Cafés abertos e ruas em chamas: os dois mundos na noite “surrealista” de Paris

Na noite de domingo, vários moradores e turistas mantiveram a rotina de sair para tomar drinques nos cafés, mesmo em meio à violência; espólio de saques está à venda na internet

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A França, especialmente a capital Paris, viveu um choque entre dois mundos no sábado e no domingo: enquanto centenas de milhares de pessoas marchavam em protesto contra o custo de vida, com várias cenas de violência, saques e barricadas em chamas mostradas ao vivo pelos canais de TV, muitos moradores e até alguns turistas mantiveram a rotina e frequentaram os chiques cafés do país.

Segundo reportagem do Le Monde, foi como se “dois mundos se entrelaçassem em uma noite surrealista”. O jornal destaca em sua edição desta segunda-feira que, por toda parte, no coração de Paris, cafés permaneceram abertos na noite de domingo, com as pessoas bebendo cerveja e spritz [um coquetel feito com Prosecco].

Enquanto isso, na mesma calçada, pequenos grupos entravam em lojas de vitrines quebradas e saíam com os braços carregados de garrafas, óculos de sol ou eletrodomésticos.

Em volta, bandos corriam para despistar as forças de segurança e curiosos faziam selfies diante de carros da polícia. “Uma jovem loira, com a bandeira francesa sobre os ombros, tira selfies diante de uma pilha de bicicletas queimadas para o seu Instagram; como se a violência dos últimos dias fosse a mais recente manifestação da ‘sociedade do espetáculo’”, descreveu o jornal.

O jornal descreveu uma cena que foi comum durante as duas noites. Na famosa loja de departamentos BHV, a poucos passos da Prefeitura (Hôtel de Ville), um segurança atônito assistiu enquanto um grupo de cerca de dez pessoas, calçando tênis e com os rostos cobertos, quebraram uma das vitrines, correram entre as prateleiras e, num instante, levaram relógios e joias. E isso sob o olhar assustado de turistas.

O balanço da violência e saques de lojas, shoppings e outros tipos de comércio no final de semana ainda não está contabilizado, mas os cálculos iniciais falam de centenas de milhões de euros de prejuízos. Pelo menos 3 mil lojas foram vandalizadas em todos o país e o governo prometeu criar linhas de financiamento e pagamentos de seguros emergenciais.

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Também estão sendo anunciadas medidas punitivas. Boa parte dos mais de 200 presos em todo o país serão processados e algumas prisões preventivas foram realizadas nesta segunda-feira. O número de saqueadores foi estimado em 30 mil.

Espólio dos saques à venda na internet

Outro fato inusitado é que site de revenda, como o popular Vinted, foram inundados nas últimas horas com itens provavelmente roubados durante os protestos. As fotos mostram itens como sacolas cheias de produtos da Sephora, com o anúncio: “estou vendendo a sacola por 10 euros”, diz uma reportagem do Le Figaro.

Além disso, foram colocados anúncios com lotes de batons novos e idênticos, montes de cosméticos, cartas colecionáveis ​​de Pokémon ainda traziam a etiqueta de preço da loja. E os anúncios não faziam questão de esconder a origem ilícita dos produtos: “Maquiagem 17 de outubro” e “suéter da Stone Island, roubado (sic) durante a manifestação de 17 de outubro”, eram algumas das chamadas na Vinted. Outro item era uma camisa do LOSC ainda com o dispositivo antifurto