Derrota nos EUA pode tornar Trump mais agressivo no exterior, diz diretor da Eurasia

Para Christopher Garman, da Eurasia Group, perda de força doméstica deve empurrar o presidente dos EUA a ações externas mais agressivas, em especial no Irã e na relação com aliados europeus

Iuri Santos

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Um provável enfraquecimento doméstico do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deve ter um efeito inverso na ousadia de suas investidas internacionais. A leitura feita pelo managing director Americas da Eurasia Group, Christopher Garman, é de que o protecionismo deve marcar o tom da política interna americana — e de todo o mundo.

“Quanto mais Trump se enfraquecer domesticamente, maior será a ousadia de suas investidas no exterior. Um está relacionado com o outro”, disse Garman na Premiação Outliers InfoMoney 2026. Ele aponta que a avaliação dos americanos, hoje preocupados essencialmente com a questão do custo de vida, sobre as recentes empreitadas do presidente fora do país ainda é baixa.

A avaliação é de que o presidente deve enfrentar uma derrota nas eleições de meio de mandato neste ano, com mais candidatos do Partido Democrata sendo eleitos. Em vez de impedir novas ações de Trump, esse movimento deve reforçar, no curto prazo, investidas em regiões como Irã e Europa.

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Irã, Europa e a escalada do risco geopolítico

“Nossa leitura é de que está aumentando a possibilidade de uma ação militar mais agressiva no Irã. O que começamos a ver é uma ambição de decapitar o regime”, afirma.

Para Garman, isso pode ser justificado, por um lado, pela influência do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, estimulada pela fragilidade do regime iraniano; e, por outro, pela avaliação de sucesso da ofensiva americana na Venezuela para capturar o presidente Nicolás Maduro.

Em outra frente, o diretor acredita que as tensões com a Europa após ameaças — inclusive de uso de força — contra a Groenlândia devem seguir: “Não podemos subestimar isso. É um aliado histórico, uma ameaça à soberania de um país aliado”.

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Diante de uma tendência de desaprovação na política interna, Trump deve investir em medidas para aplacar o custo de vida, como a proposta de limite aos juros de cartões de crédito já defendida pelo presidente, assim como a continuidade das pressões contra o Federal Reserve (banco central americano) e intervenções no mercado imobiliário.

“Não temos uma visão para onde vai o dólar global, mas tudo que enxergamos do lado geopolítico tende a reforçar um cenário de um dólar mais fraco. Claro que não perderá o status de moeda de reserva global de valor, mas exacerba essa tendência que temos visto no último mês”, avaliou Garman.

Se os Estados Unidos têm seus desafios na economia, aliados no Velho Continente também. Além dos desafios de produtividade e dinamismo enfrentados pela economia europeia, o que se impõe no bloco é um ciclo de reprovação dos incumbentes nos três principais países — França, Reino Unido e Alemanha — e o crescimento dos partidos populistas de direita. “A ‘união’ da União Europeia está ruindo. Estamos mais preocupados hoje do que nos últimos anos”, afirmou Garman.

Após o ponto de transição marcado pelas ofensivas de Trump contra o bloco, analisa Garman, ficou mais evidente o diagnóstico de que a região não pode depender dos Estados Unidos em termos de armamento e gasto bélico. Os eventos recentes também serviram de empurrão para a concretização de acordos como os feitos com Índia e Mercosul.

Se o curto prazo guarda um possível agravamento de tensões de um lado, de outro a Eurasia vê um arrefecimento da disputa entre Estados Unidos e China. “Se houve um grande erro de cálculo do governo Trump, foi subestimar o poder de barganha dos chineses sobre a economia americana, olhando a questão de terras raras”, aponta Garman.

Segundo o analista, Trump está disposto a um acordo até mesmo mais do que aliados próximos dentro do governo. “Achamos que haverá algum tipo de acordo de normalização da relação. As tarifas devem cair. Deve envolver a compra de produtos do agronegócio americano, eliminar um pouco as restrições de transferências tecnológicas. Devemos ver um detox da relação bilateral”, diz Garman.

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Qual é o lugar do Brasil?

Potências médias podem ter um potencial de navegar melhor em um mundo mais protecionista. Com base nessa tese, o Brasil pode estar bem posicionado, apesar de um “calcanhar de Aquiles” na questão fiscal e nas elevadas taxas de juros.

“Apesar disso, é uma potência agro em ascensão, uma potência energética em ascensão. Com um aumento de produção de petróleo, 90% de energia limpa, segunda maior reserva global de terras raras. Esses ativos vão crescer em valor no contexto de países buscando resiliência sobre eles”, afirma Garman.

Iuri Santos

Repórter de inovação e negócios no IM Business, do InfoMoney. Graduado em Jornalismo pela Unesp, já passou também pelo E-Investidor, do Estadão.