EUA X Irã em momento decisivo: 3 fatores para uma rota de resolução ganhar força

BBI aponta que estoques globais de petróleo podem atingir níveis críticos nos próximos meses, enquanto eleições legislativas dos EUA em novembro de 2026 podem aumentar a pressão por uma solução diplomática para o conflito com o Irã.

Lara Rizério

Imagem captada por drone do petroleiro HELGA atracado em um dos terminais petrolíferos offshore do sul do Iraque, próximo a Basra, enquanto se prepara para carregar petróleo, tornando-se a segunda embarcação a chegar desde o fechamento do Estreito de Ormuz, em 24 de abril de 2026 (Foto: Mohammed Aty / Reuters)
Imagem captada por drone do petroleiro HELGA atracado em um dos terminais petrolíferos offshore do sul do Iraque, próximo a Basra, enquanto se prepara para carregar petróleo, tornando-se a segunda embarcação a chegar desde o fechamento do Estreito de Ormuz, em 24 de abril de 2026 (Foto: Mohammed Aty / Reuters)

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Os Estados Unidos e o Irã podem chegar a um acordo na terça ou quarta-feira para reabrir o Estreito de Ormuz, permitindo a livre circulação de navios comerciais, afirmou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em entrevista à CNBC. Essa fala fez com que o petróleo caísse mais de 5% nesta terça-feira (4), em meio a sinalizações de um desfecho para o conflito, enquanto Donald Trump, presidente dos EUA, aponta querer um acordo em breve.

Para o Bradesco BBI, o conflito entre Irã e Estados Unidos pode se aproximar de um momento decisivo, mas por razões menos militares e mais políticas. Em relatório, o Bradesco BBI afirma que as eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para novembro de 2026, se tornaram um fator central na dinâmica da crise, aumentando os incentivos para uma eventual solução diplomática nos próximos meses.

A avaliação do banco foi baseada em uma conversa com Hagai Segal, consultor especializado em geopolítica, contraterrorismo e Oriente Médio. Segundo a análise, o governo iraniano busca obter garantias políticas e econômicas permanentes antes que sua capacidade de pressionar o comércio marítimo global diminua com a expansão de rotas alternativas de exportação de petróleo no Golfo.

Ao mesmo tempo, a tomada de decisões em Teerã estaria cada vez mais concentrada em comandantes mais jovens e radicais da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), após a morte de lideranças experientes durante o conflito.

Para os analistas do BBI, um dos desenvolvimentos mais relevantes é a mudança na estratégia iraniana. Em vez de concentrar esforços apenas no Estreito de Ormuz, o país passou a mirar rotas alternativas utilizadas principalmente pela Arábia Saudita para escoar petróleo. O objetivo seria ampliar os custos logísticos dos exportadores da região e preservar sua influência sobre os fluxos globais de energia.

Segundo o relatório, uma dessas alternativas passa pelo sistema Sumed, no Egito, que conecta o Mar Vermelho ao Mediterrâneo. O uso dessa rota pode adicionar cerca de US$ 5 por barril aos custos de transporte e elevar os riscos operacionais para os exportadores sauditas. O banco destaca ainda que dificuldades crescentes de abastecimento fora do Oriente Médio estão acelerando a queda dos estoques globais de petróleo. A expectativa apresentada por Segal é que esses estoques possam atingir níveis críticos entre outubro e dezembro deste ano.

Outro fator monitorado pelo mercado é o papel dos Houthis, grupo aliado do Irã no Iêmen. De acordo com o especialista, a organização vem sendo preservada por Teerã como uma espécie de “segunda frente” potencial para pressionar o comércio marítimo na região de Bab el-Mandeb e no Mar Vermelho. Caso seja acionado, esse vetor poderia obrigar os Estados Unidos a dividir recursos militares entre diferentes pontos estratégicos, ampliando os riscos para a cadeia global de energia e logística.

Apesar das tensões, há espaço para uma eventual desescalada: um acordo direto entre Washington e Teerã antes das eleições americanas parece improvável, mas negociações intermediadas por Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos poderiam ganhar força. O motivo seria econômico e político, uma vez que países do Golfo sofrem com as dificuldades de exportação de petróleo, enquanto uma guerra prolongada poderia se tornar um problema para candidatos alinhados ao presidente Donald Trump nas eleições legislativas.

O relatório também ressalta que o mercado já demonstrou recentemente sua sensibilidade a avanços diplomáticos. Após a assinatura de um memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã em junho de 2026, a percepção dos investidores mudou rapidamente de um cenário de escassez de petróleo para expectativas de excesso de oferta, provocando forte correção dos preços da commodity. Por isso, os analistas acreditam que, em um eventual cenário pós-guerra, os preços do petróleo poderiam voltar aos níveis observados antes do conflito.

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Assim, apontam, a principal mensagem é que uma rota de resolução pode começar a ganhar força nos próximos meses, sustentada por três fatores: i) o calendário eleitoral dos EUA, com as eleições de meio de mandato em novembro de 2026, aumentando a urgência por uma solução antes que o conflito gere maior desgaste econômico; ii) países do Oriente Médio dependentes de exportações de petróleo enfrentam dificuldades crescentes para escoar produção fora da região, podendo elevar a probabilidade de acordos diretos ou informais com o Irã; e iii) a queda dos estoques globais de petróleo pode pressionar preços, reacender riscos inflacionários e aumentando o incentivo a uma solução diplomática.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.