Kristi Noem cai nos EUA: por que Trump trocou peça-chave de ação anti-imigração

Mudança reacende debate sobre deportações em massa e políticas de imigração linha-dura

Reuters

A secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, testemunha em uma audiência da Comissão de Segurança Interna da Câmara sobre o orçamento do Departamento de Segurança Interna (DHS), no Capitólio, em Washington, D.C., EUA, em 14 de maio de 2025. REUTERS/Anna Rose Layden
A secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, testemunha em uma audiência da Comissão de Segurança Interna da Câmara sobre o orçamento do Departamento de Segurança Interna (DHS), no Capitólio, em Washington, D.C., EUA, em 14 de maio de 2025. REUTERS/Anna Rose Layden

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Kristi Noem, que supervisionou a agressiva repressão à imigração liderada pelo presidente Donald Trump e enfrentou críticas bipartidárias em audiências nesta semana, deixará o cargo de chefe do Departamento de Segurança Interna (DHS) no final do mês.

Trump anunciou que nomeará o senador de Oklahoma, Markwayne Mullin, para substituí-la, em uma medida que exige confirmação do Senado.

Noem, ex-governadora de Dakota do Sul, tornou-se uma das integrantes mais proeminentes do gabinete de Trump, usando as mídias sociais para retratar imigrantes em termos duros, destacando casos de supostos criminosos e empregando linguagem virulenta.

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Em janeiro, Noem foi criticada ao rotular rapidamente dois cidadãos norte-americanos, mortos a tiros por agentes federais de imigração em Minneapolis, como responsáveis por “terrorismo doméstico”. Vídeos divulgados depois das mortes contrariaram as alegações de Noem e de outras autoridades do governo Trump, indicando que os dois mortos — Renee Good e Alex Pretti — não eram agressores violentos.

A reação pública às mortes levou o governo Trump a adotar uma abordagem mais direcionada à fiscalização da imigração em Minnesota, após meses de operações em cidades norte‑americanas que resultaram em confrontos violentos com moradores contrários à repressão.

Democratas da Câmara dos Deputados dos EUA pediram o impeachment de Noem, e pelo menos dois republicanos no Congresso defenderam que ela deixasse o cargo após os incidentes. Durante audiências no Congresso nesta semana, democratas e alguns republicanos criticaram Noem por sua abordagem à repressão à imigração e pela gestão do DHS, incluindo questionamentos sobre uma campanha publicitária de US$ 220 milhões que dava forte destaque à sua imagem.

Trump disse à Reuters nesta quinta-feira que não aprovou a campanha publicitária.

“Nunca soube de nada sobre isso”, afirmou em entrevista por telefone.

Os anúncios destacavam Noem, incluindo uma cena em que ela aparece a cavalo no Monte Rushmore, em seu estado natal, Dakota do Sul.

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Em uma das audiências no Congresso, o senador republicano John Kennedy perguntou a Noem se Trump havia aprovado os comerciais.

“O presidente aprovou com antecedência que você gastasse US$ 220 milhões em anúncios de TV em todo o país nos quais você aparece com destaque?”, questionou Kennedy.

“Sim, senhor. Passamos pelos processos legais e fizemos tudo corretamente”, respondeu ela.

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Forte adesão à linha dura de Trump na imigração

A mudança na equipe levanta dúvidas sobre se o governo Trump buscará intensificar o esforço de deportação em massa ou recuar para uma abordagem mais direcionada. Sob a liderança de Noem, agentes de imigração mascarados realizaram operações em Los Angeles, Chicago e Washington, vasculhando bairros e estacionamentos da Home Depot em busca de possíveis infratores de imigração.

Mullin, que passou uma década na Câmara dos Deputados antes de se tornar senador em 2023, também apoia a agenda de imigração linha-dura de Trump. Para assumir o comando do DHS, ele precisará da confirmação do Senado.

A popularidade da política de imigração de Trump diminuiu à medida que agentes detiveram cidadãos norte‑americanos e lançaram gás lacrimogêneo nas ruas em tentativas de ampliar as deportações, que no ano passado ficaram abaixo da meta de 1 milhão por ano estabelecida pelo governo.

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Embora Noem, 54, tenha sido uma importante defensora da agenda de Trump, o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller, assessor de longa data de Trump, continua a controlar a política de imigração do governo.

Noem foi rapidamente confirmada para liderar o DHS, com 260 mil funcionários, em janeiro de 2025, após Trump assumir o cargo. Nas redes sociais, ela frequentemente se referia a imigrantes condenados por crimes como “canalhas”, mesmo enquanto o número de não criminosos presos pelas autoridades de imigração aumentava sob sua gestão.

Ela participou de operações de fiscalização da imigração na cidade de Nova York e visitou uma prisão de segurança máxima em El Salvador, onde imigrantes venezuelanos deportados pelo governo Trump eram mantidos sem acusações formais ou acesso a advogados.

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O número de imigrantes detidos ao tentar atravessar ilegalmente a fronteira entre os EUA e o México despencou sob as políticas restritivas de Trump, após níveis elevados de imigração ilegal durante o governo do ex-presidente Joe Biden, democrata.

Noem também tomou medidas para reduzir programas de imigração legal e ampliar o controle. Ela encerrou vários programas de Status Protegido Temporário que concediam permissões de trabalho a centenas de milhares de imigrantes da Venezuela, do Haiti e de outros países, o que motivou contestação judicial.

Depois que um imigrante afegão foi acusado de atacar membros da Guarda Nacional em Washington, Noem afirmou ter recomendado a Trump “uma proibição total de viagens para todos os países que estão inundando nossa nação com assassinos, sanguessugas e viciados em direitos”.

Críticos acusam Noem de demonizar imigrantes e de promover uma estratégia de aplicação da lei de imigração que tem como alvo trabalhadores e famílias sem antecedentes criminais.

Durante seu mandato, o número de mortes em detenções de imigrantes atingiu o maior nível em duas décadas, enquanto as equipes dos escritórios de supervisão do DHS foram reduzidas drasticamente.