Hiroshima lembra 80 anos do ataque nuclear e pede fim da corrida armamentista

Em cerimônia com recorde de países presentes, prefeito alerta para retorno do militarismo global

Marina Verenicz

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Milhares de pessoas se reuniram nesta quarta-feira (6), em Hiroshima, no Japão, para lembrar os 80 anos do lançamento da primeira bomba atômica da história. O ataque foi realizado pelos Estados Unidos em 6 de agosto de 1945, às 8h15 da manhã, como parte da estratégia para forçar a rendição do Japão e encerrar a Segunda Guerra Mundial. A explosão matou cerca de 78 mil pessoas instantaneamente e transformou a cidade em um marco da destruição nuclear.

A bomba, batizada de Little Boy, utilizava urânio-235 e foi lançada por um bombardeiro B-29 chamado Enola Gay. O alvo era o centro de Hiroshima, uma cidade de 350 mil habitantes que abrigava instalações militares, portos e indústrias de armamentos. O impacto imediato destruiu quase 70% da cidade.

O calor gerado pela explosão chegou a 4.000 °C e vaporizaram corpos, casas e tudo no raio de 1 km. Nos meses seguintes, outras dezenas de milhares morreriam por envenenamento radioativo, queimaduras e doenças.

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Três dias depois, em 9 de agosto, os EUA lançaram uma segunda bomba atômica — Fat Man, desta vez de plutônio — sobre a cidade de Nagasaki, provocando a morte de mais 40 mil pessoas no mesmo dia.

Diante da destruição em massa e do colapso militar, o Japão anunciou sua rendição em 15 de agosto de 1945. A guerra terminou oficialmente em 2 de setembro, com a assinatura do tratado no navio USS Missouri, na Baía de Tóquio.

Um apelo contra a corrida nuclear

O prefeito de Hiroshima, Kazumi Matsui, usou o 80º aniversário do ataque para fazer um apelo direto aos líderes mundiais. Em um contexto de crescente instabilidade geopolítica, rearmamento militar e ameaças nucleares, Matsui alertou que o mundo corre o risco de repetir os erros do passado.

“Entre os líderes políticos mundiais, há uma crença crescente de que possuir armas nucleares é inevitável para proteger seus próprios países”, disse Matsui durante a cerimônia no Parque Memorial da Paz. “Essa lógica anula as lições que a comunidade internacional deveria ter aprendido com Hiroshima e Nagasaki.”

Segundo o prefeito, o aumento de tensões entre potências como EUA, Rússia, China e Coreia do Norte, além da guerra em curso na Ucrânia, tornam o cenário ainda mais alarmante. “É urgente interromper essa escalada. Visitem Hiroshima, vejam com os próprios olhos os efeitos da destruição”, pediu.

Cerimônia com recorde de países

O evento de hoje foi marcado pela presença de representantes de 120 países e territórios — o maior número já registrado desde o início das cerimônias anuais, na década de 1950. Entre os participantes estavam os Estados Unidos, que realizaram o ataque, e Israel, país que mantém política ambígua sobre seu arsenal nuclear.

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O Japão, embora hoje conte com uma Constituição pacifista, abriga bases militares americanas e está em processo de reforço de suas Forças de Autodefesa. O primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida — que tem raízes em Hiroshima — também participou da cerimônia, mas foi criticado por ativistas antinucleares por manter alianças estratégicas com potências armadas.

Às 8h15, o exato momento da explosão, um minuto de silêncio foi respeitado. O sino da paz soou, seguido pelo lançamento de pombas brancas. Sobreviventes do ataque, conhecidos como hibakusha, leram mensagens em homenagem às vítimas e pediram que Hiroshima seja lembrada como símbolo de paz e não de guerra.

Desafios do desarmamento

Segundo a organização ICAN (Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares), existem hoje mais de 12 mil ogivas nucleares no mundo. EUA e Rússia detêm 90% desse total. Embora tratados como o TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear) existam desde os anos 1970, seu cumprimento tem sido contestado por avanços militares e modernizações de arsenais.

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A memória de Hiroshima segue viva como advertência — não apenas do que foi possível fazer, mas do que ainda pode acontecer.

“O horror de Hiroshima não deve ser um capítulo encerrado. Deve ser uma lição permanente sobre os limites da guerra e a urgência da paz”, afirmou Kazumi Matsui.