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SÃO PAULO – Quem nunca ouviu o slogan “lugar de gente feliz” nos comerciais do Pão de Açúcar (PCAR4) na televisão? A mensagem tão positiva da rede de supermercados aos seus clientes poderia ser replicada aos seus acionistas: entre 2009 e 2014, a companhia ganhou mais de 250% de valor de mercado e suas ações estavam cotadas acima de R$ 100 até meados de maio. Contudo, o que temos visto de lá pra cá tem sido uma verdadeira “infelicidade”.
De 5 de maio pra cá, as ações do Pão de Açúcar já caíram 29%, indo de R$ 103 para os atuais R$ 73. Até o fechamento do dia 9 de julho, quando o papel bateu sua mínima desde janeiro de 2012 (R$ 66,80), a queda acumulada é de quase 35%. Que o cenário econômico brasileiro não colabora para termos otimismo com o consumo interno, isso já sabemos. Mas o que será que fez a companhia cair muito mais do que outros papéis na Bovespa?
O desempenho negativo reflete a forte queda de todo o setor varejista, que sofre no atual tempo de crise econômica. No primeiro trimestre deste ano, o Pão de Açúcar teve queda de 25,6% no lucro líquido, passando para R$ 252 milhões, pressionado pela baixa do resultado do segmento alimentar.
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Na época, o Bank of America Merrill Lynch cortou sua recomendação para as ações do grupo de compra para neutra, destacando a queda inesperada no lucro por ação no primeiro trimestre para R$ 0,72. Enquanto isso, o Deutsche Bank ressaltou um cenário desafiador no curto prazo, prejudicado por aumento da concorrência, principalmente com o Carrefour, o que ameaça os resultados de 2015 e 2016.
Mas todo este cenário pode estar começando a mudar, afirmam alguns analistas mais animados com a empresa. De acordo com a equipe da Citi Corretora, a recomendação atual para os papéis PCAR4 é de compra, com uma visão positiva sobre o balanço do segundo trimestre e uma recuperação entre julho e dezembro deste ano. “Alimento é a categoria que representa o maior gasto das famílias brasileiras, com 30% de participação. Vemos o Pão de Açúcar como um bom veículo para ganhar exposição a este segmento resiliente, a um valuation atrativo de 16,5x 2016 P/L”, afirmam em relatório divulgado recentemente.
Para o Citi, o potencial de alta das ações chega a 38%, o que levaria os papéis de volta para os R$ 109,20. “[Do preço-alvo] 79% deriva do negócio de alimentos, 11% da Cnova (plataforma de ecommerce), e 10% do negócio de eletrônicos (através da participação de 43% na Via Varejo)”, explicaram os analistas. A expectativa do Citi é que o resultado no segmento “mesmas lojas” seja tímido, com uma reação do segmento de alimentos no 2º semestre.
Este otimismo também é visto pelos analistas do Santander, que apesar de esperarem resultados “suaves” no segundo trimestre, projetam uma recuperação das vendas na segunda metade de 2015, o que funcionaria como um catalisador para as ações.
Recuperação à caminho
Antes de apresentar seu balanço e “responder” se os analistas estão corretos, a companhia divulgou seus dados preliminares do segundo trimestre antes da abertura do pregão do dia 13 de julho. O Pão de Açúcar teve uma alta de 6% em sua receita líquida, que foi para R$ 16,1 bilhões no segundo trimestre. O segmento alimentar subiu 6,4% na mesma base de comparação, para R$ 8,95 bilhões, e o não alimentar avançou 5,3%, para R$ 7,17 bilhões.
De acordo com a companhia, o desempenho de vendas do trimestre foi negativamente impactada pelos efeitos da Copa do Mundo, que ocorreu no mesmo período de 2014, e Páscoa, que concentrou parte das vendas no primeiro trimestre de 2015 e, no ano anterior, havia ocorrido integralmente no segundo trimestre. A receita líquida “mesmas lojas” recuou 2,9% entre abril e junho, com destaque negativo para Via Varejo (que reúne as bandeiras Casas Bahia e Ponto Frio), que teve queda de 23,5% neste indicador.
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Segundo o Citi, as ações têm sofrido pressão pelos resultados fracos do início do ano e com as projeções ainda pessimistas para o segundo trimestre. “A prévia da semana passada foi melhor que o esperado, suportando o argumento de nossa análise que as vendas de alimentos irão se sustentar surpreendentemente bem durante a atual recessão”, disse o Citi em relatório.
Overhang
Além dos fatores macroeconômicos, não podemos negligenciar que a trajetória descendente das ações do Pão de Açúcar coincide com a saída de Abilio Diniz da companhia. O empresário, que em 2013 já havia acertado deixar o comando da empresa, vendeu praticamente toda sua participação no Pão de Açúcar apenas em outubro do ano passado, quando se desfez de 4,105 milhões de papéis, ao preço de R$ 108,32 cada um (46% acima do valor atual).
É o que costumamos chamar no mercado de “overhang” (excesso de oferta, na tradução em inglês). A saída de um investidor com participação tão expressiva no capital da empresa acaba provocando uma forte pressão no lado da oferta das ações, que, se não for acompanhada pela demanda, provocará queda nas cotações.
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Em 2013, após mais de dois anos de disputa com o francês Casino, Diniz concordou em deixar o posto de presidente do conselho de administração do grupo, cargo que tinha direito vitalício mesmo depois de vender o comando para os franceses. Atualmente, o empresário se dedica a BRF (BRFS3), dona das marcas Sadia e Perdigão, e uma das maiores produtoras de proteína animal do mundo.