Sem citar escândalos, Papa diz que Igreja deve ter a coragem de encarar seu passado

Leão fez declaração antes de visitar vítimas de abuso na França

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LOURDES, FRANÇA, 27 Set (Reuters) – O papa Leão exortou a ⁠Igreja Católica neste domingo a reconhecer suas próprias falhas e a sanar as “feridas profundas” ⁠infligidas em suas fileiras, poucas horas antes de se reunir com vítimas de abusos cometidos por padres na ‌França.

Dirigindo-se a uma multidão que se estendia por um grande campo próximo ao famoso santuário católico de Lourdes, Leão disse que a Igreja deve ter a coragem de encarar seu passado, mas não fez referência direta aos escândalos de abuso ‌na França que causaram comoção em todo o país.

“Para curar as feridas profundas, as infidelidades e os erros dolorosos que ocorreram dentro (da Igreja), devemos humildemente nos colocar sob o olhar purificador do Senhor”, disse o primeiro papa norte-americano a cerca de 150 mil pessoas reunidas no campo em um dia ensolarado.

Leão faz uma visita relâmpago de quatro dias a três cidades na França, onde mais uma vez fez um apelo para que o mundo reconsidere o desenvolvimento da inteligência artificial. Ele atraiu cerca de 800 mil pessoas ⁠para ‌uma missa ao ar livre nos Champs-Élysées, em Paris, no sábado.

Líderes da Igreja local esperam que ele ajude a restaurar a ⁠reputação da instituição após um relatório de 2021 revelar que cerca de 330 mil crianças francesas foram vítimas de abuso por parte de clérigos católicos e líderes leigos ao longo de sete décadas.

Em uma reunião anterior a portas fechadas com os bispos franceses neste domingo, Leão se referiu diretamente ao “doloroso flagelo dos abusos cometidos contra menores por membros do clero”, segundo um texto divulgado pelo Vaticano.

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O papa agradeceu aos bispos pelas “medidas corajosas” que, segundo ele, foram tomadas ​para enfrentar os escândalos. Leão os incentivou a redobrar seus esforços de proteção e a “continuar no caminho trilhado, mantendo a máxima vigilância”.

CETICISMO

Leão já havia se desculpado diretamente pelos escândalos de abuso que prejudicaram a credibilidade da Igreja em todo ​o mundo. Em uma viagem à Espanha em junho, ele disse aos bispos locais que eles deveriam ouvir as vítimas e oferecer-lhes reparações.

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O papa deve se reunir a portas fechadas com sete vítimas francesas de abuso por parte do clero ainda neste domingo. Alguns sobreviventes disseram duvidar que o encontro resulte em mudanças rápidas por parte da Igreja.

“Estou bastante cética quanto à possibilidade de o papa resolver a questão, pelo menos não imediatamente”, disse à Reuters Michèle Le Reun-Gaigné, copresidente de uma ‌associação de sobreviventes no oeste da França.

“As coisas estão avançando muito lentamente”, disse ela. “Isso ​não vai acontecer da noite para o dia.”

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O bispo Pierre-Antoine Bozo, porta-voz dos bispos franceses, afirmou que o desejo do papa de realizar o encontro “mostra que não podemos ignorar essa questão e que ela deve permanecer sempre entre nossas preocupações”.

A agenda do papa na França inclui seis eventos em Lourdes, uma ⁠cidade no sopé dos Pirineus que atrai cerca ​de 3 milhões de peregrinos por ​ano para visitas a um santuário dedicado à Virgem Maria e às supostas águas curativas da fonte.

O local também está ligado a um escândalo que tem ⁠atormentado o Vaticano nos últimos anos. A fachada do santuário exibe ​uma série de mosaicos do padre Marko Rupnik, um proeminente artista religioso com laços com o Vaticano, que foi acusado de abuso sexual.

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Rupnik, acusado por mais de 20 mulheres, não teria se pronunciado publicamente sobre as acusações. Cinco mulheres que o acusam escreveram uma carta aberta ao papa ​na quinta-feira, criticando duramente o julgamento do clérigo em andamento no Vaticano.

Os mosaicos, que se estendem por vários andares, foram cobertos para a visita do papa com grandes lonas amarelas de tom suave. Ao chegar ​para a missa neste domingo, Leão foi ⁠conduzido em seu papamóvel aberto até perto da fachada do santuário e dos mosaicos cobertos.

O papa, que na sexta-feira reiterou com veemência a oposição católica às iniciativas de ⁠morte assistida — dois meses após a França criar o direito legal de morrer para pessoas com doenças incuráveis –, mencionou novamente a postura pró-vida da Igreja em Lourdes.

Ao se reunir com voluntários que ajudam peregrinos doentes na esperança de encontrar um milagre nas águas do santuário, Leão os instou a se lembrarem do “profundo significado” do trabalho na área da saúde.

“Isso significa cuidar de uma pessoa que sofre, não eliminá-la”, disse o papa. “A medicina nunca deve se tornar serva da morte programada!”

(Reportagem de Joshua McElwee; reportagem adicional de Elizabeth Pineau e Makini ​Brice)

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