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Caminhoneiros não se sentem representados por associação e dizem que greve ganha força

Grevistas na rodovia Presidente Dutra disseram que não deixarão a estrada até o preço dos combustíveis baixar na bomba

Greve dos caminhoneiros
(Divulgação)

SÃO PAULO - Caminhoneiros concentrados nesta terça-feira (29) no km 204 da rodovia Presidente Dutra, na altura do município de Seropédica, disseram que não se sentem representados por associações que negociaram o fim da greve com o governo federal, e que não deixarão a estrada até o preço dos combustíveis não baixar na bomba.

Eles afirmaram que querem ser recebidos pessoalmente pelo governo em Brasília, e que a mobilização continua a ganhar força por mensagens de WhatsApp.

Na segunda-feira, outro grupo de caminhoneiros, que está parado na Régis Bitencourt sentido Minas Gerais, disse que o protesto continuaria até quarta-feira, pelo menos. Um deles classificou como "ofensa" o corte de 46 centavos no preço do diesel, promessa do governo para tentar acabar com o movimento. 

"Os sindicatos só representam os patrões. O (presidente Michel) Temer não recebeu o bandido da JBS de noite? Por que não a gente? Não vamos sair daqui. Não saiu no Diário oficial a redução do combustível, não baixou na bomba. Temos 500 caminhões desse lado da Dutra e 500 do outro. Aqui temos famílias, crianças, mas somos tratados como criminosos. A pista e o acostamento estão liberados, e estamos numa área particular, cedida, então eles não podem multar ninguém", disse Marcos Santos, uma das lideranças do grupo da Dutra. A Polícia Rodoviária Federal informou que só são multados os veículos em vias e acostamentos.

Alguns caminhoneiros, entretanto, lamentam as perdas pelos dias parados. "Todo mundo quer voltar a trabalhar. O prejuízo é enorme. Se eu achasse que ficar uma semana baixaria mais o combustível, até ficava. Mas o governo não vai recuar mais", lamentou José Carvalho, dono de dois caminhões de transporte de ferro. Um está parado na Dutra, outro na Rio-Santos. Ele se reveza com um funcionário na vigília. Nesta terça, pediu escolta policial para voltar para a capital, com medo de ataques aos veículos - nesta madrugada, chegaram relatos de caminhões apedrejados.

Na Dutra há sete dias, o caminhoneiro Edmilson da Silva, de 47 anos, em atividade já 30 e atualmente transportando produtos para as Lojas Americanas, se disse "exausto". "Já mandamos nosso recado. Não aguento mais. Não estamos satisfeitos mas não conseguiremos mais nada. O governo achou que não teríamos fôlego para mais de dois ou três dias, e aqui estamos nós. Só que estamos perdendo muito dinheiro. Tem gente que recebe R$ 150 por dia e agora recebeu zero. É uma vida muito difícil, que agora o Brasil todo conhece".

Outras lideranças

No início da manhã desta segunda-feira, José da Fonseca Lopes, uma das principais lideranças do movimento dos caminhoneiros e presidente da Abcam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros) que considera o assunto "resolvido". Seu pronunciamento seguiu as 5 medidas anunciadas no domingo pelo presidente Michel Temer e publicadas em edição extra do Diário Oficial. 

"Eu acho que o assunto está definido. O caminhoneiro está antenado, ele também quer sair desse movimento agora, porque já faz sete ou oito dias", disse ele à Folha de São Paulo. "O caminhoneiro agora só tem que agradecer isso aí, no bom sentido, e continuar a vida dele", prosseguiu. 

A opinião da Abcam é relevante. Vale lembrar que Lopes foi o único líder que se recusou a assinar a primeira versão do acordo com o governo, apresentado na quinta-feira (24).

Outras lideranças também se pronunciaram. Em conversa com o G1, o presidente da União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam), José Araújo Silva, o China, disse que muitos caminhoneiros não sabem o que está acontecendo, e mantêm a paralisação por "falta de comunicação". 

Especificamente em São Paulo, a Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas em Geral do Estado de São Paulo (Fetrabens) se reunirá com o governador de São Paulo às 17h para ver se "antecipa o término da greve". A Federação já concordou com os termos propostos pelo governo, mas os grevistas se recusam a retomar a rotina normal. 

A CNT (Confederação Nacional do Transporte) considera que "os caminhoneiros foram muito bem atendidos". Em nota, disse que "o bloqueio de caminhões de propriedade das transportadoras é ilegal e pede força policial para que os veículos das empresas voltem a circular normalmente". 
 

Já a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) não trata a paralisação como encerrada. 

Medidas de Temer

Confira as 5 medidas anunciadas pelo presidente: 

1) Preço do diesel terá redução de R$ 0,46/litro, o que corresponde à soma do PIS/Cofins com a Cide. "Quero que toda a população e os caminhoneiros saibam que para chegar neste valor, o governo está assumindo sacrifícios no orçamento e naturalmente honrará esse custo sem nenhum prejuízo para a Petrobras", disse Temer.

2) "O preço do óleo diesel será válido pelos próximos 60 dias. Até confesso, a primeira hipótese era 15 dias, depois 30 dias, e agora 60 dias. Depois disso, os reajustes só serão mensais", disse Temer.

3) Isenção da cobrança do eixo suspenso dos pedágios nas rodovias municipais, estaduais e federais.

4) "Assinei também uma Medida Provisória para garantir aos caminhoneiros autônomos 30% dos fretes da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento", disse Temer.

5) Temer também assinou outra MP para estabelecer a tabela mínima de frete, conforme prevista no PL 121 que está sob análise no Senado Federal. "Essa decisão foi após conversar com o senador Eunício de Oliveira", complementa o presidente.

Após o pronunciamento, Temer ressaltou que as medidas tomadas anteriormente seguem valendo, destacando entre elas o acordo de que não haverá reoneração da folha de pagamento no setor de transporte rodoviário de carga.

"Atendemos as demandas dos caminhoneiros mas principalmente de cada brasileiro que sofreu nesses últimos dias", disse Temer. Ele citou dados da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), que indicam que milhões de animais vão morrer se não forem alimentados essa semana, "e fui informado que eles não tem nem como enterrar esses animais caso eles venham a perecer". 

Com Agência Estado

 

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