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Nem bem o ano começou e as contas já começam a pesar no bolso do consumidor. Uma delas é a “cesta de volta às aulas”, que avançou 5,32% enquanto o IPCA fechou o ano passado com alta de 4,26%, conforme levantamento feito pela Rico, plataforma de investimentos do grupo XP.
No acumulado de cinco anos, os dados do estudo – que incluem gastos com educação como material escolar, uniforme e transporte – mostram um descompasso ainda maior. Enquanto os custos ligados à educação subiram 39,34%, o aumento da inflação oficial no mesmo período foi de 33,13%.
Somente as mensalidades do ensino fundamental e médio acumulam altas próximas de 50% desde 2021.
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Os dados só reforçam a percepção das famílias de que o custo de vida real para quem têm filhos em idade escolar cresce mais rápido do que os índices de inflação medidos pela economia. Quando se somam material escolar, uniformes, mensalidades mais todos os tributos que chegam em janeiro, como IPTU e IPVA, essa sensação de aumento fica ainda mais generalizada.
Segundo Maria Giulia Figueiredo, analista de research da Rico e responsável pelo levantamento, o impacto das contas sempre aparece logo nos primeiros dias do ano. “Esse momento de montar a lista, olhar para o orçamento e ter de lidar com a realidade repete a certeza de todos os anos, de que quase tudo ficou mais caro”, afirma.
Para medir esse impacto, o estudo construiu uma cesta hipotética composta por uniforme escolar, mensalidades de educação em diferentes etapas, livros didáticos e não didáticos e itens de papelaria. Segundo a analista, mesmo quando alguns desses componentes apresentam altas moderadas em um determinado ano, o efeito combinado mantém a cesta acima do IPCA.
Na prática, um conjunto de despesas que custava R$ 1.000 em 2021 hoje estaria próximo de R$ 1.393, considerando apenas a inflação específica da cesta escolar. Pelo IPCA, esse valor seria de cerca de R$ 1.331. “A diferença ilustra como a inflação setorial pode corroer o orçamento de forma mais intensa do que o índice geral sugere.”
Papelaria e livros
Entre os gastos mais imediatos do início do ano letivo estão papelaria e livros, geralmente adquiridos de forma concentrada em janeiro. Em 2025, a inflação da papelaria foi de 2,39%, abaixo do IPCA, possivelmente influenciada por promoções sazonais, maior concorrência no varejo e substituição por marcas mais baratas.
No entanto, o horizonte mais longo revela outra realidade: em cinco anos, a categoria acumulou alta de 39,64%. Ou seja, itens que custavam R$ 100 em 2021 hoje saem por quase R$ 140, conforme o estudo.
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Nos livros, o comportamento foi desigual. Os didáticos subiram 4,47% em 2025, praticamente em linha com a inflação geral. Já os não didáticos avançaram 6,32% no ano e acumulam expressivos 51,96% desde 2021, reforçando a importância de alternativas como compra de usados, trocas entre famílias e bibliotecas escolares.
Leia Mais: Vendas de material escolar devem recuar quase 6% em 2026, indica projeção do Ibevar
Veja abaixo os aumentos em 2025 e em cinco anos:

Mensalidades
Se o material escolar pesa no início do ano, são as mensalidades que sustentam a pressão ao longo do tempo. Em 2025, o grupo Educação registrou alta de 6,22%, novamente acima do IPCA. O movimento reflete custos mais rígidos do setor, como salários, infraestrutura, tecnologia e serviços de apoio, além de reajustes periódicos tradicionais.
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Desde 2021, o encarecimento é ainda mais significativo: as mensalidades do ensino fundamental subiram 49,35% e as do ensino médio, 47,52%. Uma mensalidade de R$ 1.000 no início da década hoje estaria próxima de R$ 1.500, apenas considerando os percentuais acumulados.
Outras despesas recorrentes, embora menores individualmente, contribuem para o aperto no orçamento. O lanche escolar subiu 11,35% em 2025, refletindo a inflação do setor de alimentação fora do domicílio.
No caso do uniforme a situação é ainda pior, porque, além de concentrar a compra no início do ano, acumula quase 40% de alta em cinco anos, impactado pelo aumento no custo de tecidos e da produção industrial.
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Além da escola
O levantamento também chama atenção para gastos paralelos que costumam coincidir com a volta às aulas. Mesmo com a queda no preço dos carros usados em 2025, despesas obrigatórias como emplacamento e licenciamento acumulam alta de 52,06% desde 2021.
O IPTU, por sua vez, pesa menos pela inflação e mais pela concentração no calendário. Em São Paulo, por exemplo, a base de cálculo foi atualizada em 4,6% em 2025, com desconto de 3% para pagamento à vista, percentual mantido para 2026. O impacto psicológico e financeiro, porém, se intensifica quando o boleto chega ao mesmo tempo que as despesas escolares.
Pesquisar é essencial
O Procon-SP indica que é fundamental fazer pesquisa de preços antes da compra de materiais escolares. Isso porque apesar de o preço de muitos itens ser nominalmente baixo, na soma de toda a lista os valores acabam por pesar no orçamento. O levantamento anual feito pela instituição encontrou diferenças significativas entre o valor praticado por estabelecimentos diferentes para um mesmo produto, mesmo comparando com o estudo feito em dezembro, o mês imediatamente anterior.
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A maior diferença de preços encontrada pelos especialistas do Procon-SP foi na caneta esferográfica Trilux da Faber Castell, que registrou uma variação de 276,92%. Em um local o preço era R$ 4,90 enquanto em outro, R$ 1,30. Além da pesquisa, seja em lojas físicas ou online, a recomendação é reaproveitar os produtos da lista de material que o consumidor já possui em casa.
O Procon comparou 118 produtos comuns entre as listas deste ano e do ano passado e constatou que, em média, houve uma ligeira alta de 0,14% no preço médio desses itens. Os produtos que variaram positivamente foram: borracha (4,03%), cadernos (7,86%), cola bastão (1,36%), lápis de cor (4,76%), lapiseira (4,44%), marca texto (0,65%), massa de modelar (1,79%), régua plástica 30cm (4,88%), tesoura sem ponta (7,52%).
O aumento só não foi maior em função, principalmente, dos seguintes itens que registraram queda: apontador de lápis (-8,14%), caneta esferográfica (-9,35%), caneta hidrográfica (-4,55%), cola branca liquida (-0,07%), giz de cera (-3,64%), lápis preto (-2,03%), papel sulfite (-0,06%), refil para fichário universitário pautado 4 furos 96fls (-4,66%) e tinta para pintura a dedo (-1,25%).
Planejamento é chave
Para evitar o endividamento nesse período, a educadora financeira Thaisa Durso, da Rico, recomenda planejamento antecipado.
Veja abaixo as dicas da educadora:
1) Faça um raio-x do seu orçamento – Antes de qualquer decisão, é essencial entender exatamente quanto entra e quanto sai por mês, incluindo impostos e gastos escolares. “Antes de traçar qualquer plano, é essencial ter clareza sobre a situação financeira real.” Mapeie receitas, despesas fixas, variáveis e compromissos do início do ano, como IPVA, IPTU e matrícula. Isso ajuda a definir prioridades e evitar atrasos com multas e juros.
2) Planeje o ano, não só janeiro – O controle financeiro precisa ser contínuo para que os gastos não se acumulem de forma desorganizada. “Planilhas, aplicativos ou registros simples ajudam a acompanhar entradas e saídas e garantem que o planejamento não fique restrito apenas ao mês de janeiro.” Criar um calendário financeiro com os meses mais pesados (impostos, escola, seguros, férias) permite distribuir os gastos ao longo do ano e reduzir decisões por impulso.
3) À vista ou parcelado?: Impostos e despesas escolares concentram grande parte dos gastos no início do ano. “A escolha entre pagar à vista ou parcelar deve considerar planejamento financeiro, preservação de liquidez e custo de oportunidade.” Em muitos casos, o desconto à vista é financeiramente mais vantajoso. Mas, se o dinheiro na mão for essencial para cobrir outros compromissos, o parcelamento pode ser considerado de forma estratégica.
4) Evite juros altos e inadimplência – A combinação de muitas contas no início do ano e orçamento apertado aumenta o risco de endividamento. “Para evitar esse ciclo, o planejamento antecipado é fundamental.” Priorize dívidas com juros mais altos, evite atrasos e, sempre que possível, reserve mensalmente valores para impostos e despesas previsíveis em investimentos de alta liquidez, como Tesouro Selic ou CDBs.