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O ciclo de protestos que atravessa o Irã há mais de duas semanas reúne elementos já vistos em outras ondas de contestação, como a repressão violenta das forças de segurança, o bloqueio quase total da internet e da telefonia e o alto número de mortos e presos. Desta vez, porém, o contexto político, econômico e internacional torna o movimento mais sensível para o regime e menos previsível em seus desdobramentos.
Segundo organizações de direitos humanos sediadas nos Estados Unidos, ao menos 1.850 manifestantes morreram e cerca de 16.784 pessoas foram presas desde o início das mobilizações.
O governo iraniano decretou o corte das comunicações digitais na tentativa de isolar o país e dificultar a coordenação dos atos, estratégia recorrente em crises anteriores, mas que agora impõe custos elevados à já fragilizada economia iraniana.
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A base do descontentamento atual está ancorada em uma crise econômica profunda. A moeda local, o rial, perdeu cerca de 40% de seu valor, enquanto a inflação segue elevada. O estopim veio de um setor historicamente alinhado ao regime: os comerciantes do Grande Bazar de Teerã, que tiveram papel central na Revolução Islâmica de 1979.
As medidas de austeridade anunciadas pelo presidente Masoud Pezeshkian, com promessa de reorganização de subsídios para os mais pobres, não foram suficientes para conter a insatisfação. Em poucos dias, as reivindicações deixaram de ser majoritariamente econômicas e passaram a incluir pedidos explícitos de mudança de regime.
Há também um fator demográfico relevante. Dados oficiais indicam que 47% da população iraniana nasceu após a Revolução Islâmica e tem menos de 30 anos. Essa geração, distante do discurso fundador do sistema clerical, aparece como principal força das manifestações, ocupando prédios públicos e queimando imagens do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.
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Aos 86 anos, Khamenei enfrenta problemas de saúde e não tem um sucessor claramente definido, o que amplia a percepção de fragilidade no topo do poder.
No plano regional, o Irã também vive um momento de menor capacidade de projeção de influência. Grupos aliados como Hezbollah e Hamas estão enfraquecidos, e o país ainda sente os efeitos da guerra de 12 dias com Israel, ocorrida em junho de 2025. Esse cenário reduz as margens de manobra do regime tanto interna quanto externamente.
A diferença mais sensível em relação a protestos anteriores, no entanto, está no ambiente internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a estimular publicamente a continuidade das manifestações.
Em mensagem publicada na rede Truth Social, Trump afirmou que “a ajuda está a caminho” e disse ter cancelado reuniões com autoridades iranianas enquanto não cessar o que chamou de “assassinato sem sentido” de manifestantes. As declarações ocorrem após a intervenção militar americana na Venezuela, o que elevou o grau de atenção em Teerã.
Segundo o The Wall Street Journal, opções em análise pelo governo dos EUA incluem desde o endurecimento de sanções e o uso de instrumentos cibernéticos até ataques militares e apoio digital a grupos antigovernamentais.
Paralelamente, Washington já pressiona economicamente ao anunciar tarifas de 25% para países que mantiverem negócios com o Irã. Trump afirmou que avalia a situação “com muita seriedade” e indicou que a repressão cruzou uma linha considerada inaceitável por seu governo.
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Essa combinação de crise econômica aguda, desgaste geracional do sistema político, enfraquecimento regional e sinalizações externas de possível apoio aos manifestantes diferencia o atual ciclo de protestos.
Embora o regime ainda disponha de instrumentos repressivos, analistas avaliam que o medo perdeu parte de sua eficácia como elemento de contenção social, ao mesmo tempo em que Teerã parece ter pouca capacidade de oferecer reformas de curto prazo capazes de reverter o quadro.

