Danos da guerra ao Catar afetam cenário global para GNL e prejudicam demanda na Ásia

Danos em infraestruturas e bloqueio no Estreito de Ormuz elevam preços em 143%, forçando países asiáticos a racionar energia e buscar alternativas ao gás

Reuters

Vista de unidade de produção de GNL da QatarEnergy, Catar. 2 de março de 2026. REUTERS/Stringer/File Photo
Vista de unidade de produção de GNL da QatarEnergy, Catar. 2 de março de 2026. REUTERS/Stringer/File Photo

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CINGAPURA/LONDRES, 26 Mar (Reuters) – A guerra no Irã está ⁠alterando as perspectivas globais para o gás natural liquefeito (GNL), à medida que a alta ⁠de preços, danos à infraestrutura de exportação do Catar — importante fornecedor mundial –, e possíveis atrasos em nova oferta levantam ‌dúvidas sobre a demanda esperada anteriormente de compradores asiáticos sensíveis a preços.

Antes da guerra, analistas esperavam que o fornecimento global de gás natural liquefeito aumentasse em até 10% este ano, atingindo entre 460 milhões e 484 milhões de toneladas, conforme novas capacidades, principalmente ‌nos EUA e no Catar, entrassem em operação, com previsão de crescimento da demanda em paralelo.

Agora, o bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, que movimenta 20% dos fluxos globais de GNL, e os danos aos trens de liquefação do Catar — que retiraram do mercado 12,8 milhões de toneladas por ano de GNL por três a cinco anos — levaram as consultorias S&P Global Energy, ICIS, Kpler e Rystad Energy a reduzir as perspectivas de fornecimento global em até 35 milhões de toneladas.

Isso equivale a cerca de 500 cargas de GNL, o ⁠suficiente ‌para atender a mais da metade das importações anuais do Japão ou de Bangladesh por cinco anos.

‘Esperamos que essa crise de preços ⁠do gás leve alguns países a reconsiderar o crescimento de sua demanda de gás no ritmo que prevíamos anteriormente e, portanto, o crescimento da demanda de GNL será menor do que nossa previsão anterior à guerra’, disse o analista da S&P Global Energy, Lucien Mulberg.

A S&P Global Energy espera uma queda de 33 milhões de toneladas nas exportações do Catar e dos Emirados Árabes Unidos este ano, e reduziu a oferta projetada em mais 19 milhões de toneladas por ano, de ​2027 a 2029, devido a atrasos esperados na expansão do Campo Norte do Catar e nos projetos de GNL de Ruwais da Adnoc em construção.

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PREÇOS DO GNL SOBEM ACIMA DA ZONA DE CONFORTO DOS COMPRADORES ASIÁTICOS

Com o choque no fornecimento, os preços ​do GNL na Ásia saltaram 143% desde o início da guerra entre EUA e Israel com o Irã, em 28 de fevereiro, o segundo maior aumento em quatro anos após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Em uma máxima de mais de três anos, de US$25,30 por milhão de unidades térmicas britânicas (mmBtu), os preços estão bem acima de US$10 por mmBtu, limite a partir do qual a demanda dos mercados emergentes começa a reagir, e os analistas veem os preços permanecendo acima dessa zona de conforto até ‌2027.

O Rabobank espera que os preços na Ásia atinjam uma média de US$16,62 por mmBtu ​neste ano e US$13,60 em 2027, enquanto o UBS aumentou sua previsão para US$23,60 por mmBtu neste ano e para US$14,50 no próximo ano.

‘No curto prazo, o mercado se reequilibra principalmente por meio de preços mais altos e destruição da demanda no sul da Ásia’, disse Laura Page, gerente do LNG Insight da ⁠Kpler.

DEMANDA INDUSTRIAL DIMINUI NO SUL E SUDESTE DA ÁSIA

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Cerca ​de 80% do suprimento de GNL ​do Catar vai para a Ásia. Compradores sensíveis a preço, como Bangladesh e Índia, estão buscando suprimentos de GNL substitutos enquanto trocam os combustíveis por carvão e ⁠gás doméstico.

O Paquistão, que depende fortemente do GNL do Catar, está racionando ​energia por meio de uma semana de trabalho de quatro dias. A demanda está diminuindo em setores com uso intensivo de energia, como fertilizantes e têxteis.

‘Há um processo de destruição da demanda em andamento’, disse Iqbal Ahmed, presidente e presidente-executivo da Pakistan GasPort, que é coproprietária de um terminal de ​importação de GNL.

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Na Índia, a produção petroquímica e de cerâmica também foi afetada, disseram agentes do setor.

É improvável que os EUA, o maior exportador de GNL do mundo, preencham as lacunas de oferta, já que as ​usinas de exportação norte-americanas estão operando quase ⁠em sua capacidade total, com a maior parte dos volumes presos a contratos de longo prazo.

‘Simplesmente não há como substituir facilmente os volumes perdidos, e nenhuma quantidade de otimização ⁠de portfólio ou trocas de carga preencherá a lacuna entre o fornecimento perdido e a demanda atual… o que é um golpe significativo para a segurança energética dos países que dependem desses volumes’, disse Seb Kennedy, analista independente da Energy Flux News.

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A crise pode estimular um novo impulso na Ásia em busca de alternativas energéticas domésticas, levando à destruição permanente da demanda de GNL, disse Sam Reynolds, líder de pesquisa de GNL no think tank pró-renováveis IEEFA.

(Reportagem de Emily Chow, Sudarshan Varadhan e Chen Aizhu em Cingapura, Marwa Rashad em Londres e Katya Golubkova em ​Tóquio)

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