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"A Petrobras não é uma ONG": fundador da Suno explica como governo criou sua própria crise dos combustíveis

Tiago Reis, fundador da Suno Research, enviou análise aos assinantes de sua newsletter gratuita; confira texto na íntegra 

Petrobras
(Alf Ribeiro / Shutterstock.com)

SÃO PAULO – A greve dos caminhoneiros de todo o Brasil, que nesta segunda-feira (28) está em seu oitavo dia, é símbolo da crise de combustíveis que o Brasil enfrenta. E, ao contrário do que se ouve durante a paralisação, ela pode ser explicada a partir de dois problemas: a carga tributária elevada do brasil e a má gestão pública. É o que analisa o fundador e CEO da Suno Research, Tiago Reis, em artigo enviado aos assinantes de sua newsletter.

Ele defende que a culpa da crise de combustíveis não é da Petrobras, mas sim de problemas no modelo de tributação brasileiro e também de uma “combinação de aumento nos preços da cotação do petróleo e do dólar”.

“A Petrobras não está utilizando de seu monopólio para aumentar suas margens frente ao consumidor, mas sim praticando uma política de paridade de preços, ou seja, vendendo seu produto pelo que ele vale”, escreveu Reis, que ainda ressalta que a margem de realização da Petrobras está alinhada com a praticada ao redor do mundo.

Considerando ainda que a Petrobras é uma empresa de capital aberto, Reis analisa que, neste contexto, o reajuste nos preços de combustíveis é “o mínimo que se espera dela” – afinal, “a Petrobras não é uma ONG”, escreve.

Trazendo gráficos, dados e um panorama dos últimos anos, Tiago Reis mostra como a crise dos combustíveis foi criada pelo próprio governo brasileiro. Confira, a seguir, a íntegra da análise:

O que penso sobre a greve dos caminhoneiros?
 
Na última semana o Brasil virou de cabeça para baixo com a greve dos caminhoneiros.
 
Na internet tenho visto muita desinformação por parte das pessoas e resolvi escrever esse artigo não para expressar minha opinião a favor ou contra a greve, mas sim para mostrar alguns fatos que derivam da teoria econômica e finanças que deveriam ser considerados por todos antes de emitir qualquer posicionamento a respeito do assunto.
 
Sobre o preço do combustível
 
Nos últimos meses a cotação do petróleo sofreu uma alta expressiva. Em julho de 2017 a cotação do petróleo no mercado internacional estava por volta de 45 de dólares o barril e atualmente se encontra próximo de 75 dólares, uma alta de mais de 50%. Na imagem abaixo podemos ver claramente essa trajetória de alta:
O petróleo é uma commodity que tem seu preço derivado de cotações internacionais. A Petrobras não está utilizando do seu monopólio para aumentar suas margens frente ao consumidor, mas sim praticando uma política de paridade de preços, ou seja, vendendo seu produto pelo o que ele vale.
 
A Petrobrás é uma empresa de capital aberto que possui acionistas e isso é o mínimo que se espera dela. A Petrobras não é uma ONG. Durante o governo Dilma nós vimos o quanto pode ser prejudicial ignorar a dinâmica de mercado e represar preços artificialmente.
 
Se o petróleo estivesse com a cotação baixa, sendo negociado a, digamos, U$40 o barril, você acha que seria justo com a população que Petrobras vendesse seu produto a um valor superior a esse para ser lucrativa? Não. Mas quando a cotação aumenta é justo que a empresa não “se beneficie”?
 
Se o governo acredita que pelo fato de o petróleo ser um insumo base para toda a economia ele deveria ter seu preço controlado a solução seria simples. A Petrobras não poderia ser uma empresa de capital aberto e sim uma instituição de governo, como o Banco Central. Essa é uma discussão muito ampla e que não vamos nos prolongar.
 
Imagine que você fosse um produtor de soja, que também é uma commodity que tem seu preço derivado de um mercado global. Você aceitaria vender seu produto por menos do que está valendo? Você aceitaria vender seu produto com base nos seus custos de produção e não com base no que o mercado está pagando? E quando a cotação estivesse baixa, alguém pagaria mais do que está valendo para que você não opere no prejuízo?
 
O aumento na cotação do petróleo não está afetando exclusivamente o Brasil. Nos últimos dias diversas notícias publicadas em veículos de comunicação internacionais nos mostram que na Índia, Inglaterra, França, entre outros, o mesmo problema está ocorrendo.
Agora, existe um porém. O preço do combustível tem duas componentes. O preço que a Petrobras cobra e os impostos. A parte majoritária do preço dos combustíveis advém da cobrança de tributos. Na imagem abaixo podemos ver como o preço do combustível é construído. Somente CIDE, PIS/PASEP, COFINS e ICMS representam 45% do preço final praticado para o consumidor. 
Já nessa outra imagem podemos ver a comparação da composição dos preços de diversos países e dois pontos se destacam nessa comparação:
  1. A margem de realização na refinaria do Brasil está em linha com a praticada ao redor do mundo, ou seja, a Petrobras não está utilizando do seu monopólio para ter margens superiores em cima do consumidor.
  2. Reino Unido, Alemanha e Itália possuem uma carga tributária superior à nossa, enquanto os EUA se destacam com tributos muito inferiores. Por isso que, quando comparamos os preços praticados nos EUA e no Brasil vemos uma grande diferença para o consumidor final.
A questão dos tributos depende muito de uma política de governo bem definida. Todos concordamos que a carga tributária no Brasil é elevada, resultado de um estado mórbido e mal administrado, que mesmo cobrando impostos elevados não consegue gerar um superávit.
 
Para concluir, parte do problema é a carga tributária elevada do Brasil e a má gestão pública, e a outra parte advém de um fator não controlável, que é o preço do petróleo. A primeira parte do problema só iremos resolver elegendo políticos comprometidos com a administração pública, e a segunda não temos controle.
 
Mas uma coisa é certa, a culpa do aumento do preço dos combustíveis não é da Petrobras, e sim de uma combinação de aumento nos preços da cotação do petróleo e do dólar.
  
Sobre o preço do frete
 
Uma característica essencial em uma empresa que sempre procuramos antes de investir é a existência de uma vantagem competitiva. Essa vantagem competitiva pode ser uma marca forte, escala, um produto único, dentre outras. É ela que permite que a empresa realize preços superiores aos seus concorrentes e tenha um retorno superior sobre o seu capital.
 
Se um negócio não possui uma vantagem competitiva ele vai sofrer. Sem uma vantagem competitiva é impossível que um negócio tenha um retorno superior ao seu custo de capital.
 
Isso decorre do fato de que caso um negócio sem vantagem competitiva tenha lucros elevados ele vai chamar a atenção de outras pessoas, que também irão entrar no setor e aceitarão trabalhar com margens inferiores para fornecer o mesmo serviço e ter uma participação nesses lucros.
 
Oferta e demanda, simples assim.
 
No caso do setor de transporte, essa vantagem é quase nula. Alguém que precisa transportar seu produto vai procurar o fornecedor que oferece o melhor preço possível pelo serviço. Logo, quanto maior o número de fornecedores, menor o preço que eles irão aceitar para atender a demanda existente pelo serviço.
 
Em 2009 o governo brasileiro lançou um programa de subsídio para a aquisição de caminhões, financiando a juros extremamente subsidiados quem tivesse interesse em adquiri-los.
 
É importante lembrar que sempre que o governo subsidia um determinado setor, somos nós, os contribuintes, que estamos pagando o preço.
 
Diversas empresas transportadoras e motoristas autônomos aproveitaram desse programa para comprar mais caminhões, o que aumentou significativamente a oferta do serviço de transporte no mercado.
 
Com a mesma demanda e uma oferta superior, o que ocorreu? Os preços do frete caíram para patamares que quase não cobrem os custos do transporte.
 
Se eu decido abrir um negócio que não dá certo a culpa é minha ou do mercado? É justo que eu cobre da sociedade que ela ignore a dinâmica de formação de preços a partir da oferta e demanda e pague pelo meu serviço um preço adequado para que eu obtenha um retorno que considero justo?
 
No longo prazo, a própria dinâmica de oferta e demanda tende a levar os preços do frete para patamares mais adequados, visto que se no momento atual não é vantajoso participar desse negócio a tendência é que alguns desistam do negócio e a oferta diminua, levando os preços a patamares mais adequados. Porém, é insanidade esperar que esse retorno seja superior ao custo de capital do negócio.
 
A Grécia, que é um exemplo de política econômica desastrosa que levou o país ao caos, em 2010 teve diversos protestos de caminhoneiros tentando defender seu monopólio.
 
Desde 1970 não eram emitidas licenças para motoristas interessados em participar do mercado, levando a criação de um mercado secundário de licenças para motoristas de caminhão, com uma licença custando mais de 300 mil euros. Os custos de transporte para as empresas que atuavam no país eram muitas vezes superiores ao custo de produção, tornando inviável a competição das empresas locais no mercado mundial.
 
Acredito que essa seja um exemplo que não queremos seguir.
 
Sempre que o governo tenta intervir na dinâmica do livre mercado o resultado é desastroso. A dinâmica do capitalismo é assim, muitas vezes cruel, mas até hoje não inventamos nada melhor.

 

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