“Indiscriminado”, “intolerável”, “brutal”: mundo condena ataques de Israel no Líbano

Dia mais mortal da guerra registrou 254 mortos e mais de 1.100 feridos, mesmo após Hezbollah interromper ataques com cessar-fogo; Netanyahu disse que operações continuarão “onde for necessário”

Paulo Barros

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“Indiscriminados”, “intoleráveis”, “brutais”: foi assim que aliados europeus, organismos internacionais e países do Oriente Médio descreveram os ataques de Israel no Líbano nesta quarta-feira (8), o dia mais letal desde o início da guerra, que matou mais de 254 pessoas e feriu outras 1.100, segundo o serviço de defesa civil libanês.

O governo brasileiro destacou que a intensificação da ofensiva ocorreu após o anúncio de cessar-fogo “em nova escalada de violência e instabilidade”. “Exorta, ainda, as partes envolvidas a cumprirem integralmente os termos da Resolução 1701 (2006) do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, acrescentou o Itamaraty em nota, em referência a resolução aprovada para por fim à violência entre o Hezbollah e Israel.

A intensidade dos ataques gerou reações de aliados que até então mantinham postura reservada. O presidente da França, Emmanuel Macron, classificou os bombardeios como “indiscriminados” e disse que representam “uma ameaça direta à sustentabilidade do cessar-fogo”.

O chanceler do Reino Unido, Yvette Cooper, chamou os ataques de “profundamente prejudiciais” e disse querer ver o Líbano incluído na trégua.

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou que o “desprezo de Netanyahu pela vida e pelo direito internacional é intolerável”.

A Itália convocou o embaixador israelense e seu chanceler, Antonio Tajani, disse querer “evitar uma segunda Gaza”.

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A Turquia condenou os ataques “nos termos mais veementes” e acusou o governo Netanyahu de minar “os esforços internacionais para a paz”.

O Qatar classificou a ofensiva como “massacres brutais” e pediu que a comunidade internacional force Israel a paralisá-los.

O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, disse que “a escala da matança e da destruição no Líbano é simplesmente horrível”. O secretário-geral António Guterres condenou “inequivocamente” os ataques e afirmou que representam “grave risco ao cessar-fogo”.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha disse estar “indignado” com a destruição em áreas densamente povoadas.

O Paquistão, mediador da trégua entre EUA e Irã, manteve a posição de que o Líbano está incluído no acordo. A divergência é um dos principais obstáculos às negociações presenciais marcadas para sexta-feira (10) em Islamabade, cuja realização segue incerta.

Dia mais mortal da guerra

Equipes de emergência atuam no local de um ataque israelense realizado na quarta-feira, em Ain Al Mraiseh, Beirute, Líbano, em 9 de abril de 2026. REUTERS/Louisa Gouliamaki

O IDF afirmou ter atingido simultaneamente mais de 100 centros de comando e instalações militares do Hezbollah em Beirute, no Vale do Bekaa e no sul do Líbano em um intervalo de dez minutos, o maior ataque coordenado desde o início do conflito. Pelo menos cinco explosões consecutivas abalaram a capital libanesa à tarde, lançando colunas de fumaça sobre a cidade.

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O maior número de mortes foi registrado em Beirute, com 91 vítimas. Israel também atingiu a última ponte sobre o rio Litani que ligava o sul do Líbano ao restante do país, e um porta-voz militar israelense declarou que a área ao sul do rio está “desconectada do Líbano”. Israel disse que pretende ocupar a região como uma “zona de contenção”.

O IDF divulgou ainda ter eliminado Ali Yusuf Harshi, secretário pessoal e sobrinho do líder do Hezbollah, Naim Qassem, em um ataque na região de Beirute. O Hezbollah não confirmou a informação, mas condenou o que chamou de “agressão bárbara” e afirmou que os ataques reforçam seu direito de responder.

O grupo havia interrompido ataques contra Israel no início da quarta, em cumprimento ao cessar-fogo, segundo três fontes libanesas ouvidas pela Reuters. “O Hezbollah foi informado de que fazia parte do cessar-fogo, então nós o cumprimos, mas Israel, como sempre, o violou”, disse o parlamentar sênior do grupo Ibrahim al-Moussawi à Reuters.

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O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou em discurso televisionado que o Líbano não faz parte da trégua com o Irã e que o IDF continuará atacando o Hezbollah “onde for necessário, até que a segurança plena seja restaurada aos residentes do norte” de Israel. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, e o vice-presidente JD Vance confirmaram a mesma posição. “Acredito que os iranianos pensaram que o cessar-fogo incluía o Líbano, mas não incluiu”, disse Vance a jornalistas em Budapeste.

Os ataques foram retomados nesta quinta-feira (9), com novos bombardeios em alvos no Líbano.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)