Sem controle: crise afeta senso de estabilidade e segurança de investidores

Segundo pesquisa, como sentir controle é essencial para bem-estar, na falta dele, mente cria situações ilusórias e superstições

SÃO PAULO – Trevo de quatro folhas, pata de coelho, levantar da cama com o pé direito, não passar debaixo de uma escada…superstições não faltam na vida dos brasileiros, principalmente em momentos de dúvidas.

Estudo norte-americano, da Universidade do Texas e da Universidade Evanston, de Illinois, mostra que, em situações fora de controle, as pessoas tentam, mesmo que inconscientemente, impor a ordem, criando ilusões. De acordo com a pesquisa, como a sensação de controle é essencial para o bem-estar, na falta dela, a mente humana cria situações ilusórias e superstições.

Segundo Jennifer Whitson, uma das autoras do estudo, a crise financeira atual tem afetado os sentimentos de controle das pessoas, principalmente de corretores e investidores. “Nós percebemos essa reação sempre que acontece um grande evento e que este muda nosso sentido de estabilidade e de segurança”, disse.

Perda de controle

Diante do cenário de incertezas sobre os rumos dos mercados financeiros mundiais e da volatilidade das bolsas nos últimos pregões, é comum as pessoas se apoiarem em crenças, com o objetivo de aliviar a insegurança.

“Na tentativa e esperança de melhorar a sorte, imagino que traders do mercado tenham tirado a ‘camisa da sorte’ do armário e a estejam usando no trabalho”, exemplifica Jennifer Whitson.

Questão de experiência

Segundo Jennifer, um investidor mais experiente, que conheça realmente os riscos do mercado, pode se sentir mais no controle na situação. No entanto, esta sensação de controle pode deixá-lo também mais vulnerável.

Segundo a psicanálise, o ser humano vive de acordo com o princípio do prazer, sempre em busca de bem-estar e evitando sensações desagradáveis. Para a psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, representante no Brasil da Iarep (International Association for Research in Economic Psychology), uma das formas de fugir de frustrações e que vai ao encontro do estudo norte-americano é o chamado “efeito framing”, no qual a pessoa, diante de várias informações, separa apenas o que lhe dá prazer, que a conforte, descartando o que pode frustrar.

“O problema é que este sentimento pode levar as pessoas a interpretarem informações de forma incorreta”, completa a estudiosa norte-americana.

“Nas escolhas financeiras, para um bom negócio, a informação é essencial, mas é preciso saber analisá-la na íntegra”, diz Vera Rita.

Como agir?

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Em situações de incertezas como a atual, como agir? Jennifer Whitson dá a dica: “Pense nas coisas que ainda estão sob seu controle e, assim, reduza a sensação de não poder lidar com a situação. A partir daí, tente ser o mais racional possível, para entender os fatos e tomar as decisões corretas”, ensina.

“Quando as pessoas se sentem no controle de suas vidas, elas se mostram mais comprometidas e erram menos, apresentando uma performance melhor”, finaliza.