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A delegação brasileira, liderada por Pedro Leão Velloso e com presença de Bertha Lutz, participou da elaboração da Carta da ONU em 1945, emplacando avanços importantes, como a defesa da igualdade de gênero. Mas também saiu de lá com expectativas que nunca se concretizaram – entre elas, um assento permanente no Conselho de Segurança.
80 anos depois, a trajetória do Brasil na ONU carrega conquistas relevantes, assim como frustrações que ainda pesam na política externa do país.
Breve histórico: Brasil na ONU desde a fundação
- 1942: Em apoio à Declaração das Nações Unidas, o Brasil rompe relações com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
- 1944: Participa das discussões preliminares da futura Organização das Nações Unidas em Dumbarton Oaks, nos Estados Unidos.
- 1945: Envia delegação com oito diplomatas para a Conferência de São Francisco, e assina a Carta das Nações Unidas como membro fundador.
- 1955 em diante: com Oswaldo Aranha, inaugura a tradição de abrir os debates anuais da Assembleia Geral da ONU, que se mantém até hoje.
O que o Brasil conquistou de lá para cá
Ao longo de oito décadas, algumas contribuições brasileiras deixaram um legado concreto na ONU. Entre elas, três merecem destaque: a defesa da igualdade de gênero, a tradição de abertura dos debates anuais e a ênfase em temas sociais e ligados à saúde.
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1 – Igualdade de gênero na Carta da ONU
Entre as maiores marcas do Brasil na fundação da ONU está a atuação de Bertha Lutz, bióloga formada pela Universidade de Sorbonne e uma das líderes do movimento sufragista brasileiro.
Na época, a presença feminina em negociações diplomáticas praticamente não existia. Lutz, que já era reconhecida pela defesa dos direitos das mulheres, conseguiu articular apoio de outras delegações latino-americanas para que constasse na Carta a expressão “igualdade de direitos entre homens e mulheres”.
A alteração no texto original foi pequena, mas fez toda a diferença, pois, antes, a Carta falava em “direitos humanos” somente, sem destacar o recorte de gênero. Com a contribuição brasileira, a ONU se comprometeu formalmente com a igualdade, o que permitiu o avanço de agendas globais décadas mais tarde, como a criação da ONU Mulheres em 2010.
O impacto da atuação de Bertha Lutz foi duplo: ao mesmo tempo que consolidou seu nome como uma das pioneiras do feminismo internacional, projetou o Brasil como voz progressista em direitos humanos.
Leia também:
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- Por que o Brasil abre o discurso na ONU e o que a tradição revela sobre a diplomacia
2 – Tradição diplomática na Assembleia Geral
Outra conquista duradoura do Brasil na ONU é a tradição de abrir os debates anuais desde 1955.
Apesar de não se traduzir em poder político na prática, o gesto tem grande valor simbólico. Para um país que não está entre as grandes potências econômicas, o espaço acaba sendo uma importante vitrine internacional, pois cada palavra de quem discursa em um palco global é observada.
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E a tradição ainda reforça uma das marcas mais conhecidas da diplomacia brasileira, que é a da disposição ao diálogo multilateral – inclusive em negociações mais complexas.
3 – Abordagem de temas sociais e de saúde
O Brasil foi um dos primeiros países que trouxe para a ONU assuntos como saúde pública, cooperação e desenvolvimento social. Para um país com histórico de pobreza e epidemias, fazia sentido defender pautas além da segurança internacional, com foco no bem-estar coletivo.
Isso ampliou o escopo da organização, ajudando a criar as bases para o Conselho Econômico e Social (Ecosoc) e fortalecendo instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS). A contribuição brasileira foi importante para que a ONU se tornasse uma entidade com braços de atuação além da diplomacia militar e da resolução de conflitos.
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O que ainda está na promessa
Se por um lado o Brasil teve sucesso em determinadas pautas, por outro não conseguiu avançar em algumas das principais ambições no sistema multilateral. Nesse contexto, duas frustrações se destacam: o equilíbrio de poder nas decisões gerais e a busca por uma vaga permanente no Conselho de Segurança.
1 – Equilíbrio de poder: Assembleia x Conselho de Segurança
O Conselho de Segurança é formado por cinco membros permanentes – EUA, Rússia, China, Reino Unido e França – com direito a veto às decisões da Assembleia Geral.
Desde a Conferência de São Francisco, o Brasil já alertava para o risco dessa concentração de poder, defendendo mais peso ao voto igualitário das assembleias.
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Porém, essa proposta nunca avançou. O Conselho de Segurança continua sendo responsável pelos tratados vinculantes de paz e segurança internacional. Já as assembleias aprovam recomendações, mas nada acontece se não tiverem a anuência do verdadeiro centro de poder da ONU.
Um exemplo foi a condenação ao apartheid na África do Sul, aprovada por ampla maioria em 1962. Mas foi somente em 1977 que o Conselho de Segurança gerou as sanções obrigatórias – 15 anos depois da decisão da Assembleia.
2 – Assento permanente no Conselho de Segurança
Desde o início da ONU, o Brasil esperava integrar o grupo de membros permanentes, não só pela extensão territorial e população, mas também pelo seu alinhamento com os Aliados.
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No entanto, isso nunca se concretizou, embora já tenha sido eleito 11 vezes como membro não permanente (mais do que qualquer outro país).
Países como o Brasil podem fazer propostas e participar de negociações, mas não têm poder para influenciar grandes decisões de segurança global. Em outras palavras, a trajetória brasileira se restringe a conquistas simbólicas de grande relevância, mas distante de uma atuação de poder dentro da entidade. Essa é uma desvantagem em relação aos membros permanentes, que efetivamente ditam os rumos estratégicos da ONU.