UE acelera acordo comercial com o Mercosul, indo contra a vontade da França

Comissão Europeia decide por aplicação provisória para garantir vantagem comercial imediata, ignorando contestações judiciais de parlamentares liderados por Macron

Reuters

Bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas
19/09/2019 REUTERS/Yves Herman
Bandeiras da União Europeia na sede da Comissão Europeia em Bruxelas 19/09/2019 REUTERS/Yves Herman

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BRUXELAS, 27 Fev (Reuters) – A União Europeia ⁠aplicará provisoriamente o acordo de livre comércio com ⁠o Mercosul para garantir que o bloco obtenha a vantagem do ‌pioneirismo, afirmou nesta sexta-feira a Comissão Europeia, em uma medida que a França considerou uma “surpresa ruim”.

O acordo pode entrar em vigor provisoriamente dois meses após ‌uma troca de notificações com os membros do Mercosul, informou a Comissão.

Normalmente, a UE aguarda a aprovação de seus acordos de livre comércio pelos governos da UE e pelo Parlamento Europeu. Mas os parlamentares da UE, liderados por deputados franceses, votaram no mês passado para contestar o acordo no tribunal superior do ⁠bloco, ‌o que pode atrasar sua implementação total em dois anos.

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A aprovação pela ⁠assembleia da UE continua sendo necessária, mas a UE e o Mercosul podem começar a reduzir tarifas e aplicar outros aspectos comerciais do acordo antes disso.

Macron

A França — o maior produtor agrícola da UE — tem sido o opositor mais veemente do acordo com o Mercosul, afirmando que ele ​aumentará drasticamente as importações de carne bovina, açúcar e aves baratas e prejudicará os produtores nacionais, que têm realizado repetidos protestos.

“Para a França, é ​uma surpresa, uma surpresa ruim, e para o Parlamento Europeu, é desrespeitoso”, disse o presidente francês, Emmanuel Macron, a repórteres após se reunir com o primeiro-ministro esloveno, Robert Golob, no Palácio do Eliseu, em Paris.

Em comunicado, a associação francesa da indústria da carne, Interbev, apelou aos membros franceses do ‌Parlamento Europeu para que ajam de forma a “impedir a ​Comissão de contornar o debate democrático”.

Em uma votação em janeiro, 21 países da UE apoiaram o acordo, enquanto Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia votaram contra e a Bélgica se absteve.

O ⁠acordo com a Argentina, ​o Brasil, o Paraguai ​e o Uruguai foi concluído em janeiro após 25 anos de negociações e pode eliminar cerca ⁠de 4 bilhões de euros em tarifas ​sobre as exportações de produtos da UE, tornando-o o maior acordo de livre comércio do bloco em termos de reduções tarifárias potenciais.

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A Alemanha e outros defensores do acordo, ​como a Espanha, afirmam que ele é essencial para compensar as perdas comerciais causadas pelas tarifas dos EUA e para reduzir ​a dependência da China em ⁠relação a minerais essenciais.

A decisão da Comissão segue-se à ratificação do acordo pela Argentina e pelo ⁠Uruguai na quinta-feira. Na quarta, a Câmara dos Deputados do Brasil aprovou o acordo, que agora seguirá para o Senado.

“Já disse antes, quando eles estiverem prontos, nós estaremos prontos”, afirmou a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, em uma breve declaração. “Nessa base, a Comissão irá agora prosseguir com a aplicação provisória.”

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(Reportagem de Philip ​Blenkinsop)