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O Brasil tem se transformado em um berçário para espiões russos que buscam criar identidades falsas para se infiltrar em todo o mundo. O fenômeno veio à tona nos últimos anos após investigações de diferentes autoridades e reportagens a publicada pelo jornal New York Times nessa quarta-feira.
As revelações escancararam como agentes secretos do Kremlin se aproveitaram de brechas para usar o maior país da América Latina como trampolim para chegar, de forma discreta, a governos estrangeiros e organismos internacionais.
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O caso mais emblemático é o do espião russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, que se apresentava com a identidade brasileira forjada de Victor Müller Ferreira. O impostor criou uma “história de cobertura”de dar inveja aos personagens de John le Carré.
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Com documentos e passaportes falsos, o agente trabalhou numa empresa de turismo, se matriculou em aulas de forró, abriu contas bancárias, comprou imóvel, estudou nos Estados Unidos e quase conseguiu um estágio no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, para atuar em casos de crimes de guerra — assunto de interesse de Vladimir Putin, que trava uma batalha infindável contra a Ucrânia.
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Mas, afinal, como Cherkasov conseguiu ludibriar as autoridades brasileiras por tanto tempo?
Investigadores que monitoram os passos de agentes secretos listam alguns fatores que explicam a preferência do Kremlin pelo Brasil. Entre eles, estão:
Facilidade na obtenção de documentos
O processo de registro civil no Brasil é considerado mais flexível que em outros países. Diferentemente de outras nações, onde a apresentação de registros hospitalares é obrigatória para comprovar o nascimento, em algumas regiões do país é possível registrar um bebê com declaração verbal alegando que o nascimento ocorreu em área rural. Além disso, segundo investigadores, há casos de subornos que facilitam a emissão de documentos falsos. A investigação da PF aponta que Cherkasov chegou a dar uma joia para uma funcionária de um cartório para facilitar a compra de um imóvel.
Diversidade cultural e étnica
A miscigenação brasileira é um atrativo para agentes russos que se passam por descendentes de imigrantes, especialmente quando adotam nomes comuns e sobrenomes com referências a outras nacionalidades. Cherkasov, que adotou a identidade fictícia de Victor Müller Ferreira, costumava dizer que nasceu no Rio de Janeiro, mas viveu com a sua tia-avó na Argentina dos 2 aos 21 anos de idade, o que, inclusive, explicaria o seu sotaque e certa dificuldade com o português.
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Posição geopolítica estratégica
O passaporte brasileiro se tornou um dos mais desejados pelos agentes secretos russos devido à posição de neutralidade do país em diversos conflitos internacionais. Por manter relações diplomáticas com múltiplas nações, o documento atrai menos suspeitas imediatas da comunidade de inteligência internacional. Esse contexto permitiu a Cherkasov estudar nos Estados Unidos e na Irlanda, ampliando o seu currículo e a sua biografia fraudulenta para enganar as autoridades.
Atividade de inteligência limitada
Outro ponto de vulnerabilidade destacado por investigadores é o fato de a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ter limitações para realizar monitoramento de espiões disfarçados pelo país afora. Com déficit de funcionários, recursos escassos e uma legislação obsoleta, o órgão depende de informações repassadas por outros serviços de inteligência estrangeiros. Além disso, a Abin vive uma crise sem precedentes nos últimos dois anos após vir à tona um escândalo de espionagem ilegal. Isso paralisou as atividades da agência e gerou insegurança para os seus integrantes atuarem em campo coletando informações.
Esses nós na corrente que move a máquina pública reforçam a necessidade de o país melhorar os mecanismos de controle sobre emissão de documentos, modernizar a fiscalização consular, apoiar a cooperação internacional e investir em atividades de contrainteligência. Como ensina a cartilha do serviço secreto russo, o ideal é “não esperar passivamente para detectar espiões, mas sair agressivamente para encontrá-los”.