Aliados de Trump na América Latina aprofundam laços com credores de Washington

A ampliação da presença coincide com uma profunda reformulação do mapa político latino-americano

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A guinada da América Latina para a direita e para políticas pró mercado está remodelando sua relação com a Washington de Donald Trump, incluindo novos fluxos de recursos oriundos de instituições multilaterais historicamente demonizadas na região por defenderem a austeridade fiscal.

Esse alinhamento ficou evidente nas reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizadas na última semana em Bangcoc. Autoridades das chamadas instituições de Bretton Woods demonstraram apoio a muitas das políticas adotadas pelos novos governos alinhados a Trump e relataram um aumento da demanda na região por financiamento e orientação econômica.

“De fato vemos uma mudança na direção das políticas”, disse Nigel Chalk, diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, durante uma coletiva na sexta-feira. “Enxergamos nosso papel como o de apoiar essa transição para políticas mais socialmente conscientes, mais responsáveis do ponto de vista fiscal e mais orientadas para o mercado na região.”

A ampliação dessa presença coincide com uma profunda reformulação do mapa político latino-americano, marcada pela eleição de líderes mais alinhados a Trump.

Segundo Chalk, o FMI possui atualmente dez programas ativos nas Américas, de um total de 35 programas de empréstimo em vigor. Isso inclui uma linha de crédito preventiva para o Chile, novos financiamentos para a Bolívia e negociações em andamento com a Colômbia para um novo programa. Todos esses países elegeram recentemente presidentes apoiados por Trump. O FMI também mantém atuação em El Salvador e Argentina, inspirados pelo movimento MAGA, enquanto tanto o fundo quanto o Banco Mundial retomam o relacionamento com a Venezuela sob influência de Washington.

Ainda assim, Chalk e sua contraparte no Banco Mundial, Susana Cordeiro Guerra, afirmaram que a política não desempenha papel nas decisões das instituições e evitaram mencionar Trump nas discussões desta semana.

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“O banco é, na medida do possível, agnóstico em relação à política das reformas”, disse Cordeiro Guerra. Segundo ela, o aumento do engajamento com esses líderes decorre do fato de que “a sobreposição com a agenda de emprego e crescimento é enorme”.

Embora a relação de muitos líderes mundiais com Trump seja mais pessoal e transacional do que ideológica, o Partido Republicano tradicionalmente apoia a disciplina fiscal e as políticas pró-mercado defendidas pelo FMI, conhecidas como Consenso de Washington, além de ter maior alinhamento com partidos de direita em temas como imigração e segurança.

Javier Milei, da Argentina, já havia se consolidado como o principal símbolo conservador da região, utilizando uma motosserra como ícone de seu programa de austeridade. No ano passado, o país recebeu um pacote de US$ 20 bilhões do FMI, apesar das preocupações de alguns membros do conselho da instituição, com US$ 12 bilhões liberados antecipadamente. Nesta semana, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, compartilhou o palco com o ministro da Economia argentino, Luis Caputo, e apontou a Argentina como exemplo a ser seguido.

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No Chile, o reformista pró-mercado José Antonio Kast assumiu a Presidência neste ano e recebeu em agosto a renovação de uma linha de crédito flexível junto ao FMI.

Na Colômbia, o presidente Abelardo de la Espriella tomou posse em agosto e negocia um novo programa para lidar com a deterioração fiscal herdada de seu antecessor.

Já Rodrigo Paz, da Bolívia, encerrou quase 20 anos de governos socialistas no ano passado e garantiu neste mês um programa de US$ 1,9 bilhão enquanto o país enfrenta sua pior crise econômica em quatro décadas. Sua administração iniciou a desmontagem gradual dos subsídios aos combustíveis e outras medidas destinadas a restaurar as finanças públicas após anos de queda nas receitas de gás natural e escassez de dólares.

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“Apesar do contexto internacional, novas janelas de oportunidade estão se abrindo para nossa região e este é o momento de agir com responsabilidade para aproveitá-las”, afirmou nesta semana o ministro da Fazenda da Bolívia, Christian Andrés Morales.

Governos que herdaram desequilíbrios fiscais, baixo crescimento econômico ou reservas financeiras enfraquecidas estão recorrendo cada vez mais às instituições sediadas em Washington em busca de recursos, ao mesmo tempo em que implementam políticas defendidas há muito tempo por esses organismos. No passado, governos de esquerda frequentemente utilizavam o FMI e outras entidades multilaterais como bodes expiatórios da austeridade fiscal.

“Tenho a impressão de que há hoje muito mais apoio na região tanto ao papel do FMI quanto, de forma mais ampla, ao papel do multilateralismo”, acrescentou Chalk.

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A instituição irmã do FMI, o Banco Mundial, também tem ampliado sua atuação.

“Queremos recompensar os reformistas”, afirmou Cordeiro Guerra em entrevista. “Trata-se de fazer o trabalho difícil e implementar efetivamente reformas voltadas para a consolidação fiscal e a estabilidade macroeconômica.”

Ela citou Paraguai, República Dominicana, El Salvador e Panamá como exemplos de governos que promovem reformas favoráveis ao setor privado enquanto registram crescimento superior a 4% ao ano.

O banco poderá emprestar à Venezuela, que não recebe recursos da instituição desde 2005, até US$ 5 bilhões nos próximos dois anos, desde que o país regularize atrasos com outros credores multilaterais.

A Venezuela retomou as relações formais com o organismo sediado em Washington neste ano, após a captura do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Esta semana marcou a primeira participação de autoridades venezuelanas nas reuniões do FMI e do Banco Mundial em mais de duas décadas, incluindo a presença do vice-presidente de Economia, Calixto Ortega, em um painel ao lado de Chalk.

O Banco Mundial também prepara um amplo pacote de financiamento para a Colômbia, outro para Barbados e outro para a Argentina, que enfrenta mais de US$ 25 bilhões em vencimentos de dívida. Todos os empréstimos dependem de aprovação do conselho executivo e deverão mobilizar tanto os braços público quanto privado da instituição.

As negociações com a Colômbia incluem três empréstimos separados voltados para eficiência dos gastos, energia e saúde, disse Cordeiro Guerra, sem divulgar os valores. O banco pretende utilizar estrutura semelhante em Barbados para apoiar a regulação de pagamentos e os pagamentos digitais governamentais.

Parte desse financiamento seguirá um modelo já utilizado na Argentina, onde o Banco Mundial apoiou um empréstimo comercial de até US$ 2 bilhões. A estrutura utiliza garantias da instituição para reduzir o risco dos credores privados, ajudando os governos a obter recursos em condições mais favoráveis.