OIT: crise evidencia limite de crescimento baseado no endividamento das famílias

Sem evolução dos salários, famílias se endividaram para poder enfrentar investimentos imobiliários e o consumo

SÃO PAULO – Pesquisa realizada pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) revelou que a participação dos salários na renda nacional diminuiu em 51 dos 73 países analisados, desde 1990. Sem evolução nos salários, as famílias acabaram por se endividar cada vez mais para poder enfrentar os investimentos imobiliários e o consumo nos países com inovação financeira sem regulamentação. No entanto, a crise pôs em evidência os limites deste modelo de crescimento.

O relatório examina o salário e o crescimento em mais de 70 países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento e foi divulgado nesta quinta-feira (16).

Agrava as desigualdades

Os dados ainda revelaram que a atual crise financeira mundial deve agravar o processo de aumento da desigualdade de renda que vinha sendo observado desde os anos 1990.

Apesar do forte crescimento da economia ter gerado um grande número de empregos, a desigualdade de renda aumentou de maneira dramática. “Isso reflete o impacto da globalização financeira e a escassa habilidade das políticas domésticas para melhorar os rendimentos da classe média e dos grupos de baixa renda. A atual crise financeira piorará a situação a menos que se adotem reformas estruturais de longo prazo”, afirmou o diretor do Instituto de Estudos Laborais da OIT, Raymond Torres.

O “Relatório sobre o trabalho no mundo 2008: desigualdade de renda na era das finanças globais”, ressalta ainda que grande parte dos custos da crise financeira e econômica recairão sobre centenas de milhões de pessoas que não foram beneficiadas com o crescimento dos últimos anos.

“A atual desaceleração da economia mundial afeta de maneira desproporcional os grupos de baixa renda”, diz o relatório. “Isto ocorre depois de uma longa fase de expansão na qual a desigualdade de renda já estava aumentando na maioria dos países”.

Dados sobre a renda

De acordo com os dados, o emprego mundial cresceu 30% entre o início dos anos 1990 e 2007, mas também ampliou-se a disparidade de renda entre famílias de menor e maior poder aquisitivo durante o período. Entre 1990 e 2005, aproximadamente dois terços dos países analisados tiveram um aumento da desigualdade de renda.

Durante o mesmo período, a disparidade entre os 10% de assalariados com renda mais alta e os 10% com a renda mais baixa aumentou em 70% nos países para os quais existe informação disponível.

A expectativa é de que a desigualdade de renda continuará aumentando, problema que pode ser associado com taxas de delinquência mais altas, menor expectativa de vida e, no caso dos países pobres, má nutrição e um aumento na probabilidade de que as crianças se vejam obrigadas a abandonar a escola para trabalhar.

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