Auxílio ao Norte da África pode ser oportunidade estratégica para a UE

Países como Egito, Tunísia, Marrocos, Argélia e Líbia tem sofrido fortemente com as rupturas causadas pela guerra no Oriente Médio; Pacto do UE para o Mediterrâneo pode pavimentar novas relações

Roberto de Lira

Fonte: Nations Online
Fonte: Nations Online

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O recém assinado Pacto da União Europeia para o Mediterrâneo pode ser um ponto de partida para que o continente europeu aproveite oportunidades oferecidas pelos impactos que a Guerra no Oriente Médio causou às nações do Norte da África do Norte. A opinião é de Tarek Megerisi, pesquisador doo Conselho Europeu de Relações Exteriores

“Dado que o objetivo do pacto é redesenvolver as relações do sul da Europa e construir parcerias de trabalho mais próximas, não há momento melhor para levá-lo até o fim. Afinal, um amigo em necessidade é realmente um amigo”, definiu o especialista em Oriente Médio e Norte da África conselho.

Essa oportunidade citada pelo pesquisador é nova série de ataques de Washington contra o Irã, lançada em 8 de julho, que arrisca estender as rupturas causadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz, que trouxeram nova onda de volatilidade aos preços globais dos combustíveis.

Economias em risco

Megerisi lembra que a região da África do Norte ainda sofre os abalos dos combates do início do ano. As finanças do Egito e da Tunísia registram fortes impactos, enquanto o equilíbrio de poder entre Marrocos e Argélia parece instável, assim como o status quo político delicadamente equilibrado da Líbia. “A corrosividade da guerra está empurrando a região para mais perto da instabilidade. Isso era verdade após o cessar-fogo, e ainda mais agora que foi quebrado”, explica.

Ele detalha que as economias da região são orientadas para a importação, com os países do Norte da África dependendo em grande parte de fluxos de moedas globais, além de estarem cada vez mais ávidos por energia. Isso os torna mais vulneráveis às consequências geopolíticas e geoeconômicas da guerra do Irã, como a primeira onda de combates deixou muito claro.

E o impacto vai bem além da ruptura na energia, diz o pesquisador. As exportações de dois produtos químicos aparentemente inofensivos, como ureia e enxofre, também foram atingidas, paralisando uma indústria de fertilizantes central para as economias do norte da África — e para o fornecimento de alimentos.

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O artigo de Megerisi lembra que o Marrocos abriga o maior exportador mundial de fosfato, enquanto o Egito é um dos maiores consumidores e exportadores de fertilizantes do mundo. A indústria do fosfato da Tunísia é uma joia de sua economia, mas totalmente dependente de materiais importados.

“Como uma região que importa mais da metade de seus alimentos, a queda nas receitas de exportação e o aumento dos custos da agricultura doméstica são extremamente dolorosos. Os custos do governo estão aumentando, indústrias intensivas em mão de obra contraindo, exportações caindo, enquanto os preços dos alimentos básicos inflam em uma região onde a insegurança alimentar já dobrou entre 2019 e 2024.”

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Auxílio

O pesquisador defende que, tanto a UE quanto seus Estados-membros podem ajudar a estabilizar a situação e, consequentemente, melhorar as relações entre os dois blocos. “Países interessados, como Espanha, França e Itália, poderiam doar ou emprestar a baixo custo seus Direitos Especiais de Retirada — um ativo fornecido pelo FMI para complementar as reservas cambiais de um estado — para garantir que economias regionais em dificuldades resistam à tempestade”, sugere.

“Além disso, deveriam incentivar a Comissão Europeia a ampliar a facilidade de alimentação e resiliência para a vizinhança sul, ajudando os estados em dificuldades a lidar com as consequências da crise dos fertilizantes.”

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Em sua opinião, tais medidas ajudariam os europeus a desenvolver credibilidade e boa vontade, estabilizar a vizinhança e preparar o terreno para um engajamento ampliado da UE no norte da África. “A comissão poderia então ampliar isso a longo prazo, indo às capitais regionais com planos para desenvolver geração de energia verde, facilitar investimentos do setor privado europeu e desenvolver infraestrutura por meio do Global Gateway. Isso satisfaria as necessidades energéticas e econômicas da região, ao mesmo tempo em que desenvolveria as importações de energia verde e o ambiente de nearshoring que a Europa precisa.”

O Pacto para o Mediterrâneo tem como meta reiniciar as relações entre a Europa e o sul do Mediterrâneo, fornecendo um roteiro prático para a cooperação. Seu objetivo inicial é desenvolver uma parceria transmediterrânea mais profunda. Para o centro de estudo, fomentar o livre comércio e o investimento aproximaria esses Estados do mercado único da UE — na prática, integrá-los melhor economicamente à UE — desenvolvendo alinhamento regulatório, parcerias energéticas e cooperação em questões de segurança e migração.