Varejistas entram no segmento de cartão de crédito de “marca própria”

Segmento vem crescendo nos últimos anos, e já começa a ameaçar instituições financeiras e administradoras de cartão

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SÃO PAULO – A comercialização de cartões de crédito não se restringe apenas às administradoras de cartão e instituições financeiras, e já começa a atingir os supermercados e lojas de departamento. Essas empresas descobriram que é rentável permitir que os consumidores parcelem suas compras através do cartão próprio da loja, também conhecido como private label.

Essa forma de financiamento vem crescendo de forma vertiginosa no mercado desde 2000, e pode se tornar uma séria concorrente das administradoras e dos bancos. Isso porque, em geral, a concessão de um cartão próprio é bem mais fácil e rápida do que a de um cartão de crédito de uma administradora tradicional.

Cartões próprios invadem o varejo

Diante desse cenário, muitas administradoras estão firmando acordo com as lojas para lançar um cartão próprio, que utilizaria a marca da loja, mas estaria sob a responsabilidade da administradora. Esse é o caso, por exemplo, do Cartão Mais do grupo Pão de Açúcar, que está sendo administrado pela Credicard.

Porém, outros estabelecimentos preferem se responsabilizar tanto pela marca como pela administração das contas dos clientes, como a loja de departamento holandesa C&A, que inaugurou o banco IBI recentemente para ser responsável pela administração do cartão de crédito da loja e da concessão dos financiamentos aos consumidores.

Emprestar vem sendo considerado um bom negócio

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), essa mudança reflete o próprio cenário econômico brasileiro dos últimos anos, em que as vendas do comércio caíram 0,68% no passado frente ao ano anterior, em função da elevada taxa de desemprego, inflação e juros altos e poder aquisitivo em trajetória descendente.

Por outro lado, o lucro das instituições financeiras subiu, em média, 30% em 2002 frente ao ano anterior, impulsionado principalmente, pelos elevados juros pagos pelos tomadores de empréstimos bancários. Atualmente, devem existir cerca de 50 milhões de cartões de crédito marca própria enquanto os cartões tradicionais, com as bandeiras Visa, Mastercard, Diners e Amex, devem chegar a 41,5 milhões de unidades.

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A entrada das varejistas no segmento de cartões de crédito vem crescendo nos últimos anos, sobretudo pela facilidade no momento da concessão do cartão e das vantagens nesse tipo de financiamento. Nesse caso, mesmo quando o consumidor deixa de quitar a fatura do cartão, a administradora se responsabiliza pelo pagamento, porém cobra do inadimplente uma multa bastante pesada, juros que variam de 9% a 13% ao mês.

Inadimplência e fidelidade

Com isso, as varejistas reduzem os índices de inadimplência, além de conseguirem fidelizar os clientes mais rapidamente e de forma mais eficiente. Esses cartões, em geral, não cobram taxa de aquisição, e oferecem descontos em alguns produtos e brindes de acordo com o número de vezes que o cartão é utilizado.

O fato dos juros cobrados nos cartões próprios ser mais baixo em relação aos cartões tradicionais também motiva o crescimento desse segmento. Enquanto os juros dos cartões tradicionais oscilam entre 9% a 13% ao mês, os de marca própria cobram juros entre 3,5% a 7% ao mês.

Também existe a vantagem do parcelamento sem juros, já que muitas lojas aceitam compras parceladas em até cinco vezes sem juros. Contudo, esse crescimento vem sendo contestado por especialistas em serviços financeiros, que discutem se é legal uma varejista lançar um cartão de crédito próprio sem apoio de uma instituição financeira.

Procon defende que prática é legal

Na opinião do Procon-SP, a medida é legal, desde que os juros cobrados nos cartões não ultrapassem o limite de 6% ao ano em linha com a Lei da Usura de 1933. Caso contrário, a varejista deve firmar parceria com uma instituição financeira regulamentada pelo Banco Central ou uma administradora de cartões de crédito.

A associação que reúne as financeiras estabelecidas no Brasil (Acrefi) reconhece que devem existir em torno de 1 milhão de cartões de crédito espalhados pelo país sem a parceria de financeiras. Contudo, a Acrefi ressalta que existe um projeto com intuito de legalizar essas operações, que deve permitir um crescimento mais acentuado desse segmento.