Vale a pena emprestar dinheiro para desconhecidos? Veja as vantagens e desvantagens do P2P Lending

São empréstimos feitos diretamente entre pessoas ou de pessoas para empresas. Um dos principais atrativos são os juros, mas é preciso analisar o risco

Alessandra Taraborelli

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SÃO PAULO – Um espaço cada vez maior da vida financeira dos brasileiros vem sendo ocupado pelas fintechs, empresas inovadoras de tecnologia voltadas às finanças. E não é diferente no crédito: a carteira de empréstimos das fintechs, que não chegava a R$ 6 bilhões em janeiro de 2020, terminou o ano com um saldo de R$ 8,4 bilhões.

Uma parte desse volume está sendo gerado por um tipo de operação que até pouco tempo atrás acontecia em ambientes informais – como os almoços de família ou encontros de amigos. É o chamado “P2P lending”, empréstimos feitos diretamente entre pessoas ou de pessoas para empresas.

As fintechs, nesse caso, atuam como as plataformas que conectam as duas partes: quem tem dinheiro para emprestar e quem precisa de crédito para realizar algum projeto. “É um mercado novo e o brasileiro está começando a conhecer”, avalia Marcelo Martins, diretor-executivo da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs).

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Nas duas pontas, um dos principais atrativos são os juros. O tomador encontra taxas atrativas se comparados às dos bancos, além de menos burocracia e mais rapidez na concessão do crédito. Quem empresta pode conseguir um retorno interessante em meio ao ambiente de taxas ainda baixas: o rendimento varia, em geral, entre cerca de 15% e 45% ao ano.

A contrapartida é o risco. Especialmente no empréstimo entre pessoas, não há garantia dada pelo tomador – ou seja, quem oferece crédito não sabe se irá recuperar o recurso aplicado. Nessas operações, também não há cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Para mitigar o risco, as fintechs realizam análise de crédito do tomador, tanto com ferramentas próprias quanto com outras disponíveis no mercado. A informação é aberta nas plataformas, para que o investidor escolha sozinho a quem destinar seu dinheiro.

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Já nos empréstimos de pessoas para empresas, algumas fintechs só liberam o crédito mediante a apresentação de uma garantia pelo tomador, que pode ser um investimento, um veículo ou um imóvel, entre outros. Além disso, elas podem estabelecer outras regras, como conceder crédito apenas para CNPJs abertos há pelo menos três anos ou exigir que os sócios não estejam negativados.

São elementos que devem ser considerados por quem decide entrar no P2P, segundo Guilherme Horn, diretor de inovação e estratégia digital do banco BV e especialista em fintechs. “Quanto maior a liquidez da garantia oferecida, melhor”, diz. “Uma aplicação financeira tem liquidez. Se o tomador não pagou, é fácil recuperar o dinheiro. Um automóvel não é difícil vender, mas é necessário levar em consideração o estado do veículo na hora de vendê-lo. Já um imóvel pode demorar para ser vendido”.

Efeitos da pandemia

Como a oferta de P2P lending se comportou diante das mudanças estabelecidas pela pandemia de coronavírus? Para algumas fintechs, os últimos meses têm sido de impulso para as operações – para outras, nem tanto.

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A carteira de crédito entre pessoas do Social Bank, por exemplo, cresceu 132% em 2020, e a inadimplência ficou abaixo de 3%. O volume total de movimentação desde o lançamento do banco, em outubro de 2017, é de quase R$ 140 milhões.

Segundo Alisson Idaló, diretor de Estratégia e Produtos do Social Bank, não é preciso emprestar sempre a alguém desconhecido. Também é possível usar a plataforma como intermediário para ajudar um amigo, por exemplo. As taxas de juros dependem do acordo estabelecido entre as partes – podem ser até zero, se, por exemplo, os amigos assim quiserem. O prazo de pagamento vai de 30 dias a 12 meses. O valor financiado varia de R$ 250 a R$ 10 mil.

Novas funcionalidades estão previstas para 2021. “Estamos readequando a estratégia para que os funcionários das empresas, que são nossas clientes em outros serviços, possam emprestar entre si, tendo o salário como garantia de pagamento, o que reduz o risco do investidor”, explica Idaló.

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Não foi assim para todas. A fintech Mutual, por exemplo, sentiu o baque da pandemia nas operações. “Assim que o primeiro lockdown foi decretado, no ano passado, mudamos nossa política de crédito e aumentamos as restrições. Sobrevivemos porque desenvolvemos outros produtos, com garantia, o que diminuiu nossa dependência do crédito à pessoa física”, explica Marciliano Freitas, conselheiro executivo da fintech.

Em março de 2020, a carteira da Mutual estava próxima de R$ 4 milhões – hoje, é de apenas R$ 600 mil. As taxas variam de 5% a 15% ao mês, para operações que podem ir de R$ 2,5 mil a R$ 45 mil. O prazo de pagamento começa em 6 e chega a 18 meses.

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As fintechs que conectam pessoas a empresas são as que têm encontrado mais campo para explorar. Um caso é o da Nexoos, que tem mais de 60 mil investidores, entre institucionais e pessoas físicas, conectados à sua plataforma de empréstimos para pequenas e médias empresas.

Os negócios prosperaram a ponto de chamar atenção da Ame Digital, fintech da Lojas Americanas – que, na última segunda-feira (3), anunciou a aquisição da Nexoos.

As taxas de juros para o tomador variam de 1,14% a 4,19% ao mês na Nexoos, mediante análise de crédito. O prazo de pagamento é de, no mínimo, três meses; no máximo, chega a 24 meses. O valor dos empréstimos varia de R$ 15 mil a R$ 500 mil. A empresa precisa ter CNPJ ativo há pelo menos 12 meses e faturamento anual mínimo de R$ 500 mil. Para quem empresta, as taxas repassadas ficam entre 14% e 42% ao ano.

Entre os novos serviços disponibilizados pela Nexoos está o CaaS (Credit as a Service), plataforma que permite que uma empresa com recurso disponível possa subsidiar sua base de clientes e fornecedores. Os prazos de pagamento são definidos pela empresa, observando também as condições daqueles que possam vir a tomar crédito.

“O CaaS nasceu com uma função dupla: levar soluções personalizadas às grandes empresas e incentivar e colaborar para a saúde financeira de seus clientes e usuários”, afirma Daniel Gomes, CEO e cofundador da Nexoos, acrescentando que mantém a opção de pessoa física investir em empresas.

Na Ulend, o faturamento anual exigido do tomador é de R$ 1,5 milhão, com taxa de juros variando entre 0,8% a 2,9% ao mês. O prazo de pagamento é de no mínimo 3 e no máximo 24 meses. O valor financiado varia de R$ 50 mil a R$ 4 milhões.

Já quem oferece o empréstimo pode conseguir um retorno mensal entre 0,8% a 2,9%, investindo no mínimo R$ 2 mil e no máximo, 16% do valor do empréstimo solicitado – cada operação é subdividida entre vários investidores.

Na Kavod, que é especializada em franquias, os juros são a partir de 0,99% ao mês, mediante análise de crédito. O prazo de pagamento é de 18 a 36 meses. O valor do empréstimo varia de R$ 50 mil a R$ 1 milhão.

Cerca de 65% das empresas que captaram recursos com a Kavod foram franquias, segundo Renato Douek, fundador e CEO da fintech. Para elas, não é necessário tempo mínimo de CNPJ, podendo ser financiada inclusive a abertura de uma nova loja. No caso de empresas independentes, o recomendado é ter entre 12 e 24 meses de CNPJ em funcionamento, e o faturamento anual exigido é de R$ 120 mil ou mais.

Quem oferece o empréstimo recebe a mesma taxa paga pelo tomador – não há cobrança de spread e outros custos, apenas há retenção de Imposto de Renda pela fintech. O valor inicial de investimento é R$ 2 mil por empresa e o máximo varia de acordo com a meta de captação.

Inadimplência

Qual é o risco de emprestar dinheiro diretamente a uma pessoa ou empresa? É maior do que o assumido pelos bancos aos fazerem suas operações de crédito.

Segundo dados do Banco Central, a taxa de inadimplência nas operações de crédito livre dos bancos ficou em 2,9% em março, sendo de 4,1% entre as pessoas físicas e de 1,6% entre as empresas.

Na Nexoos, a taxa de inadimplência ficou em 10,4% em 2020, com retorno líquido médio para o investidor de 14,2%. Na Ulend, ficou em torno de 6%. “Conseguimos segurar a inadimplência porque criamos filtros de crédito mais fechados”, diz Beatriz Antibero, cofundadora da fintech, acrescentando que 80% dos empréstimos têm garantia, em geral em duplicatas ou aplicações financeiras.