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Na Venezuela, grande parte da coreografia do poder parece exatamente a mesma de antes da captura de Nicolás Maduro pelas Forças Especiais dos EUA.
Delcy Rodríguez, sua antiga vice, assumiu sem sobressaltos o papel de presidente interina. Ela liderou reuniões com autoridades de alto escalão, recebeu enviados internacionais, acolheu a imprensa no Palácio de Miraflores e teve encontros particulares com diplomatas.

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Mas, por baixo dessa aparência de continuidade, o alicerce do chavismo — a versão venezuelana do socialismo — começa a mudar à medida que Rodríguez avança rapidamente para consolidar sua autoridade e unir a coalizão governista fragmentada.
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Mudanças no governo
Há algumas mudanças sutis. Os dias de Rodríguez começam mais cedo, seus pronunciamentos públicos são muito mais concisos e os discursos maratonas que marcaram o governo Maduro desapareceram. Funcionários públicos agora estão autorizados a voltar ao X.
Outras medidas são muito mais consequentes, incluindo uma reformulação do gabinete e do aparato de segurança, além da libertação de dezenas de presos políticos. Decisões sobre cargos de alto escalão vêm sendo recebidas de forma positiva pela administração Trump, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, que pediu para não ser identificada ao discutir deliberações sensíveis.
O Ministério da Informação da Venezuela e o Departamento de Estado dos EUA não responderam aos pedidos de comentário.
“Ela está andando na corda bamba, tentando agradar aos EUA ao mesmo tempo em que busca manter o chavismo unido”, disse David Smilde, professor e especialista em Venezuela na Universidade Tulane. “Até agora, ela tem conseguido”, e o presidente Donald Trump “parece bastante satisfeito”.
Delcy recebeu apoio
Sinais públicos de apoio se seguiram. Na terça-feira, Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente deposto e deputado em exercício, disse a apoiadores do governo em Caracas que havia recebido mensagens de seu pai e de sua madrasta, Cilia Flores, expressando confiança em Rodríguez e na equipe que agora lidera o país.
Apoiadores em outra manifestação, na quarta-feira, entoaram: “Delcy, siga em frente, você tem a nossa confiança”. O slogan foi repetido em um anúncio da televisão estatal que mostra uma imagem animada de Rodríguez.
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Apenas três dias após a captura de Maduro, Rodríguez promoveu o presidente do banco central, Calixto Ortega Sánchez, a vice-presidente do Ministério da Economia, um cargo mais poderoso que coordena a estratégia econômica mais ampla do governo entre vários ministérios. Ela também nomeou Gustavo González López, ex-ministro do Interior, para chefiar a Guarda de Honra Presidencial, substituindo Javier Marcano Tábata, após críticas internas de que a unidade falhou em impedir a prisão de Maduro.
Rodríguez nomeou o deputado Juan Escalona, um aliado próximo de Maduro, como ministro da Presidência e da supervisão da gestão governamental. Trata-se de um cargo crucial, que atua como o principal elo do presidente com todo o Poder Executivo e ajuda a impulsionar a implementação de políticas. Escalona substitui Aníbal Coronado, que foi remanejado para a pasta do Meio Ambiente.
O que está por vir
Outras mudanças ainda são esperadas, segundo pessoas familiarizadas com seus planos. Cargos na estatal de energia Petróleos de Venezuela SA e no Ministério do Petróleo estão sob revisão, disseram essas fontes. Rodríguez continua acumulando o cargo de ministra do Petróleo.
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Ela também deve trazer de volta aliados de longa data para postos-chave. Félix Plasencia, que participou de uma reunião na sexta-feira com autoridades do governo Trump em Washington, está sendo considerado para o cargo de ministro das Relações Exteriores ou de embaixador da Venezuela nos EUA, à medida que o relacionamento entre os dois países melhora, segundo pessoas a par dos planos.
Dois economistas influentes, porém discretos, do Equador — Patricio Rivera e Fausto Herrera — que assessoram Rodríguez desde pelo menos 2019, também estão desempenhando papéis centrais no governo interino, disseram as fontes. Ambos, que atuam como interlocutores-chave com credores e investidores, trabalharam anteriormente para o ex-presidente de seu país, Rafael Correa, colega socialista de Maduro.
Rodríguez também deve afastar figuras com as quais mantém conflitos antigos, incluindo Alex Saab, o empresário colombiano e aliado de confiança de Maduro que atualmente supervisiona a área de indústria e produção nacional, segundo as fontes.
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Quando a situação se estabilizar, mudanças nas Forças Armadas podem vir a seguir. A especulação sobre uma possível aposentadoria do ministro da Defesa, Vladimir Padrino, voltou à tona desde a remoção de Maduro, levantando a perspectiva de novas reviravoltas nos mais altos escalões militares. Os EUA ofereceram uma recompensa de US$ 15 milhões por informações que levem à prisão ou captura de Padrino.
Por enquanto, Rodríguez divulga publicamente suas reuniões com Padrino, dizendo que discutem planos “para continuar preservando a paz” e agradecendo às Forças Armadas por seu “compromisso em defender a calma e a estabilidade da Venezuela”.
Libertação de presos
As mudanças políticas ocorrem enquanto o governo continua a libertar presos, em um processo celebrado por Trump. Tanto Rodríguez quanto seu irmão, o presidente da Assembleia Nacional Jorge Rodríguez, disseram no início da semana que as libertações continuarão, sob a liderança do ministro do Interior, Diosdado Cabello.
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Até quarta-feira, 406 pessoas haviam sido libertadas, incluindo 194 soltas em dezembro ainda sob Maduro, disse Delcy Rodríguez. Dos quase 200 presos que deveriam ser libertados neste mês, organizações independentes confirmaram até agora apenas cerca da metade, incluindo cidadãos norte-americanos e outros estrangeiros. Cabello teria entregue pessoalmente vários prisioneiros internacionais de alto perfil, segundo uma das fontes.
Lealdade e unidade
Rodríguez e Cabello mantêm há muito tempo uma relação tensa, mas os dois têm demonstrado alinhamento em reuniões privadas, disseram as fontes. Cabello declarou publicamente lealdade a Rodríguez logo no início e tem aparecido com frequência ao lado da presidente interina e de seu irmão, em uma demonstração de unidade.
Cabello, um operador de poder chavista de linha dura, parece ter reforçado sua segurança pessoal. Seus dois programas de televisão desde a operação dos EUA foram gravados fora do estúdio habitual, e a TV estatal atrasou a transmissão de algumas de suas coletivas de imprensa — medidas que o próprio presidente deposto adotou nos meses que antecederam sua captura. Os EUA ofereceram uma recompensa de US$ 25 milhões por Cabello.
Nos bastidores, líderes do partido receberam instruções claras. “A unidade é a primeira coisa que deve ser preservada”, teriam ouvido alguns funcionários durante uma reunião privada realizada dias após a captura de Maduro, segundo um memorando vazado visto pela Bloomberg News.
Até agora, essa mensagem tem moldado a imagem que o governo de Rodríguez projeta.
Ela está “tentando priorizar a unidade em vez da mudança”, afirmou Smilde, professor da Universidade Tulane.