Por que o Irã não fez ataques terroristas durante a guerra? Especialista responde

Diretor de think tank internacional lista hipóteses para o regime dos aiatolás não ter incluído esses ataques como retaliação aos bombardeios

Roberto de Lira

Combatentes curdos iranianos do Partido da Liberdade do Curdistão (PAK) participam de treinamento em base nos arredores de Erbil, no Iraque - 12/02/2026 (Foto:  REUTERS/Stringer TPX)
Combatentes curdos iranianos do Partido da Liberdade do Curdistão (PAK) participam de treinamento em base nos arredores de Erbil, no Iraque - 12/02/2026 (Foto: REUTERS/Stringer TPX)

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Os Estados Unidos descrevem há muito tempo o Irã como “o principal Estado patrocinador do terrorismo”, chegando a designar o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) como grupo terrorista. E o regime dos aiatolás apoia e financia grupos armados o Hezbollah, o Hamas e os houthis do Iêmen. Portanto, uma pergunta importante tem sido feita até por especialistas em geopolítica: por que o Irã não retaliou os ataques ao país com ações terroristas?

Para Daniel Byman, diretor do Programa de Guerra, Ameaças Irregulares e Terrorismo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), essa é uma questão que pode ter variadas respostas.

Ele lembra que o regime de Teerã e seus “procuradores” conduziram ou tentaram conduzir ataques em países tão diferentes quanto Argentina, Bahrein, Bósnia, Bulgária, Alemanha, Quênia, Arábia Saudita, Turquia e Estados Unidos, entre outros.

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Esse histórico, comenta o especialista se estende por décadas e inclui tanto ataques internacionais espetaculares quanto operações mais limitadas, concebidas para sinalizar determinação sem desencadear uma guerra em grande escala.

“Dado esse histórico, seria razoável pensar que o Irã usaria o terrorismo em sua guerra de 2026 com Israel e os Estados Unidos, ambos tendo declarado a ‘mudança de regime’ como um de seus objetivos”, escreve Byman. No entanto, até agora, ao menos, o Irã não recorreu ao terrorismo, embora tenha lançado ataques com foguetes, mísseis e drones contra alvos civis e militares na região e tenha fechado o Estreito de Ormuz.

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O diretor do think tank lista uma série de possíveis explicações para essa surpreendente ausência de terrorismo. Cada uma aponta para uma restrição diferente sobre a tomada de decisão iraniana, variando de limites operacionais a contenção estratégica:

1 – Incapacidade temporária

Essa é a explicação mais simples e talvez a que melhor espelhe a situação atual, diz Byman. Ou seja, o Irã não realizou ataques terroristas contra os Estados Unidos e seus aliados simplesmente porque não foi capaz de fazê-lo. Ele comenta que os ataques israelenses e norte‑americanos ao Irã, especialmente a campanha de assassinatos que matou mais de 250 importantes líderes políticos e militares iranianos, demonstraram uma notável penetração de inteligência no país.

“Embora a inteligência necessária para atingir líderes seja diferente daquela necessária para desarticular operações, é plausível que algumas das técnicas que levaram aos assassinatos também tenham revelado informações sobre operações terroristas, permitindo sua interrupção”, explica.

Ele acrescenta que é também provável que a campanha de assassinatos tenha prejudicado o comando e controle, dificultando a organização e direção de operações ao mesmo tempo em que os líderes precisavam se esconder de ataques aéreos dos EUA e de Israel. “Nesse sentido, a ausência de terrorismo pode refletir não contenção, mas incapacidade temporária — uma supressão, baseada em inteligência, das redes externas do Irã em um momento crítico.”

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2 – Temor de escalada

A segunda possibilidade aventada é que o Irã temesse uma escalada e retaliação ainda mais forte por parte dos Estados Unidos e de Israel. Isso pode parecer um medo estranho, dada a potência de fogo liberada nas Operações Epic Fury e Lion’s Roar (o equivalente israelense). Os Estados Unidos, contudo, poderiam facilmente ter infligido ainda mais danos ao Irã. Donald Trump já prometeu desencadear destruição sobre “uma civilização inteira” e atacar usinas elétricas e pontes, e os Estados Unidos também estavam enviando forças terrestres para a região do Golfo.

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“O terrorismo, particularmente contra o território continental dos EUA ou alvos civis de alto perfil, corria o risco de transformar uma guerra limitada em um conflito muito mais amplo e existencial para o regime iraniano”, argumenta Byman.

3 – Perda de apoio internacional

A terceira possibilidade comentada é o risco de reação internacional adversa para o Irã. A guerra contra o Irã não tem grande apoio popular nos Estados Unidos, mas um ataque terrorista poderia aumentar sua aprovação, criando uma motivação (“casus belli”) antes fraca ou inexistente.

O conflito é ainda menos popular na Europa e na Ásia, mas o especialista alerta que ataques terroristas no continente europeu poderiam aumentar a hostilidade em relação ao Irã e, assim, elevar o número de apoiadores dos ataques norte‑americanos e israelenses. “Em vez de dividir os adversários do Irã, o terrorismo poderia uni-los — fortalecendo a vontade política, legitimando a escalada e minando os esforços de Teerã de se apresentar como vítima de agressão.”

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4 – Espera por oportunidade

A quarta possibilidade é considerada por Byman como a mais sombria: os ataques terroristas já estariam em preparação. “A vingança, como sorvete, é melhor servida fria. O Irã esperou mais de um ano para começar a tramar o assassinato do ex‑assessor de Segurança Nacional John Bolton, por causa de seu papel na morte, pelos EUA, do líder da Força Quds do IRGC, Qasem Soleimani”, lembra o diretor do think tank.

Essa violência norte‑americana empalidece se comparada à escala das mortes em 2026, incluindo o assassinato do líder supremo do Irã, do chefe de inteligência, do comandante do IRGC e de muitos outros. “O Irã pode simplesmente estar esperando a oportunidade certa para se vingar, talvez aguardando até que o conflito esteja completamente encerrado e o risco de escalada seja menor.”

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5 – Pouca vantagem estratégica

Uma quinta possibilidade é que os líderes iranianos acreditem não precisar recorrer ao terrorismo porque sua resposta atual já obteve êxito. Ataques com drones, mísseis, interrupções no transporte marítimo e guerra por procuração já permitiram a Teerã impor custos e criar um fator de dissuasão eficaz contra a retomada da guerra. “Nesse contexto, o terrorismo pode ter se mostrado redundante — oferecendo pouca vantagem adicional, ao mesmo tempo em que implicaria riscos desproporcionais.”

Em conjunto, essas explicações sugerem que a contenção do Irã é contingente, não permanente, diz Byman. “Seja por limitações de capacidade, cautela estratégica ou questões de timing, a lógica subjacente que há muito tempo impulsiona o uso do terrorismo pelo Irã pode estar simplesmente adormecida — por enquanto.”