Força Aérea dos EUA usa Tesla Cybertrucks em treino e reforça laços com Big Tech

Oferta da Força Aérea por Tesla Cybertrucks em treino de tiro simboliza relação 'em evolução' entre Pentágono e grandes empresas de tecnologia, diz especialista

Fortune

As empresas de Elon Musk recebem bilhões de dólares em contratos de Defesa | Mandel Ngan/AFP Getty Images
As empresas de Elon Musk recebem bilhões de dólares em contratos de Defesa | Mandel Ngan/AFP Getty Images

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A Força Aérea dos Estados Unidos está tomando medidas para comprar caminhonetes Tesla Cybertrucks — com o objetivo claro de destruí-las em testes. Embora os veículos sejam destinados a serem explodidos, a escolha da marca Tesla pela Força Aérea é mais um exemplo de como as grandes empresas de tecnologia e o Departamento de Defesa se tornaram parceiros inesperados, segundo um especialista em gastos militares.

O Comando de Material da Força Aérea, órgão do Departamento de Defesa, está buscando adquirir dois Cybertrucks “para eventos de treinamento com veículos-alvo em testes de voo”, conforme documentos protocolados no sistema oficial na última quarta-feira. Além disso, a Força Aérea quer outros 31 veículos, entre sedãs e caminhões pequenos, para uso semelhante como alvos de mísseis. Os documentos indicam que inimigos podem “provavelmente” usar veículos como os Cybertrucks, que são mais resistentes a certos tipos de danos.

“Os testes precisam refletir situações reais”, diz um dos documentos. “O objetivo do treinamento é preparar as unidades para operações, simulando cenários o mais próximo possível da realidade.”

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Baseando-se em uma pesquisa de mercado feita em fevereiro por fonte não identificada, o documento destaca que os Tesla Cybertrucks são especialmente requisitados para esse tipo de teste por seu “design agressivamente angular e futurista, combinado com o exoesqueleto de aço inoxidável sem pintura”, que os diferencia de outros modelos. Os veículos não precisam estar totalmente funcionais, mas devem estar intactos e capazes de se mover sobre as rodas.

Para Gordon Adams, professor de política externa da American University e especialista em gastos militares, a decisão da Força Aérea de usar veículos Tesla em treinamentos não é, isoladamente, algo muito relevante, mas simboliza o fortalecimento dos laços entre as forças armadas dos EUA e o setor privado de tecnologia.

“De certa forma, não acho estranho que eles queiram usar uma caminhonete Tesla como alvo”, disse Adams à Fortune. “Mas, por outro lado, isso é simbólico de uma relação em evolução entre o setor de alta tecnologia e o Departamento de Defesa.”

“Não tenho dúvidas de que isso revela uma relação próxima entre o Departamento de Defesa e Elon Musk, CEO da Tesla, e seus negócios, que têm muitas conexões”, completou.

A Força Aérea e a Tesla não responderam aos pedidos de comentário da Fortune.

Na verdade, o interesse da Força Aérea pelos Cybertrucks não é a primeira vez que o Departamento de Defesa dos EUA se envolve com projetos de Musk. Suas empresas já receberam bilhões em contratos governamentais, incluindo US$ 22 bilhões em acordos com a SpaceX para serviços de lançamento ao Pentágono, além da Starlink, que fornece conectividade via satélite para o Departamento de Defesa em locais remotos e apoio a operações militares na Ucrânia.

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Um ‘novo setor’ de tecnologia militarizada

Os contratos de Musk são apenas parte dos acordos que o Departamento de Defesa tem firmado com empresas de tecnologia, como a Palantir, fundada por Peter Thiel, que ultrapassou US$ 1 bilhão em receita trimestral recentemente, impulsionada por seu maior contrato até hoje: um acordo de software de US$ 10 bilhões com o Exército dos EUA para 10 anos. No mês passado, a OpenAI fechou um contrato de US$ 200 milhões com o Pentágono para usar inteligência artificial em desafios de segurança tanto em “áreas de combate quanto corporativas”, segundo o Departamento de Defesa.

Os contratos do Pentágono com o setor privado representam mais da metade do total dos contratos governamentais, que no ano fiscal de 2024 chegaram a US$ 445 bilhões de um total de US$ 755 bilhões em obrigações, conforme dados do Government Accountability Office.

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O fluxo de recursos militares para a tecnologia privada começou há cerca de 10 anos, quando o governo Obama incentivou parcerias entre o Pentágono e o setor privado, incluindo uma “ponte entre pessoas” para que inovadores do setor de tecnologia trabalhassem temporariamente em projetos do Departamento de Defesa.

Antes, empresas de tecnologia evitavam trabalhar com o governo, por considerarem o processo burocrático e pouco lucrativo, explica Adams. Mas, após anos de aproximação, o interesse do Pentágono foi correspondido, com empresas como Amazon vendo oportunidades para substituir data centers improvisados do governo por computação em nuvem, com um contrato de US$ 10 bilhões oferecido em 2019.

Durante o governo Trump, essas relações se aprofundaram ainda mais. O “Big, Beautiful Bill” do presidente previa um aumento de US$ 150 bilhões nos gastos com defesa, uma perspectiva atraente para várias agências do Departamento de Defesa, que testam ativamente o uso de ferramentas de IA de gigantes da tecnologia como Meta, Google, OpenAI, Anthropic e Mistral, além de startups como Gladstone AI e ScaleAI, conforme noticiado pela Fortune no ano passado.

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É improvável que a parceria entre as grandes empresas de tecnologia e o Pentágono se desfaça tão cedo, já que a demanda militar por tecnologia inovadora cria um “setor totalmente novo”, afirma Adams.

“Estamos avançando rapidamente na privatização da tecnologia pelo Departamento de Defesa, usando recursos de alta tecnologia de empresas como Apple, Microsoft, Palantir e outras contratadas, incluindo as operações de Elon Musk. É um processo que está totalmente fora de controle”, conclui.

“Se alguém quisesse frear esses avanços tecnológicos e analisá-los com cuidado, considerando o atual cenário político — com o equilíbrio de poder entre republicanos e democratas — isso simplesmente não vai acontecer. A porta está escancarada para a integração entre alta tecnologia e o Departamento de Defesa.”

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Esse texto foi publicado originalmente no Fortune.com

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