Atrasos em parcelas de carros nos EUA chegam a 6,5% e acendem alerta sobre crédito

Atrasos em financiamentos atingem maior nível em mais de uma década, refletindo o peso dos juros altos e da perda de renda real sobre consumidores

Marina Verenicz

(Imagem: Pixabay)
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Um número crescente de americanos está deixando de pagar as parcelas de seus carros financiados, um sinal de que famílias de baixa e média renda — base do consumo nos Estados Unidos — começam a sentir com mais força o aperto financeiro.

Segundo a Fitch Ratings, em uma apuração do The New York Times, os atrasos em financiamentos de alto risco (subprime) com mais de 60 dias chegaram a 6,5% em janeiro e continuam próximos desse patamar.

A inadimplência levou a um aumento nas retomadas de veículos e a alertas de instituições como CarMax e Ally Financial sobre o desempenho fraco da carteira de crédito automotivo.

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Pressão no orçamento das famílias

Embora a economia americana ainda pareça robusta, com a Bolsa em alta e o desemprego baixo, o aumento dos atrasos em empréstimos de veículos revela a deterioração silenciosa da renda disponível entre os consumidores.

“É evidente que parte dos consumidores está sob estresse”, avaliou Jonathan Smoke, economista-chefe da consultoria Cox Automotive, ao jornal norte-americano.

Mesmo entre os tomadores de crédito com melhor histórico, a inadimplência aumentou: cerca de 2% dos financiamentos estão com parcelas muito atrasadas, ante 1,8% um ano antes, segundo a mesma consultoria.

O Federal Reserve de Nova York também observou aumento das taxas de atraso em todas as faixas de renda e crédito, apontando que a combinação de juros elevados, inflação persistente e desvalorização de carros usados está pressionando as famílias.

Fim dos estímulos

Durante a pandemia, programas de auxílio e cheques emergenciais elevaram a poupança e melhoraram o crédito das famílias. Com os juros baixos, bancos ampliaram prazos e reduziram exigências, o que impulsionou as vendas de veículos.

Mas a partir de 2021, o cenário se inverteu: os preços subiram, as economias se esgotaram e os salários perderam ritmo, especialmente entre trabalhadores de baixa renda. A retomada dos pagamentos das dívidas estudantis em 2023 também reduziu a folga orçamentária, levando parte dos consumidores ao limite.

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Impacto limitado

Apesar da deterioração, analistas ouvidos pelo jornal não veem risco de contágio sistêmico. Os empréstimos automotivos representam menos de 10% da dívida total das famílias, e os créditos subprime são apenas uma fração desse total, segundo o Fed.

Além disso, as novas concessões mostram desempenho melhor, resultado de critérios de crédito mais rigorosos adotados desde 2023.

“O problema ainda é contido, mas revela o início de uma pressão financeira mais ampla sobre as famílias americanas”, resume Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Analytics.

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