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O presidente Vladimir Putin parece ter assegurado uma vitória diplomática que buscava há anos, com um acordo bilionário para a construção do gasoduto Power of Siberia 2, que ligará Rússia e China por décadas e poderá redefinir o comércio global de gás.
O chefe da Gazprom, Alexey Miller, afirmou à imprensa russa em Pequim que a gigante do gás assinou um acordo juridicamente vinculante para construir o tão aguardado gasoduto Power of Siberia 2 até a China, via Mongólia. Embora Pequim ainda não tenha confirmado os detalhes, qualquer avanço no projeto é um triunfo diplomático para Putin, enquanto Moscou enfrenta o impacto das sanções ocidentais.
O anúncio ocorreu durante encontro amistoso entre o líder chinês Xi Jinping e Putin, em Pequim, na terça-feira. Xi chamou Putin de “velho amigo” e afirmou que as relações China-Rússia “resistiram ao teste das mudanças nas circunstâncias internacionais”. Putin agradeceu a recepção calorosa e disse que os laços entre os dois países estão em “nível sem precedentes”.
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A China também anunciou que cidadãos russos com passaportes comuns poderão entrar no país sem visto, em caráter experimental, o que deve aumentar o turismo e viagens de negócios em 30% a 40%, segundo um grupo de lobby russo.
Desde a invasão total da Ucrânia pela Rússia, no início de 2022, Xi e Putin têm aproximado seus países. Xi aproveita a reunião da Organização de Cooperação de Xangai e um grande desfile militar na capital chinesa para estreitar relações com Putin e outros líderes mundiais, especialmente o primeiro-ministro indiano Narendra Modi.
Essa aproximação diplomática ocorre após o presidente dos EUA, Donald Trump, impor tarifas a países como China e Índia, em retaliação às suas compras de petróleo russo.
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O acordo da China para comprar mais gás russo também representa uma repreensão ao presidente americano, que recentemente impôs tarifas de 50% sobre produtos indianos.
Os laços entre Pequim e Moscou têm beneficiado ambos os lados, enquanto a economia russa enfrenta sanções ocidentais devido à guerra na Ucrânia. O comércio bilateral atingiu recorde de US$ 245 bilhões em 2024, um aumento de 68% em relação a 2021, segundo dados da alfândega chinesa.
O avanço do Power of Siberia 2, porém, estabelecerá um novo marco na proximidade entre os países. As negociações sobre o mega-projeto estavam paradas há anos. Enquanto a Rússia busca avançar para compensar a redução das entregas à Europa após a invasão, a China tem sido mais cautelosa, devido à desaceleração da demanda por gás e ao receio de depender excessivamente de um único fornecedor.
Miller afirmou que a Gazprom poderá enviar até 50 bilhões de metros cúbicos por ano pelo Power of Siberia 2 durante 30 anos. A empresa também aumentará os fluxos em dois outros gasodutos para a China.
A China ainda não comentou os detalhes do acordo. A agência estatal Xinhua, ao reportar as reuniões bilaterais, não mencionou especificamente o gasoduto, mas informou que os países assinaram mais de 20 acordos de cooperação, incluindo na área de energia.
Comentários de Miller deixam várias questões sobre o Power of Siberia 2 em aberto. O preço que a China pagará pelo gás ainda não foi definido, embora seja inferior ao cobrado atualmente pela Gazprom na Europa, segundo Miller.
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Também não está claro se a China poderá comprar volumes flexíveis do gasoduto ou se terá que adquirir a capacidade total. Além disso, não há cronograma para a construção ou início das entregas. Detalhes financeiros também permanecem incertos.
“Creio que algo juridicamente vinculante — um memorando de entendimento sem o preço — é uma forma elaborada de dizer que a China está potencialmente interessada”, disse Alexander Gabuev, diretor do Carnegie Russia Eurasia Center. Mas um acordo comercial completo, com todos os parâmetros definidos, ainda não existe, acrescentou.
Se os três acordos de gás se concretizarem, as exportações russas para o leste saltarão para mais de 100 bilhões de metros cúbicos por ano, consolidando a Rússia como maior fornecedora de gás por gasoduto para a China.
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A Gazprom precisa do mercado asiático para sustentar suas exportações após praticamente perder a Europa, onde vendia até 150 bilhões de metros cúbicos por ano antes da invasão da Ucrânia. Agora, o produtor russo exporta cerca de um décimo desse volume para alguns compradores na região, incluindo Hungria e Eslováquia.
O Power of Siberia 2 receberá gás dos mesmos campos que antes abasteciam o mercado europeu, reforçando o plano da Gazprom de se voltar para o leste.
A Gazprom precisa desse movimento, já que a União Europeia considera um plano para banir o fornecimento de gás russo sob contratos de curto prazo a partir de 17 de junho de 2026, com exceção para países sem saída para o mar, como Hungria e Eslováquia. A proibição para contratos de longo prazo entraria em vigor até o final de 2027.
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Putin está em Pequim para um grande desfile militar que marca o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. É uma retribuição à visita de Xi a Moscou no início deste ano para evento semelhante que celebrou a vitória da Rússia sobre os nazistas. Tropas chinesas participaram do desfile de 9 de maio na Praça Vermelha, formando o maior contingente estrangeiro.
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