O que é o “Domo de Ouro”, o escudo de defesa dos EUA – e o que se sabe sobre ele

Projeto de defesa prevê rede de satélites, radares, interceptores e lasers até 2028, com custo estimado em US$ 175 bilhões

Sara Baptista

O presidente dos EUA, Donald Trump, observa enquanto faz um anúncio sobre o escudo de defesa antimísseis Domo de Ouro, com o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth (não retratado), no Salão Oval da Casa Branca em Washington, D.C., EUA, em 20 de maio de 2025. REUTERS/Kevin Lamarque
O presidente dos EUA, Donald Trump, observa enquanto faz um anúncio sobre o escudo de defesa antimísseis Domo de Ouro, com o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth (não retratado), no Salão Oval da Casa Branca em Washington, D.C., EUA, em 20 de maio de 2025. REUTERS/Kevin Lamarque

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Depois de semanas insistindo na importância da Groenlândia, o presidente dos Estados Unidos detalhou pela primeira vez, na quarta-feira (14), os motivos de seu interesse pelo território. Para ele, a ilha autônoma sob domínio da Dinamarca é estratégica para a construção do “Domo de Ouro”, um amplo sistema de defesa antimísseis dos EUA.

O “Domo de Ouro” é concebido como uma rede de proteção capaz de detectar, rastrear e, se necessário, interceptar mísseis em diferentes fases de um ataque: antes do lançamento, durante o trajeto e nos momentos finais, pouco antes do impacto.

Inspirado no “Domo de Ferro” de Israel, o projeto americano seria muito maior, devido à geografia do país e à extensão de suas fronteiras.

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O plano prevê quatro camadas de defesa, com 11 baterias de curto alcance distribuídas pelo território continental dos EUA, Alasca e Havaí. Uma camada seria espacial, baseada em satélites para alerta e rastreamento, e as outras três seriam terrestres, compostas por interceptores, radares e, potencialmente, lasers.

Prazo e custos

O cronograma divulgado pelo governo Trump é ambicioso: a meta é ter o sistema pronto até 2028. A ideia inicial era concluí-lo até o fim do mandato atual, em janeiro de 2029, mas, segundo o jornal britânico The Guardian, até lá será possível apenas realizar demonstrações.

Em cerca de 18 meses, o Pentágono espera ter a infraestrutura básica para rastrear centenas de mísseis em rota de ataque, ainda sem capacidade plena para neutralizá-los.

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O custo estimado é de US$ 175 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão). Até agora, o Congresso destinou US$ 25 bilhões ao projeto na lei de impostos e gastos aprovada em julho, e outros US$ 45,3 bilhões constam no pedido de orçamento presidencial para 2026.

Por que a Groenlândia é estratégica?

A Groenlândia entra nessa equação principalmente por sua localização. O território está entre os Estados Unidos e a Rússia, e a rota aérea mais curta entre os dois países passa pela região. Com uma presença mais robusta na ilha, os EUA ganhariam acesso ampliado ao Ártico, área em que hoje têm presença limitada.

A geografia permitiria instalar baterias de interceptores e radares voltados especialmente para uma eventual ameaça russa, além de monitorar rotas marítimas cada vez mais relevantes com o derretimento do gelo polar. Nessas passagens, Washington poderia vigiar de perto embarcações chinesas e russas.

A Groenlândia também abriga grandes reservas de petróleo, gás, minerais críticos e terras raras — insumos estratégicos para energia e tecnologia.

Os EUA já mantêm uma base militar na ilha, mas a presença é modesta se comparada à época da Guerra Fria, quando cerca de 10 mil militares americanos serviam ali; hoje, o contingente não passa de 200.

Reação

Desde o anúncio do “Domo de Ouro”, em maio de 2025, diversas potências reagiram negativamente.

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Em declaração conjunta, os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e da China, Xi Jinping, classificaram o projeto como “profundamente desestabilizador”. Moscou reforçou as críticas por meio de uma porta-voz, que descreveu o escudo como expressão de uma “doutrina extremamente perigosa de ataques preventivos” por parte dos EUA. Já a Coreia do Norte afirmou que a iniciativa alimenta uma corrida nuclear e espacial.

Mais recentemente, países europeus têm manifestado preocupação específica com os planos de Trump para a Groenlândia: em meio a temores de uma eventual intervenção americana na ilha, Alemanha, França, Suécia e Noruega anunciaram o envio de militares para reconhecimento de terreno e exercícios na região ártica.

Em sentido oposto, Canadá e Japão sinalizaram interesse em investir no sistema.

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Estruturas semelhantes

A ideia de um megasistema antimísseis não é exclusiva dos EUA. Israel opera o “Domo de Ferro”, que por anos foi visto como quase infalível, até ser superado em parte por ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.

A Rússia mantém desde os anos 1990 o sistema A-135, focado na proteção de Moscou, além de cerca de 56 baterias S-400, capazes de interceptar aeronaves, drones e mísseis a até 400 km. A China desenvolveu o HQ-19, voltado para ameaças hipersônicas.

Índia, Taiwan, Japão, Irã, França, Reino Unido e Itália também investem em estruturas de defesa com capacidade de detectar e interceptar mísseis.

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*Com informações da Reuters e Agência O Globo.