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SÃO PAULO – Diante da decisão do Banco Central de reduzir a taxa de juro básica da economia, a Selic, de 18,50% ao ano para 18,00% nesta última quarta-feira, muita gente pergunta o que acontece com os juros que afetam diretamente o consumidor. A resposta é que esta queda não necessariamente será repassada aos consumidores finais.
Desde o início de 2002, a redução é ainda mais expressiva, visto que a Selic caiu um ponto percentual, passando de 19% ao ano para os atuais 18% ao ano, mas e os juros cobrados ao consumidor como se comportaram neste período? Infelizmente para os endividados, o repasse destas reduções não foi tão significativo.
Juros ao consumidor subiram em 2002
Se a taxa básica caiu 1% em 2002, o mesmo certamente não aconteceu com os juros ao consumidor. De acordo com levantamento da Anefac (Associação Nacional de Executivos de Administração e Contabilidade) os juros médios cobrados nos financiamentos ao consumidor subiram, passando de 7,98% em dezembro para 8,07% em junho.
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A maioria dos financiamentos registrou aumento nos juros cobrados, como é o caso, por exemplo, dos juros cobrados nos financiamentos bancários, que incluem empréstimos pessoais e crédito direto ao consumidor (CDC). Nos empréstimos pessoais os juros passaram de 5,07% ao mês (81% ao ano) em dezembro para 5,32% ao mês (86% ao ano) em junho, enquanto nos CDCs os juros aumentaram de 4,01% ao mês (60% ao ano) para 4,17% ao mês (63% ao ano) em junho.
Tomando os empréstimos pessoais como exemplo, a margem, isto é, a diferença entre a taxa cobrada no empréstimo pessoal (81% ao ano) com a taxa básica (19% ao ano) era de 62% em dezembro de 2001. Desde então a margem aumentou seis pontos para 68% (ou 86%-18%) em junho. Desta forma, contrariando a tendência de queda dos juros básicos no período, os consumidores acabaram pagando ainda mais pelos financiamentos.
Historicamente situação é um pouco melhor
Se olharmos um horizonte mais longo de tempo, a situação do consumidor é um pouco melhor, simplesmente porque reduções da Selic foram acompanhadas por corte nos juros ao consumidor, ao contrário do que se viu em 2002. Contudo, a constatação a que chegamos analisando a evolução das taxas desde março de 1999 é de que este repasse foi apenas parcial. Para ilustrar esta afirmação tomamos como exemplo os juros médios cobrados nos empréstimos pessoais.
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Em março de 1999, por exemplo, a taxa de juros básica estava em 45% ao ano frente a uma taxa média cobrada no empréstimo pessoal de 7,09% ao mês, ou o equivalente a 127,5% ao ano. Neste sentido, a margem cobrada pelos bancos nos empréstimos pessoas era, na época, de 82,5% ao ano, o que equivale à diferença entre os juros cobrados nos empréstimos pessoais (127,5% ao ano) e a taxa básica (45% ao ano). Atualmente, a margem neste tipo de operação caiu para 68%.
Apesar da queda na margem cobrada pelos bancos nestas operações, de 14,5 pontos percentuais, o fato que chama atenção é que a taxa básica neste mesmo período caiu 27 pontos percentuais. Isto significa que os bancos repassaram pouco mais do que a metade da redução dos juros básicos ao consumidor final, o que pode ser verificado se compararmos a redução da margem cobrada com a redução da Selic.
Ciclo vicioso tem que ser quebrado
Se por um lado o aumento da inadimplência do setor justifica uma maior preocupação dos bancos, por outro a decisão de cobrar excessivamente de todos, prejudicando os bons pagadores é ineficiente, além de comprometer como um todo a capacidade de levantamento de financiamentos da maior parte da população.
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Enquanto não houver um controle efetivo do risco de crédito por parte das instituições financeiras, através de uma análise de perfil detalhada da pessoa que levanta o financiamento, a tendência é que situações como esta continuem, pois os bons pagadores vão continuar literalmente “pagando pelos maus pagadores”.
De certa forma a situação é cômoda para os bancos, que se escondem por trás do argumento da inadimplência para cobrar juros abusivos. Ao contrário do que a nossa herança histórica leva a crer, levantar financiamentos não é algo nocivo a saúde financeira de uma pessoa, já que muitas vezes pode contribuir para a abertura de um negócio, que por sua vez contribui para o crescimento da economia e da geração de emprego. Nocivo é pagar juros abusivos, e é nesta situação que nos encontramos.
Culpar o Banco Central pela política de juros altos em que vivemos é querer ver apenas parte do problema, pois, se não houver uma mudança significativa na política de concessão de crédito dos bancos, os juros vão continuar elevados tanto para o consumidor, seja ele uma empresa ou pessoa física, com efeitos negativos sobre o crescimento da economia, e principalmente sobre a saúde financeira das pessoas.
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Nos níveis atuais, até mesmo bons pagadores se tornam inadimplentes, de forma que quebrar este ciclo vicioso é imperativo e exige mais esforço do BC e vontade do setor financeiro.