Vácuo deixado por Trump abre caminho para ofensiva silenciosa da China na ONU

Enquanto os EUA abandonam agências internacionais e cortam contribuições, Pequim amplia sua influência em organismos que definem regras para IA, comércio, clima e energia nuclear

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O presidente da China, Xi Jinping, não participou da Assembleia Geral das Nações Unidas durante sua visita aos Estados Unidos nesta semana. Isso não significa, porém, que Pequim esteja negligenciando o organismo internacional.

Pelo contrário. A China vem ampliando sua influência dentro da ONU, em um movimento que se tornou mais fácil à medida que Donald Trump reduz o envolvimento dos Estados Unidos com o sistema multilateral.

A estratégia chinesa se dá principalmente por meio de agências menos visíveis, responsáveis por definir padrões em algumas das áreas mais controversas da atualidade, como inteligência artificial, onde existe um intenso debate global entre defensores de uma abordagem mais livre e aqueles que defendem regras mais rígidas.

Esses esforços discretos acabam ofuscados pela rivalidade entre EUA e China em temas como comércio, tecnologia e segurança, que dominaram as manchetes quando Trump e Xi se reuniram em Washington nesta semana.

Mas essa disputa por influência não é menos importante. Trata-se de uma estratégia de longo prazo. Enquanto Trump retém milhões de dólares em contribuições dos EUA e retira o país de dezenas de agências internacionais, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a China ocupa os espaços deixados pelos americanos.

O número de funcionários chineses no sistema da ONU saltou um terço desde antes da pandemia, chegando a 1.641 pessoas. Ao mesmo tempo, Pequim vem oferecendo softwares, sistemas de navegação e recursos financeiros em troca de maior participação na definição de regras globais, promovendo uma lenta redistribuição de poder por meio de nomeações, parcerias e influência na agenda de conselhos e comitês.

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A China rejeita qualquer sugestão de que esteja tentando assumir o controle da ONU.

“Não dizemos que somos mais poderosos dentro da ONU; nos vemos como iguais”, afirmou Fu Cong, embaixador chinês junto à organização. “Mas ficamos satisfeitos em ver que mais pessoas estão prestando atenção às posições e opiniões da China.”

Historicamente, os Estados Unidos são o maior financiador da ONU. Trump é um crítico de longa data da organização e voltou a reforçar essa visão nesta semana, dizendo a líderes mundiais que a entidade precisa parar de promover “a agenda da extrema esquerda de burocratas globalistas”.

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Segundo o embaixador americano na ONU, Mike Waltz, esse pensamento é compartilhado por setores conservadores nos Estados Unidos.

“Há muita gente que pergunta: ‘Por que não simplesmente abandonamos esse desastre que é a ONU?'”, disse Waltz em uma conferência de defesa neste ano. “Mas, se fizermos isso, alguém ocupará esse espaço. Não quero ver uma ONU comandada por Pequim.”

Enquanto isso, a China busca ampliar sua influência em áreas que incluem comércio global, por meio da Organização Mundial do Comércio (OMC), ciência climática e regulação nuclear.

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Na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), tradicionalmente moldada por prioridades americanas, diplomatas afirmam que recentes nomeações para cargos estratégicos e projetos de cooperação técnica fortaleceram a posição de Pequim.

A China também utilizou a AIEA para aumentar a pressão diplomática sobre o Japão. O enviado chinês Li Song tem pedido monitoramento contínuo do despejo de água tratada da usina nuclear de Fukushima, apesar de a própria agência afirmar que a operação atende aos padrões internacionais de segurança.

Segundo o diretor-geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi, o processo de contratação da agência é baseado em critérios técnicos e de qualificação profissional.

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“Mas não devemos fingir que organizações internacionais são ilhas de pureza e perfeição em um mundo naturalmente competitivo e duro”, afirmou.

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