Planejamento financeiro

Trabalhou, recebeu: conheça as vantagens e desvantagens do “salário sob demanda”

Startups, fintechs e empresas de meios de pagamentos desenvolvem ferramentas que permitem adiantar pelo menos uma parte do salário – a um custo, é claro

SÃO PAULO – Imagine ter a possibilidade de “sacar” o salário equivalente aos seus últimos seis dias de trabalho – ou dez, ou dezoito, ou quantos sejam – mesmo que a data usual do seu pagamento ainda esteja longe à frente. É o que tem sido apelidado de “salário sob demanda”, ou “acesso flexível ao salário”, no jargão das consultorias de RH.

Trata-se de mais um item da prateleira de benefícios flexíveis que as empresas passaram a oferecer para atrair profissionais para seus quadros. “Vivemos uma era de hiper customização, e as práticas de gestão também têm seguido por aí. O salário sob demanda se encaixa nessa realidade ao permitir que o funcionário personalize a forma como receberá seu pagamento”, diz Rafael Ricarte, líder de produtos de carreira da Mercer Brasil, consultoria de benefícios.

Startups e fintechs, mas também instituições de meios de pagamentos já bem estabelecidas, têm desenvolvido ferramentas que permitem adiantar pelo menos uma parte do salário – a um custo, é claro.

A Xerpay é uma das startups que atuam no segmento. “O ciclo de pagamento tradicional penaliza os profissionais. Ao longo do mês, eles têm tem dinheiro que já é deles, mas não receberam porque o fluxo tradicional prevê pagar o salário uma vez por mês”, defende João Figueira, diretor de operações da empresa. “O descasamento de fluxo de caixa pode levar as pessoas a atrasar uma conta ou perder uma oportunidade”.

Pelo aplicativo da Xerpay, os funcionários das empresas podem sacar partes dos seus salários em uma base diária – a cada dia de trabalho no mês acrescenta-se um dia de remuneração no valor que pode ser adiantado. No dia oficial do pagamento, o salário já vem com o desconto dos valores sacados ao longo do mês.

As empresas que contratam o serviço podem estabelecer limites. Os funcionários da Nívea Brasil, por exemplo, podem adiantar no máximo 60% do salário líquido ao longo do mês. Os 40% restantes são pagos na mesma data para todo mundo. “Adotamos o salário sob demanda em janeiro de 2020 como uma forma de apoiar a saúde financeira dos colaboradores. O banco não era uma solução, porque os juros do crédito são muito altos”, diz Juan Pablo Leymarie, diretor de RH da empresa.

São cerca de 350 funcionários na Nívea Brasil e, segundo Leymarie, entre 35% e 40% deles já usaram o salário sob demanda – alguns esporadicamente, outros, com algum nível de frequência. Além da Nívea, a Xerpay tem outras cerca de 30 empresas como clientes, somando 65 mil funcionários com acesso ao benefício.

Nos Estados Unidos, a consultoria Aite Group calcula que US$ 9,5 bilhões em salário tenham sido adiantados no ano passado por meio de programas de acesso flexível ao salário, o triplo de 2018.

“Pode acontecer de, na data do pagamento, o funcionário ter pouco para receber”, diz Figueira, da Xerpay. Em geral, os limites de adiantamento estabelecidos pelas empresas, segundo ele, variam de 50% a 70%. “Não queremos que não haja salário nenhum. Mas se, na prática, isso evitou que a pessoa entrasse no cheque especial, não entendo que o adiantamento seja um problema”.

Quanto custa o salário sob demanda

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Embora não configure uma operação de crédito, o adiantamento do salário normalmente tem um custo transacional, e cada empresa estabelece um formato distinto de cobrança. Na Xerpay, por exemplo, em cada saque é cobrada uma tarifa de até R$ 9 – mas esse é o valor máximo, e não fixo. O valor do resgate e a proximidade da data do pagamento influenciam. Quanto menor o saque e quanto mais perto estiver do dia da folha, menor é a tarifa.

A Creditas, fintech conhecida por oferecer empréstimos com garantia em imóveis e automóveis, também trabalha com uma ferramenta de adiantamento. Pelo aplicativo, os funcionários das empresas que contratam o serviço podem sacar até 40% do salário antes da data do pagamento, também a qualquer dia. O custo é de R$ 5, sendo que os dois primeiros resgates são gratuitos.

Segundo Viviane Sales, vice-presidente da Creditas @Work, unidade que contempla a ferramenta de salário sob demanda, aproximadamente 20% dos profissionais que têm acesso à ferramenta fazem uso dela. Atualmente, a fintech atende empresas que somam cerca de 500 mil funcionários.

Outras companhias, como a Ticket, do grupo Edenred, permitem usar parte do salário antes do dia do pagamento por meio de um cartão com um limite equivalente ao percentual liberado para adiantamento – em geral, de 30%. Com o cartão e com um aplicativo, é possível fazer compras na rede da bandeira Good Card, resgates nos caixas eletrônicos da rede Banco 24h e pagar boletos.

O uso do cartão para compras não tem custo, conforme Sylvia Ramos, gerente do produto na Ticket. Mas os saques saem por R$ 7, enquanto o custo do pagamento de boletos é de 2,99% sobre o valor da conta.

Educação financeira

A visão das empresas que oferecem o salário sob demanda é ajudar os funcionários a organizar a vida financeira e evitar a necessidade de atrasar as contas ou ter de recorrer a linhas de crédito que são fáceis de entrar, mas difíceis de sair, como o cheque especial ou o rotativo do cartão de crédito.

De acordo com dados do Banco Central, a taxa média de juros do cheque especial era de 6,97% ao mês em abril deste ano. Já o rotativo do cartão de crédito estava em 13,04% ao mês.

Um levantamento da Xerpay com os usuários da ferramenta indica que 75% deles usam o salário sob demanda para resolver um imprevisto ou evitar uma dívida, e 93% fazem isso como alternativa a produtos financeiros tradicionais e mais caros.

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Financeiramente, a depender do valor, pode fazer sentido recorrer ao adiantamento do salário. Um exemplo: pagar R$ 9 para receber R$ 1.000 e com isso evitar o cheque especial por um mês é vantajoso, pois só em juros seria preciso desembolsar quase R$ 70 no período, calcula Nélio Costa, planejador financeiro certificado (CFP) – fora outros custos embutidos na linha de crédito, como o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). “Também pode valer caso a pessoa consiga um desconto considerável em uma compra paga à vista”, explica.

Os potenciais problemas, na visão de Costa, são dois: as razões para tomar um adiantamento e a recorrência. “Se o plano é fazer um adiantamento pontual, é importante se perguntar se o gasto realmente é essencial. Seria possível esperar mais 15 dias, por exemplo, receber o salário e evitar pagar uma taxa a mais?”, questiona.

Já a recorrência dos adiantamentos representa uma bandeira vermelha sobre a organização financeira do profissional, avalia Costa. “Se a pessoa se dispuser a fazer um sacrifício seis meses ou um ano, conseguirá formar uma reserva de emergência e não precisará mais pagar nada para ter acesso a dinheiro”, diz.

Os dados levantados pela Xerpay indicam que o uso recorrente dos adiantamentos não é raro. Cerca de 30% dos funcionários que aderem ao salário sob demanda voltam a buscá-lo nos meses seguintes. Os saques são, em média, de R$ 200 reais e são feitos, em geral, de duas a três vezes por mês. Se a taxa de cada um for de R$ 9, o custo é equivalente a 4,5% do valor resgatado.

“É importante que as empresas consigam amarrar ofertas de benefícios com orientação. Ao jogar um monte de opções para os funcionários, correm o risco de estragar a festa”, diz Guilherme Gazzoni, líder de Desenvolvimento de Produtos de Wealth da Mercer Brasil. “O salário sob demanda é um benefício interessante, mas exige uma implantação cuidadosa”.

Como a antecipação do salário é remunerada com uma tarifa pontual, e não com juros que se acumulam ao longo do tempo, a chance de o buraco crescer é menor. Mas na visão de Costa, é importante entender as razões que levam o profissional a precisar de dinheiro antes do tempo. “Vale a pena, por exemplo, avaliar alterar a data de vencimento de alguma conta ou mesmo verificar com o empregador a possibilidade de mudar a data de recebimento do salário”, diz. “O importante é tentar equalizar o fluxo de caixa”.

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