Estágio de foguete da SpaceX deve se chocar com a Lua em agosto de 2026

O caso ilustra como estágios de foguetes enviados além da órbita terrestre podem permanecer anos em trajetórias pouco monitoradas

Maria Luiza Dourado

Um foguete SpaceX Falcon 9 é lançado, transportando 23 satélites Starlink para a órbita baixa da Terra
06/05/2024
REUTERS/Steve Nesius
Um foguete SpaceX Falcon 9 é lançado, transportando 23 satélites Starlink para a órbita baixa da Terra 06/05/2024 REUTERS/Steve Nesius

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Um estágio superior de foguete usado em uma missão comercial da SpaceX, lançada em 2025, deve se chocar com a Lua no dia 5 de agosto de 2026, segundo cálculos de astrônomos compilados pelo software Project Pluto. O objeto, identificado como 2025-010D, segue uma trajetória que o levará a colidir com uma região próxima à borda visível do satélite, em área iluminada pelo Sol e repleta de crateras.

O episódio não oferece risco imediato a missões ativas: não há infraestrutura instalada na região prevista para o impacto, e a chance de fragmentos atingirem sondas em órbita é considerada muito baixa. Ainda assim, o caso tem chamado atenção por outro motivo: ele ilustra como estágios de foguetes enviados além da órbita terrestre podem permanecer anos em trajetórias pouco monitoradas e acabar se chocando com a Lua sem que isso tenha sido planejado.

Ao contrário do lixo espacial em órbita baixa, rastreado por redes de radar, objetos que viajam até distâncias próximas à órbita lunar ficam fora do alcance dos principais sistemas de vigilância. Nesses casos, o acompanhamento depende de telescópios ópticos e de programas de busca por asteroides, que acabam registrando também sucata espacial por semelhança visual com pequenos corpos rochosos.

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No caso do estágio da SpaceX, mais de mil observações permitiram reconstruir a órbita com relativa precisão, mas fatores como a pressão da radiação solar – a força da luz do Sol sobre superfícies metálicas – ainda introduzem incertezas de alguns quilômetros na posição exata do impacto.

Do ponto de vista científico, o ganho esperado é limitado. Em teoria, sondas em órbita lunar podem registrar imagens da área antes e depois da colisão, ajudando a estudar a formação de crateras e a dinâmica do solo. Mas a massa e a estrutura do estágio não diferem muito de outros objetos que já atingiram a Lua, e a ausência de atmosfera praticamente impede qualquer observação direta a partir da Terra.

O maior peso do evento é simbólico. Com programas como o Artemis, dos Estados Unidos, e missões chinesas mirando uma presença mais constante na Lua, o entorno do satélite tende a ficar mais ocupado nas próximas décadas. Em um cenário de maior tráfego, trajetórias hoje consideradas inofensivas podem cruzar rotas de veículos tripulados ou satélites de suporte, elevando o risco operacional.

Especialistas destacam que existem alternativas técnicas para reduzir esse tipo de situação, como enviar estágios excedentes para órbitas em torno do Sol ao fim das missões. Essa prática, no entanto, ainda não é padrão, e o resultado é um acúmulo gradual de sucata em órbitas complexas no sistema Terra-Lua.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.