Publicidade
SÃO PAULO – Para aqueles que estão procurando financiamento, vem aí uma má notícia. Segundo estimativas dos especialistas no assunto, o volume de crédito disponível no mercado deve continuar baixo em 2002. Enquanto nos EUA o volume de crédito responde por quase 100% do PIB, no Brasil esse número corresponde a menos de 30% do PIB.
Embora existam diferenças enormes entre os dois países, o que deve ser levado em conta é que os brasileiros que dependem dos financiamentos continuarão sendo prejudicados com a baixa oferta de crédito no mercado. Em 2000 o volume de crédito disponível era de R$ 319 bilhões, enquanto que em 2001 esse número passou para R$ 332,5 bilhões, um aumento inferior a 10%. Esse ano, o volume de crédito deve permanecer no mesmo patamar verificado nos ano anterior.
Bancos e financeiras dificultam concessão de créditos
A combinação de fatores negativos tem pressionado os bancos e as financeiras a reduzirem as operações de crédito. Além disso, as próprias pessoas e as empresas têm evitado recorrer aos financiamentos, com medo de não conseguirem honrar as suas dívidas no futuro.
Os bancos já começaram a aumentar as taxas de juros praticadas nos crediários. De acordo com o relatório do Banco Central, os juros já subiram 0,4% em maio e devem continuar subindo enquanto o clima de instabilidade continuar. A Caixa Econômica Federal, por exemplo, já anunciou reajustes nos juros no mês de julho.
Aumento significativo dos juros reais
Isso se deve, principalmente, à proximidade das eleições, pois os investidores estão preocupados com quem será o próximo presidente e qual será a sua capacidade de honrar as dívidas do país. Esse medo se torna mais nítido nas operações de crédito com prazos superiores a seis meses, e os bancos estão mais rigorosos na hora de concederem esse tipo de crédito.
Além disso, o aumento do nível da inadimplência por parte dos tomadores de empréstimos, que passou de 9,5% em 2000 para 13,8% em 2001, aliado ao aumento dos juros reais no país, contribui para a redução no volume de crédito. Para se ter uma idéia, no início de 2001, os juros reais, isto é, os juros descontados da inflação, estavam em 6,35% ao ano, contra 15,25% da Selic e 8,90% da inflação. Desde então, os sucessivos aumentos da taxa básica de juros, que agora se encontra em 18,5% ao ano, sem um aumento excessivo da inflação, que está em 9,50%, fez com que os juros reais subissem para cerca de 9%.
Continua depois da publicidade
Pouco deve mudar no curto prazo
A queda no poder aquisitivo do trabalhador e o desemprego acabaram agravando ainda mais a situação do crediário no país, como ilustra a perda de 4% no salário real somente no primeiro trimestre deste ano. Junte-se a isto uma deterioração no mercado de trabalho, que em maio atingiu uma taxa de desemprego de 7,7%, segundo dados do IBGE, e temos a receita certa para uma menor demanda por crédito.
Mesmo após as eleições, dificilmente o quadro será revertido. As expectativas mais otimistas apontam que o volume de créditos deve chegar no máximo a 30% do PIB brasileiro. Contudo, mesmo que o Banco Central opte por novos cortes nos juros, é improvável que os bancos adotem uma política mais agressiva na concessão de empréstimos, pelo menos não antes da inadimplência dar sinais concretos de recuo.
Por sua vez, uma queda consistente da inadimplência só pode ser esperada através de um maior crescimento econômico, que permitiria um aumento do poder aquisitivo dos consumidores. Independente de quem assuma a presidência do país, trata-se de um objetivo ambicioso que exige algumas mudanças fundamentais no país, que vão além da simples redução dos juros.