Mais de 500 crianças morrem em surto de sarampo em Bangladesh; entenda a doença

O Brasil registrou casos isolados da doença nos últimos anos graças a vacinação que começa com a aplicação de imunizantes em bebês aos 12 meses de vida

Agência O Globo

Um homem segura uma criança infectada com sarampo que recebe tratamento no Hospital DNCC, após um surto da doença em todo o país, em Daca, Bangladesh, 6 de maio de 2026. REUTERS/Mohammad Ponir Hossain
Um homem segura uma criança infectada com sarampo que recebe tratamento no Hospital DNCC, após um surto da doença em todo o país, em Daca, Bangladesh, 6 de maio de 2026. REUTERS/Mohammad Ponir Hossain

Publicidade

Um surto de sarampo em Bangladesh matou mais de 500 crianças e os números continuam a subir. Apenas no sábado foram registrados nas 24 horas, 13 óbitos, elevando o total para 512, de acordo com uma contagem do departamento de saúde que começou em 15 de março. Este já é o pior surto em décadas.

A maioria dos casos registrados durante o surto atual ocorreu em crianças com idades entre seis meses e cinco anos.

O sarampo, que não tem tratamento específico após a infecção, é uma doença viral altamente contagiosa que se espalha por meio da tosse e dos espirros. A doença afeta principalmente crianças e pode causar complicações graves, incluindo pneumonia, inflamação cerebral e morte, particularmente entre crianças desnutridas ou não vacinadas. A doença continua sendo uma das principais causas de morte infantil evitável por vacinação em todo o mundo.

Um dos sintomas característicos da doença é o exantema, nome dado para as pequenas erupções avermelhadas que aparecem na pele. Elas começam a surgir depois de poucos dias de infecção e costumam iniciar na região do tronco.

Outros sinais do sarampo são:

O sarampo tem grande potencial de gravidade, principalmente em crianças menores de 5 anos de idade, pessoas desnutridas e imunodeprimidas.

Continua depois da publicidade

Os hospitais da capital, Daca, que estão sobrecarregados com casos, criaram alas dedicadas, mas não possuem um número suficiente de leitos de terapia intensiva. A nação sul-asiática de 175 milhões de habitantes lançou uma campanha de vacinação em massa para combater o surto.

A chefe do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) no país, Rana Flowers, afirmou esta semana que a campanha já alcançou 18 milhões de crianças. O órgão afirmou ainda que as lacunas na imunização se agravaram durante e após o caos da revolta estudantil de 2024 que derrubou o governo, deixando muitas crianças desprotegidas.

Os médicos afirmam que muitas das crianças que chegavam aos hospitais já estavam em estado crítico.

“Embora o sarampo seja altamente contagioso, um bebê saudável e sem complicações pode sobreviver com medicação mínima”, disse Ainul Islam Khan, pediatra do Hospital e Faculdade de Medicina Shaheed Suhrawardy, em Dhaka, à agência de notícias AFP.

“Aqui, a maioria das crianças chegava ao hospital com dificuldades respiratórias e infecções nos olhos, garganta e pulmões”, informou ele.

O número de mortes divulgado pelo departamento de saúde surge após o governo ter afirmado que o surto estava agora contido, salientando uma diminuição dos casos em várias áreas anteriormente muito afetadas.

Continua depois da publicidade

Até 20 de maio, Bangladesh tinha registrado 57.856 casos suspeitos de sarampo e 8.067 casos confirmados em todos os seus 64 distritos — sendo 81% dos casos relatados em crianças menores de cinco anos.

Ainda segundo os dados divulgados, mais de 18 milhões de crianças foram vacinadas por meio da campanha nacional contra sarampo e rubéola (SR), superando a meta inicial e atingindo uma cobertura de 102%.

O governo pretende estender a campanha de vacinação contra sarampo e rubéola por mais um mês, especialmente em áreas carentes e de difícil acesso, onde a transmissão permanece alta.

Continua depois da publicidade

Sarampo no Brasil

O Brasil registrou casos isolados de sarampo nos últimos anos graças a uma vacinação bem estruturada, que começa com a aplicação de imunizantes em bebês aos 12 meses de vida. Por isso, atualmente, sua taxa de mortalidade não é alta. Em 2016, inclusive, o Brasil recebeu um certificado de eliminação do sarampo, já que o vírus causador da doença não circulava mais no país.

Isso mudou a partir de 2018, quando surtos isolados voltaram a atingir os brasileiros — principalmente por falhas no programa de vacinação. Naquele ano, foram confirmados 10.346 casos da doença. Em 2020, foram 8.448 casos confirmados e dez óbitos registrados, segundo o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde.

Em 2023, não houve casos confirmados. Já em 2024, foram confirmados cinco casos, sendo a maioria importada ou relacionada a viagens internacionais.

Continua depois da publicidade

Em 2025, foram confirmados 38 casos no Brasil, distribuídos em diferentes estados. Parte dos casos esteve associada a viagens internacionais, e outros ocorreram em pessoas sem vacinação ou com esquema vacinal incompleto.

Em 2026, até a semana epidemiológica 14, foram confirmados dois casos sendo 1 no estado de São Paulo, associado a viagem internacional e ausência de vacinação e 1 no Rio de Janeiro, com fonte de infecção desconhecida e ausência de registro de vacinação.

Em novembro de 2024, o Brasil recebeu novamente da Organização Pan-Americana da Saúde a recertificação da eliminação da circulação endêmica do sarampo e mantém o status de país livre da doença até os dias atuais.

Continua depois da publicidade

O sarampo é uma doença infecto-contagiosa, seu índice de contágio é muito elevado: é mais transmissível que catapora, Covid-19 e caxumba, por exemplo. A incidência de casos em brasileiros só costuma acontecer por meio de pessoas que vieram de países da Europa ou da Ásia, por exemplo.

O que o sarampo pode causar?

Além dos sintomas simples, o sarampo pode levar a diversas complicações mais graves. A mais comum é a pneumonia bacteriana — principal responsável pela morte de crianças desnutridas. Há também as complicações neurológicas, que podem ser agudas, como a encefalite transitória.

Outra possibilidade é a encefalite crônica, mais perigosa e que tem mais chances de levar ao óbito. Ela é rara e ocorre anos depois do sarampo, resultado da persistência do vírus no sistema nervoso central.

Como ocorre a transmissão do sarampo?

A transmissão do vírus causador do sarampo acontece, principalmente, de forma direta, de pessoa para pessoa: ao tossir, espirrar, falar ou respirar próximo a indivíduos sem imunidade contra a doença. A infecção também pode ocorrer pelo ar em ambientes fechados, mas com frequência menor.

Quanto tempo o vírus do sarampo demora a se manifestar?

O sarampo é altamente contagioso: 90% das pessoas suscetíveis podem ser infectadas ao entrarem em contato com alguém contaminado. A doença, porém, dá imunidade definitiva: só se tem sarampo uma vez. O momento mais perigoso para a transmissão é entre dois dias antes de o exantema surgir até cinco dias depois. O período que o vírus demora para se manifestar é entre oito e 13 dias.

Como é a vacinação do sarampo?

No caso dos adultos, o Ministério da Saúde disponibiliza duas doses para os menores de 30 anos. Com os menores de 40 anos, é uma única dose, pela chance de esses indivíduos mais velhos já terem sido expostos ao sarampo. Acima de 60 anos, as doses não são injetadas.

— É difícil achar alguém com mais de 60 anos que não tenha sido exposto ao sarampo no passado. A recomendação do Ministério da Saúde, hoje, é não vacinar acima de 60. A não ser que sejam profissionais de saúde, aí a recomendação é vacinar indiscriminadamente — diz Kfouri.

Onde há grande circulação do sarampo, com casos de surtos em estados do Brasil, a vacinação se dá em três doses: aos seis meses, para proteger o primeiro ano de vida da criança, além das outras duas aos 12 meses e aos 15 meses.