STJ modifica pensão alimentícia e revisões podem ficar mais frequentes. Entenda

Para especialistas, decisão reforça equilíbrio entre quem paga e quem recebe alimentos

Anna França

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Uma recente decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) mudou toda a interpretação sobre o cálculo da pensão alimentícia ao reafirmar que o valor deve se basear na capacidade real de quem paga e nas necessidades efetivas de quem recebe. Trata-se de uma junção da reflexão econômica com a jurídica. Na prática, essa normatização pode reconfigurar o impacto financeiro da obrigação alimentícia e influenciar negociações, revisões e exonerações.

Segundo a advogada Gabriela Martins, do Fonseca Brasil & Serrão Advogados, o que o STJ decidiu não representa propriamente inovação no ordenamento jurídico pátrio, pois “já há previsão expressa quanto à observância do binômio necessidade/possibilidade na fixação da prestação alimentícia”.

Ela explica que o art. 1.694, §1º do Código Civil já exige que “os alimentos devem ser fixados na proporção das necessidades do reclamante e dos recursos da pessoa obrigada”. Porém, a diferença agora é que a jurisprudência vai  exigindo maior objetividade e menos margem para critérios subjetivos na aferição da capacidade econômica do alimentante.

Na visão da advogada Isabela Gregório, do Efcan Advogados, embora essa decisão busque promover equilíbrio e proporcionalidade, pode abrir margem para abusos por parte do alimentante, especialmente quando há tentativa de ocultação de bens ou de renda para fugir da obrigação alimentar.”

Ela salienta que o ônus de provar a capacidade do devedor recai cada vez mais sobre o alimentado, o que pode retardar decisões, pois envolve instrumentos complexos como quebra de sigilo bancário, fiscal ou societário.

O que o STJ decidiu

Do ponto de vista jurídico-econômico, a nova diretriz do STJ reforça os seguintes pontos:

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Falta de condições

Apesar disso, o novo entendimento não significa que o alimentante possa simplesmente alegar “não tenho condições” e ser automaticamente liberado da obrigação. Os advogados destacam que, no caso de ocultação de renda ou patrimônio, o Judiciário pode determinar a quebra de sigilo bancário, fiscal ou societário para averiguar a real situação econômica. “O risco de manipulação de informações existe, mas é mitigado por uma instrução probatória bem conduzida dentro do processo judicial”, explica Isabela Gregório.

Para as analistas, o que se observa é uma “profissionalização” crescente da fixação de pensão: onde antes imperava o cálculo automático ou baseado apenas em percentual de salário, agora aparece a exigência de auditoria econômica das partes. Isso se alinha com um contexto de maior volatilidade de rendimentos — trabalho autônomo, gig economy, variação de bônus — e exige cautela das partes envolvidas.

Assim, a decisão do STJ não veio para reduzir massivamente as pensões, mas para impor maior transparência, proporcionalidade e certeza na sua fixação. No entanto, em um país marcado por desigualdades e informalidade, esse movimento deve exigir das partes (e de seus advogados) maior rigor no planejamento, controle financeiro e prova documental, afirmam as advogadas.

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro