquer delito; 2) duas auditorias externas realizadas por entidades independentes não identificaram claros benefícios para a empresa relativa a estes “despesas”; e 3) a empresa será totalmente reembolsada por Nelson Mello.
No entanto, a própria esquipe do CS ressalta que as notícias perturbam, deixando alguns questionamentos: “como foi possível que R$ 30 milhões tenham sido gastos sem ‘responsabilidade’ e quais foram as motivações de Mello?”
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O motivo da derrocada
A Hypermarcas vive um dos seus piores pesadelos na Bolsa, após “delação-bomba” do ex-diretor de relações institucionais da empresa, Nelson José Mello, e notícias de hoje de que investidores apuram o motivo dos pagamentos efetuados pela holing do principal acionista da empresa, João Alves de Queiroz Filho, à JD Consultoria, do ex-ministro da Casa Civil no governo Lula José Dirceu.
Ontem, a ação reagia à revelação de que Mello, executivo da empresa até o início deste ano, pagou até R$ 30 milhões em propina a políticos do PMDB. Hoje, a história ganhava novos desdobramentos após o Estadão revelar que o grupo já teve João Alves de Queiroz Filho citado em uma quebra de sigilo na Operação Lava Jato. Embora a delação de Mello não seja no âmbito da operação que apura o cartel de empreiteiras na Petrobras, os investigadores querem descobrir o motivo dos pagamentos efetuadas pela Monte Cristalina, holding de Queiroz Filho, à JD Consultoria, do ex-ministro da Casa Civil no governo Lula José Dirceu.
De acordo com a quebra de sigilo da consultoria solicitada pela força-tarefa de Curitiba, a Monte Cristalina efetuou vários pagamentos, entre 2008 e 2013, que somaram R$ 1,5 milhão. Segundo o Estadão divulgou na véspera, a empresa está no centro de mais um escândalo envolvendo políticos.Mello, apontado como o braço direito de Queiroz Filho há cerca de 30 anos, disse que a empresa repassou R$ 30 milhões para senadores do PMDB, entre eles, Romero Jucá (RR), Renan Calheiros (AL) e Eduardo Braga (AM). Todos negam terem recebidos recursos.
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Em nota à imprensa, o Grupo Hypermarcas informou que, após a saída de Nelson Mello, em março de 2016, a companhia “contratou assessores externos renomados para conduzir uma auditoria, já finalizada, que concluiu que o Sr. Mello autorizou, por iniciativa própria, despesas sem as devidas comprovações das prestações de serviços”. Sobre os pagamentos da Monte Cristalina à JD Consultoria, a Monte Cristalina disse que a contratação teve como objeto “análises mensais sobre o cenário político e econômico brasileiro” e que os valores cobrados “estavam em linha” com preços do mercado. Já a defesa de José Dirceu não respondeu à reportagem.
A avanlanche vendedora na ação
A derrocado da ação tem sido alimentada nesses dois pregões por um forte giro financeiro na Bolsa: enquanto a ação movimentava em média R$ 60 milhões por dia na Bolsa, hoje esse volume financeiro saltou para R$ 789 milhões, 13 vezes acima do registrado normalmente ou o maior registrado desde dezembro de 2010. Ontem, o giro foi de R$ 239,4 milhões.
Liderando a ponta vendedora desse movimento, aparece o Bank of America Merrill Lynch como intermediador com maior saldo vendedor (vendas – compras) da ação: R$ 75,6 milhões, seguido por UBS e Santander, com R$ 35,98 milhões e R$ 20,03 milhões, respectivamente. Já na ponta oposta, Credit Suisse, Citigroup e XP Investimentos intermediaram os maiores saldos compradores: de R$ 76,8 milhões, R$ 22,6 milhões e R$ 17,6 milhões, nesta ordem.
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Um peso extra para a ação…
As notícias das irregularidades da empresa trazem uma outra preocupação ao mercado. Isso porque a Hypermarcas possui incentivos fiscais que somaram R$ 1,4 bilhão entre 2010 e 2015, por ter fábricas e centros de distribuição em Goiás. “Uma das grandes preocupações do mercado agora é se esses incentivos podem ser revistos”, disse o gestor João Paulo Reis, da Venture Investimentos.
Adeodato também segue nessa linha e acredita que isso pode ser um risco a mais para o case, o que precisa ser monitorado com atenção pelo investidor.
Durante entrevista, Adeodato disse que a Hypermarcas segue sendo um papel caro na Bolsa, mesmo com a queda – o que fica evidente no preço-alvo definido pelo Credit Suisse, que embute um upside de apenas 12,5% após a ação cair 20%. Segundo ele, a companhia precisava entregar muito para atender à euforia depositada pelo mercado nas ações, mas tinha dificuldades em usar os recursos para inovar e obter resultados mais satisfatórios.
“A Hypermarcas vinha bem nos desinvestimentos, mas precisava observar qual seria o novo desenho de modelo [de negócios]”, disse. Ou seja, o panorama que já gerava cautela, aliado às notícias recentes, caíram como uma bomba nas ações da empresa, que já foi por anos considerada um dos exemplos de sucesso da Bovespa.
Confira abaixo o gráfico diário das ações da Hypermarcas: