Apagão reforça kit de sobrevivência da UE: só quem tinha dinheiro vivo pôde comprar

Durante dez horas sem luz, moradores caminharam quilômetros e buscaram sobreviver com dinheiro vivo, como recomendado em guia europeu de emergência

Paulo Barros

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LISBOA — O apagão que atingiu Portugal e Espanha nesta segunda-feira (28) lembrou à população europeia que emergências podem surgir sem aviso prévio. Apenas um mês antes, a Comissão Europeia havia recomendado que os cidadãos estivessem preparados para enfrentar 72 horas de isolamento, com alimentos, remédios, dinheiro físico, rádios, lanternas e pilhas — itens que fizeram falta para muitos durante o caos vivido na Península Ibérica.

Em Lisboa, onde milhares de brasileiros vivem atualmente, o cotidiano foi interrompido durante cerca de dez horas sem energia elétrica: transporte público colapsado, internet instável, longas caminhadas sob o sol de primavera e dificuldades até para comprar água.

“Eu ri da UE preparando os cidadãos pra montarem kits de sobrevivência, mas parece essencial mesmo”, conta Jessika Aguiar, advogada brasileira em Portugal, que confessa que agora irá atrás de seu kit com rádio, pilhas, rádio e lanterna.

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Estação de Campo Grande, em Lisboa, fechada por conta do apagão (Foto: Paulo Barros/InfoMoney)

Transporte caótico

O trânsito parou rapidamente após a queda de energia, com semáforos desligados e liberação em massa de trabalhadores e estudantes. Congestionamentos quilométricos se formaram em vias normalmente tranquilas no início da tarde.

Pessoas em pé dentro de um ônibus após o metrô ser fechado devido a uma queda de energia, em Lisboa, Portugal, em 28 de abril de 2025. REUTERS/Pedro Nunes

Com trens e metrôs parados e ônibus superlotados, milhares de pessoas caminharam vários quilômetros até suas casas. Turistas desembarcando no aeroporto da capital também precisaram atravessar a cidade a pé, arrastando suas malas, sem transporte disponível.

Ônibus ainda operaram nos primeiros momentos, mas logo a prefeitura liberou o transporte gratuito diante da superlotação e da dificuldade para validar bilhetes. Carros de aplicativo e pagamentos eletrônicos ficaram quase inutilizáveis, devido à internet móvel intermitente — mais presente nas áreas centrais e praticamente ausente nas zonas periféricas.

Agência do banco Novobanco fechada por conta do apagão, em Lisboa (Foto: Paulo Barros/InfoMoney)

Corrida por itens essenciais

Supermercados e lojas fecharam rapidamente, mas não sem antes registrarem uma corrida por produtos como água, alimentos enlatados, velas, pilhas e rádios.

“Quando a energia caiu, uma vizinha do meu prédio ligou um rádio a pilha. De repente, toda a vizinhança começou a aparecer nas janelas, pedindo para que ela aumentasse o volume. Foi aí que percebemos que o rádio seria nossa melhor fonte de informação naquele momento”, relata a advogada Jessika Aguiar.

O dono de uma loja de eletrodomésticos vende uma lanterna a um cliente após uma queda de energia generalizada, em Lisboa, Portugal, em 29 de abril de 2025. REUTERS/Pedro Nunes

“Logo, muita gente saiu às pressas para as lojas dos chineses em busca de rádios, pilhas, lanternas e outros itens básicos. As filas eram imensas”, conta Jessika, em meio à preocupação com a falta de notícias de familiares no Brasil.

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Quem ainda tinha dinheiro em espécie conseguiu fazer compras em pequenas mercearias e quiosques.

Com caixas eletrônicos e agências bancárias fora de operação, quem dependia apenas de cartões enfrentou grandes dificuldades. Muitos bares e cafés seguiram atendendo de maneira improvisada, vendendo bebidas sem refrigeração e aceitando apenas cédulas.

Supermercado em Lisboa fechado por conta do apagão (Foto: Paulo Barros/InfoMoney)

Em meio à crise, algumas cenas de solidariedade emergiram. Uma sorveteria no bairro do Areeiro distribuiu sorvetes gratuitamente para evitar o desperdício dos estoques ameaçados pelo calor e pela falta de refrigeração.

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Nos parques, famílias e amigos se reuniram para aproveitar o sol enquanto aguardavam a normalização dos serviços, improvisando piqueniques e momentos de descanso ao ar livre.

Em vez de jogar estoque fora em meio ao apagão, sorveteria em Lisboa optou por distribuir sorvete de graça (Foto: Reprodução/Instagram/@strive.lisbon)

Em casa, dificuldade para cozinhar

O fornecimento de água foi irregular: enquanto algumas residências permaneceram abastecidas, outras ficaram sem serviço, dependendo da disponibilidade de geradores nos sistemas de bombeamento. Já o abastecimento de gás natural seguiu sem interrupções, mas como fogões elétricos de indução são comuns, não era possível cozinhar na maioria das casas.

“Eu não tinha muitos itens do kit de sobrevivência, só algumas velas e o kit completo de remédios, que sempre deixo aqui. Tinha me programado para comprar outros itens, mas demorei e não comprei”, conta a tradutora brasileira Carolina Candido, que vive na região de Lisboa. “Agora pretendo montar o kit completo, tendo sobretudo lanternas e também um fogãozinho a gás, porque aqui na minha casa o fogão é elétrico e por isso não pude cozinhar”.

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Maioria das casas na Europa usa fogões elétricos de indução (Foto: Paulo Barros/InfoMoney)

Quem teve acesso ao básico conseguiu contornar melhor a crise. O nutricionista brasileiro Igor Picanço, que mora com a esposa e dois filhos no Porto, segunda maior cidade portuguesa, ao norte do país, disse não ter entrado em desespero.”Eu tinha ouvido uma informação na rádio que ia durar de 6 a 10 horas. Em momento algum acreditei em 72 horas (o prazo mencionado pela UE ao recomendar o kit de sobrevivência]. Acho loucura, pra mim era impossível”, diz.

Pessoas deitam nos gramados em parques, à espera da normalização do transporte em Lisboa (Foto: Paulo Barros/InfoMoney)

“Não me desesperei com compra, não me desesperei com água. A gente encheu baldes de água, e tínhamos comida. Uma vizinha tem fogão a gás, o meu é elétrico, e a gente tinha combinado que eu podia aquecer lá a qualquer momento. [Enquanto isso] o pessoal enchendo dois carrinhos, preparado pra guerra. Não, pelo amor de Deus, não é assim”, conta Igor.

Segurança reforçada e hospitais com geradores

Com estabelecimentos fechados, e a presença policial aumentou nas ruas, com ambulâncias e bombeiros respondendo principalmente a chamados de pessoas presas em elevadores, bondinhos e transportes públicos. Não houve registros de saques ou incidentes graves.

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Pessoas com bagagem saem enquanto a estrada para o Aeroporto de Lisboa está fechada durante uma queda de energia que atingiu grandes áreas de Portugal, em Lisboa, Portugal, em 28 de abril de 2025. REUTERS/Pedro Nunes

Os hospitais de Lisboa acionaram seus geradores de emergência para manter os atendimentos. A necessidade urgente de reabastecimento de combustível foi atendida pela Guarda Nacional Republicana (GNR). Apesar dos transtornos, os atendimentos programados para terça-feira foram mantidos, com os agendamentos de segunda-feira sendo reorganizados.

Vida volta ao normal, mas perguntas permanecem

Após as 21h de segunda, a energia começou a ser restabelecida. Moradores celebraram o retorno da luz com aplausos, buzinas e gritos das janelas, encerrando um dia que, para muitos, serviu de alerta sobre a importância de estar preparado para emergências — como já aconselhava a União Europeia.

Escolas, hospitais, transportes e serviços públicos retomaram suas atividades, e o abastecimento de água e eletricidade foi estabilizado.

Apesar da normalização, a população ainda aguarda respostas sobre as causas do apagão. Autoridades espanholas e portuguesas confirmaram que uma forte oscilação no sistema elétrico europeu provocou a interrupção do fornecimento, mas a origem exata do problema ainda está sob investigação.

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)