Zelensky desafia apelo de Trump e volta a atacar refinarias de petróleo da Rússia

Decisão aprofunda atrito entre os dois líderes em meio a críticas sobre limitações impostas ao acesso da Ucrânia a serviços de inteligência e satélites

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O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, ordenou a retomada dos ataques a refinarias de petróleo russas em uma escalada do confronto com Donald Trump por causa das restrições à assistência de inteligência dos EUA.

Zelensky afirmou que está encerrando uma pausa de três dias nos ataques em resposta ao apelo do presidente americano, feito no domingo, por um “cessar-fogo energético”, depois de acusar Trump e o bilionário Elon Musk de limitar a capacidade de Kiev de se defender contra ataques russos com mísseis e drones.

Horas após o presidente anunciar a medida, os terminais de internet Starshield usados pelos militares da Ucrânia aparentemente voltaram a operar normalmente. As operações do Starshield foram restauradas, e o Ministério da Defesa em Kiev continua conversando com os EUA para entender por que o serviço foi restringido anteriormente, disse uma pessoa familiarizada com o assunto, que pediu anonimato por se tratar de uma questão sensível.

Moscou continuou atacando infraestrutura energética e alvos civis ucranianos nos últimos dias, elevando o número de mortos.

“O bloqueio acabou. Terminamos”, disse o presidente ucraniano sobre a pausa nos ataques a refinarias, em entrevista ao Financial Times publicada na quinta-feira em Londres.

A decisão aprofunda uma das rupturas mais graves entre Zelensky e Trump desde que este retornou à Casa Branca, em janeiro do ano passado, prometendo acabar com a guerra entre Rússia e Ucrânia em um dia. Ela ocorre após o notório confronto entre os dois líderes no Salão Oval, em fevereiro do ano passado, e das tentativas dos EUA de pressionar Kiev a aceitar um plano de paz de 28 pontos amplamente favorável ao presidente russo, Vladimir Putin.

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Trump, em entrevista exibida na noite de quinta-feira pela Newsmax, afirmou que “não é um grande fã de Zelensky”, reiterando que quer que tanto o líder ucraniano quanto Putin parem de atacar os países um do outro.

“Agora, se você me disser que Zelensky está novamente atacando refinarias, tudo o que ele está fazendo é elevar o preço mundial do petróleo, e ele está fazendo isso. Bem, acho que isso é uma vergonha”, disse Trump.

“Há muitos outros alvos. Eles não precisam atacar. Há muitos alvos que podem atingir, mas quando você ataca refinarias de diesel, onde se produz óleo diesel, e nós precisamos disso, e o mundo precisa disso, então ele não está prestando um bom serviço ao mundo”, afirmou Trump.

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Refletindo a preocupação dos investidores com as perspectivas de segurança da Ucrânia, os títulos soberanos em dólar do país tiveram nesta semana desempenho pior do que os de todos os demais mercados emergentes e de fronteira. Vários deles atingiram na quinta-feira os níveis mais baixos desde abril ou o início de maio.

Trump anunciou na semana passada que havia fechado um acordo com Putin para permitir a venda de diesel para os Estados Unidos e os mercados globais, numa tentativa de reduzir os preços dos combustíveis antes das eleições legislativas de 3 de novembro, mesmo enquanto a Rússia continua realizando ataques incessantes com mísseis e drones contra cidades ucranianas e suas redes de energia e abastecimento de água.

Um incêndio atingiu uma refinaria de petróleo na região russa de Ryazan após um amplo ataque de drones durante a madrugada e a manhã de quinta-feira, informou o governador regional Pavel Malkov em comunicado no Telegram.

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A Ucrânia não comentou oficialmente o incidente. Zelensky também não mencionou nenhuma refinaria em uma publicação no X sobre os ataques realizados por Kiev durante a madrugada de quinta-feira, destacando ações contra uma base aérea militar na região russa de Voronezh e contra um alvo não especificado no Mar Negro.

Um míssil ucraniano Long Neptune atingiu a base aérea, destruindo quatro caças Su-34 e danificando outros dois, afirmou Zelensky. “Essas aeronaves de guerra estavam prontas para lançar novos ataques contra a Ucrânia e estavam carregadas com bombas aéreas”, disse ele.

O presidente dos EUA tem aumentado a pressão sobre Zelensky para interromper os ataques a refinarias russas, que estão entre os meios mais eficazes da Ucrânia para prejudicar a economia de guerra do Kremlin. Trump, porém, não fez exigências a Putin para que interrompa os bombardeios contra a Ucrânia.

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Zelensky expressou sentimento de traição em relação ao acordo sobre diesel e às restrições impostas pelos EUA ao uso militar ucraniano dos terminais de satélite fornecidos pela SpaceX, de Musk, em entrevista separada ao jornalista britânico Piers Morgan, em Londres, na quarta-feira.

“É uma pena que estejamos perdendo, estejamos perdendo um parceiro forte. Essa é a minha opinião”, disse Zelensky. “É doloroso quando o presidente Trump escolhe um lado, e esse lado não é o nosso.”

A Ucrânia buscou explicações dos EUA e de aliados da Otan após relatar, na quarta-feira, uma restrição repentina ao serviço Starshield, depois de uma onda de ataques russos com mísseis e drones contra usinas de energia.

Zelensky chegou a Bruxelas na quinta-feira para reuniões destinadas a reforçar o apoio à Ucrânia com líderes presentes na cúpula do Conselho Europeu. Alguns aliados de Kiev já manifestaram preocupação com a aproximação dos EUA em relação à Rússia.

“Fingir que a Rússia está voltando a ser um membro normal do G20 e pode simplesmente voltar à mesa não acontecerá comigo nem com os outros europeus”, disse o vice-chanceler alemão Lars Klingbeil na quinta-feira.

“Ninguém me convencerá de que a rendição daqueles que defendem sua liberdade pode ser chamada de paz”, afirmou a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, em discurso ao Senado italiano na quarta-feira.

O primeiro-ministro holandês, Rob Jetten, classificou na quinta-feira o acordo de Trump sobre diesel com Putin como “ridículo”, dizendo que o presidente americano tomou uma “péssima decisão” que não ajudará a reduzir os preços da energia.

“O presidente dos EUA superestimou sua capacidade de convencer Putin a aceitar a paz apenas tratando-o muito bem”, disse Jetten a jornalistas antes da cúpula da União Europeia. “O que importa é aumentar a pressão e o custo para a Rússia até que ela não tenha outra escolha além de aceitar a paz.”

Zelensky afirmou que as limitações na rede Starshield resultaram em mortes de civis porque os sistemas ucranianos de interceptação que utilizam essa tecnologia deixaram de funcionar com a mesma eficácia na defesa contra drones russos carregados de explosivos.

“Tenho certeza de que eles sabiam o que estavam fazendo, absolutamente”, disse Zelensky a Morgan, ao ser questionado se o uso do serviço via satélite pela Ucrânia havia sido deliberadamente interrompido. “Acho que isso está errado. É um grande erro.”

Musk reagiu às acusações de Zelensky com uma publicação no X, plataforma da qual é proprietário, pedindo que o presidente ucraniano deixe o cargo.

“Os sistemas Starshield são propriedade e estão sob controle do governo dos Estados Unidos”, afirmou Musk em outra publicação no X. As decisões sobre seu uso são tomadas pelos militares dos EUA e, em última instância, por Trump, acrescentou.

“E assim o massacre continua…

Já passou da hora de Zelensky ir embora.”

O apelo de Musk ecoou uma sugestão feita por Trump no sábado de que Zelensky deveria considerar deixar a presidência da Ucrânia.

Os Estados Unidos chegaram a suspender brevemente a assistência militar e o compartilhamento de inteligência com a Ucrânia após o confronto ocorrido no Salão Oval no ano passado, embora ambos tenham sido retomados após novas negociações.

O plano de paz de 28 pontos elaborado em novembro passado pelo enviado de Trump, Steve Witkoff, e pelo assessor do Kremlin, Kirill Dmitriev, exigia concessões significativas de território e do tamanho das Forças Armadas ucranianas por parte de Kiev. Na época, Zelensky alertou os ucranianos de que o país poderia enfrentar uma escolha entre preservar sua “dignidade” e correr o risco de perder um parceiro fundamental.

Zelensky afirmou ao Financial Times que Trump “ama” autocratas, ao ser questionado sobre sua relação com Putin.

“Ele fala sobre isso de forma aberta e em voz alta”, disse Zelensky. “Porque, para ele, pessoas que conseguem permanecer líderes por 20 anos, 30 anos, 40 anos significam que são muito fortes.”

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