Acusações de corrupção abalam governo Milei: entenda o “escândalo dos áudios”

Autoridades investigam suposto repasse de verba destinada a políticas voltadas a pessoas com deficiência para a irmã do presidente e secretária da Presidência da Argentina, Karina Milei

Paulo Barros

O presidente da Argentina, Javier Milei, em um veículo com a secretária-geral da Presidência da Argentina, Karina Milei, enquanto participam de um comício do partido La Libertad Avanza, antes das eleições legislativas na província de Buenos Aires, em Lomas de Zamora, nos arredores de Buenos Aires, Argentina, em 27 de agosto de 2025. REUTERS/Agustin Marcarian
O presidente da Argentina, Javier Milei, em um veículo com a secretária-geral da Presidência da Argentina, Karina Milei, enquanto participam de um comício do partido La Libertad Avanza, antes das eleições legislativas na província de Buenos Aires, em Lomas de Zamora, nos arredores de Buenos Aires, Argentina, em 27 de agosto de 2025. REUTERS/Agustin Marcarian

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Um ataque a pedras contra o presidente argentino Javier Milei nesta quarta-feira (27), ao sul de Buenos Aires, expôs o clima de tensão política a menos de dois meses das eleições legislativas. Mas a crise que realmente ameaça o governo é outra: um escândalo de corrupção envolvendo contratos milionários de uma agência estatal que cuida de pessoas com deficiência, que coloca a irmã do presidente, Karina Milei, no centro de uma investigação judicial.

Veja a seguir tudo o que se sabe sobre o chamado “escândalo dos áudios”, quem são os principais personagens e de que forma atinge o governo do libertário que governa a Argentina.

Resumo do caso

A Justiça argentina investiga um esquema de propinas na Agência Nacional de Deficiência (Andis), que teria envolvido contratos milionários para a compra de medicamentos. Os áudios atribuídos a Diego Spagnuolo, ex-diretor do órgão e advogado pessoal do presidente Javier Milei, citam repasses à irmã do mandatário, Karina Milei, e ao subsecretário Eduardo “Lule” Menem. O escândalo já levou a demissões, apreensão de dinheiro vivo e bloqueio de caixas de segurança, além de reforçar suspeitas de obstrução de provas após a descoberta de que mensagens foram apagadas do celular de Spagnuolo.

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O pivô: quem é Diego Spagnuolo

Spagnuolo, de 46 anos, foi afastado do cargo de diretor da Andis em 21 de agosto, após a divulgação dos áudios. Advogado próximo de Milei desde antes da eleição de 2023, era presença frequente na Casa Rosada e na residência oficial de Olivos. Sua gestão na Andis foi marcada por cortes de benefícios, declarações polêmicas e decisões administrativas contestadas.

Ele já havia causado indignação ao assinar uma resolução que classificava pessoas com deficiência intelectual como “idiotas” ou “imbecis”. Em outro episódio, disse a uma mãe de uma criança com autismo: “Se você teve um filho com deficiência, é problema da família, não do Estado”.

Karina e Javier Milei ao lado de Diego Spagnuolo, que teve áudios vazados revelando suposto esquema de propinas com dinheiro de agência de pessoas com deficiência (Foto: Reprodução/Redes sociais)

O conteúdo dos áudios

Nas gravações, Spagnuolo descreve um mecanismo de cobrança de propinas para liberar contratos de fornecimento de medicamentos. Em um dos trechos, diz:

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“Para Karina chega 3% e 1% se perde na operação.”

Em outra parte, relata que a drogaria Suizo Argentina pedia aos laboratórios locais um retorno “para a Presidência”. Segundo a imprensa argentina, Spagnuolo falava em cifras mensais entre US$ 500 mil e US$ 800 mil.

Novos áudios revelados nos últimos dias mostram Spagnuolo criticando ministros e até o próprio presidente, embora sem relação direta com o esquema de propinas.

A rota do dinheiro

A Justiça argentina investiga contratos de até 55 bilhões de pesos firmados entre a Andis, o Ministério da Saúde e a Suizo Argentina. A empresa, controlada pelos irmãos Jonathan e Emmanuel Kovalivker, teria funcionado como intermediária no suposto esquema de sobornos.

Na semana passada, o juiz federal Sebastián Casanello ordenou 16 buscas e apreensões. Foram encontrados US$ 266 mil em espécie, 7 milhões de pesos, uma máquina de contar dinheiro e contratos de mais de 10,8 bilhões de pesos relacionados à drogaria. Também foram bloqueadas caixas de segurança dos empresários, de Spagnuolo e de seu ex-subordinado Daniel Garbellini. Todos estão proibidos de deixar o país.

Celulares apagados e suspeita de obstrução

Perícia recente revelou que mensagens foram manualmente apagadas do celular de Spagnuolo logo após a divulgação dos áudios. Investigadores acreditam que as conversas deletadas envolviam Milei e sua irmã Karina. O material está sendo analisado com apoio da empresa israelense Cellebrite.

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Além de Spagnuolo e Garbellini, a Justiça mira executivos da Suizo Argentina. Emmanuel Kovalivker foi detido ao tentar sair de um condomínio de luxo com dinheiro vivo; Jonathan entregou seu celular dias depois.

Karina Milei e Lule Menem sob suspeita

As gravações mencionam Karina Milei, secretária-geral da Presidência, e Eduardo “Lule” Menem, subsecretário de Gestão Institucional, como destinatários de parte das propinas. Ambos negam as acusações. “Nunca ninguém me falou de corrupção nem tive conhecimento de nada ilegal na Andis”, disse Lule Menem em comunicado.

O presidente Milei saiu em defesa da irmã e atacou Spagnuolo: “Tudo o que ele diz é mentira. Vamos levá-lo à Justiça e provar que mentiu”.

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A Secretária-Geral da Presidência da Argentina, Karina Milei, observa, de pé em um veículo, um comício do partido La Libertad Avanza, antes das eleições legislativas na província de Buenos Aires, em Lomas de Zamora, nos arredores de Buenos Aires, Argentina, em 27 de agosto de 2025. REUTERS/Agustin Marcarian

Impacto político e econômico

O caso corrói o discurso anticorrupção do governo e fragiliza a narrativa do “outsider reformista”. Segundo relatório do Bradesco BBI, os escândalos “fragmentam o cenário político, corroem reputação e confiança” e, somados às derrotas no Congresso, aumentam o risco de expansão fiscal em choque com as metas do FMI. O banco reiterou recomendação de venda (underweight) para ações argentinas.

O Itaú BBA apontou que a confiança no governo já havia caído 13,6% em agosto, para o menor nível desde a posse de Milei, em pesquisa feita antes da revelação dos áudios.

Nos mercados, os efeitos se traduziram em desvalorização do peso e dos títulos públicos argentinos.

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O que vem pela frente

O escândalo ocorre às vésperas de eleições cruciais. No dia 7 de setembro, haverá votação na província de Buenos Aires, considerada termômetro do governo. Em 26 de outubro, o país terá eleições legislativas nacionais, que podem consolidar ou desmontar a base de Milei no Congresso.

As denúncias seguem sob investigação das autoridades.

(com La Nación e Clarín)

Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)