O que é preciso para trabalhar legalmente nos EUA? Está mais difícil? Veja análise

O cenário atual combina fatores políticos e estruturais, com um sistema que continua operando em alto volume, mas com menor margem para perfis considerados "medianos"

Maria Luiza Dourado

Imagem de passaporte americano com a bandeira americana ao fundo (Shutterstock)
Imagem de passaporte americano com a bandeira americana ao fundo (Shutterstock)

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O interesse de estrangeiros em viver e trabalhar nos Estados Unidos é historicamente alto, mas o caminho legal ficou mais restritivo até mesmo para os profissionais mais qualificados – reduzindo o número de candidatos que realmente conseguem avançar na jornada pelo sonhado Green Card.

Essa é a análise que o advogado Otávio Haverroth, CEO da YOUSA Law Firm, licenciado pela California Bar Association e integrante da AILA (American Inmigration Lawyers Association), compartilhou com a reportagem do InfoMoney.

“Hoje, a gente já não leva adiante casos que, há três anos, seriam aprovados”, conta Haverroth.

Dados da YOUSA Law Firm indicam que apenas cerca de 40% dos candidatos que chegam até o escritório têm elegibilidade mínima para iniciar um processo. E, entre esses, aproximadamente metade é descartada por não apresentar um perfil competitivo o suficiente – ou seja, apenas 20% dos interessados na obtenção de vistos de trabalho que chegam ao YOUSA conseguem dar sequência no processo efetivamente.

Na prática, o cenário atual combina fatores políticos e estruturais, com um sistema que continua operando em alto volume, mas com menor margem para perfis considerados medianos.

“O aumento da exigência também está ligado ao histórico de fraudes migratórias, o que levou a uma análise mais criteriosa dos pedidos. Hoje, não basta cumprir requisitos formais: é preciso apresentar uma trajetória coerente, bem documentada e alinhada com o plano proposto”, explica o especialista.

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O critério real: utilidade para a economia americana

Mais do que diplomas ou tempo de experiência, o que está em jogo é a utilidade do profissional para os Estados Unidos. O especialista explica que o raciocínio das autoridades americanas é direto: o candidato precisa demonstrar que pode contribuir para áreas onde há demanda ou interesse estratégico.

“Se você consegue preencher uma lacuna da economia americana, passa a ser visto como uma oportunidade”, explica Haverroth.

Setores como tecnologia, inteligência artificial, saúde e engenharia aparecem entre os mais demandados, especialmente em áreas onde há escassez de profissionais.

Além disso, embora existam categorias voltadas a profissionais de destaque internacional (detalhamento abaixo), a maior parte dos processos envolve trajetórias mais tradicionais – desde que consistentes.

Progressão de carreira, experiência relevante e coerência entre formação e atuação são fatores decisivos. Não basta ter um diploma: é preciso apresentar uma trajetória sólida e bem construída.

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Ter um plano consistente é requisito

Outro ponto central é a necessidade de apresentar um plano consistente sobre o que o profissional pretende fazer nos Estados Unidos. Segundo Haverroth, esse plano pode ser estruturado como:

• Plano profissional; ou
• Plano de negócios.

A escolha precisa ser coerente com a trajetória – caso contrário, o processo pode ser enfraquecido.

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Análise objetiva x subjetiva

Nem todos os pedidos são avaliados da mesma forma – e isso impacta diretamente as chances de aprovação. Há categorias com análise objetiva, baseadas em critérios mais concretos. Se o candidato comprova os requisitos, a tendência é aprovação.

Nesses casos, as taxas chegam a mais de 90% na YOUSA. “Esse e o caso do EB-1A, o visto de ‘habilidade extraordinária’ Se o candidato cumpre os requisitos, ele é aprovado”.

Já categorias como o EB-2 NIW envolvem análise subjetiva: o candidato precisa convencer o oficial de imigração de que sua atuação é de interesse nacional. Aqui, as taxas caem para cerca de 60% a 70% das aplicações que o escritório toca.

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Veja abaixo os principais tipos de visto e caminhos para trabalhar e/ou obter residência nos EUA:

EB-2 NIW (NATIONAL INTEREST WAIVER)
Categoria de residência permanente (Green Card) baseada em mérito profissional.

Permite solicitar o Green Card sem oferta de emprego e sem patrocinador americano, desde que o profissional demonstre que sua atuação é de interesse nacional para os EUA.

Geralmente usado por profissionais com grau avançado (mestrado, doutorado) ou habilidade excepcional, mas o foco está menos no título acadêmico e mais na relevância e impacto da trajetória.

O USCIS avalia três pontos:
*Se a área de atuação tem mérito substancial e relevância nacional
*Se o profissional está bem posicionado para contribuir nessa área
*Se é benéfico para os EUA dispensar a exigência de oferta de emprego.

EB-1A (HABILIDADE EXTRAORDINÁRIA)
Também é uma categoria de Green Card, voltada a pessoas com habilidade extraordinária em ciências, artes, educação, negócios ou esportes.

O candidato precisa provar que está entre o pequeno grupo no topo da área, com evidências como: prêmios, publicações, participação como avaliador, contribuições originais relevantes, remuneração acima da média, entre outros.

Diferente do EB-2 NIW, o foco aqui é excelência individual absoluta, não necessariamente “interesse nacional”.

Não exige diploma específico – o que o torna relevante também para artistas, atletas e executivos com forte histórico de resultados.

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O-1 (HABILIDADE EXTRAORDINÁRIA – TEMPORÁRIO)
Visto de não imigrante (temporário) para pessoas com habilidade extraordinária nas mesmas áreas do EB-1A (ciência, artes, negócios, esporte, entretenimento).

É muito usado como estratégia de transição: permite que o profissional atue legalmente nos EUA enquanto estrutura um pedido de Green Card (por exemplo, EB-1A ou EB-2 NIW).

Embora compartilhe o conceito de “habilidade extraordinária”, o O-1 não concede residência permanente – é um visto de permanência temporária, renovável.

L-1 (TRANSFERÊNCIA INTRAEMPRESARIAL)
Visto de não imigrante para executivos, gerentes e profissionais com conhecimento especializado que são transferidos de uma empresa no exterior para uma filial, subsidiária ou afiliada nos EUA.

*L-1A: para executivos e gerentes – pode abrir caminho para o EB-1C, um Green Card para executivos multinacionais.

*L-1B: para profissionais com conhecimento especializado. É indicado para empresários e executivos que já têm estrutura corporativa própria no Brasil (ou em outro país) e querem expandir para os EUA. Exige vínculo jurídico claro entre as empresas; não é um visto simplesmente para “quem quer abrir um negócio” sem estrutura prévia.

E-2 (INVESTIDOR)
Visto de investidor por tratado, também de não imigrante.

É concedido a cidadãos de países que têm tratado E-2 com os EUA e que investem capital substancial em um negócio americano, com participação ativa na gestão.
O Brasil não tem tratado E-2, então brasileiros só acessam essa categoria se tiverem segunda cidadania de país com tratado (como Itália, Portugal, Espanha etc.).

O negócio precisa ser real, operacional e capaz de gerar mais do que o mero sustento do investidor.

É um visto temporário e renovável, não é Green Card, mas pode ser usado como plataforma de longo prazo de atuação nos EUA.

Quem aprova o seu Green Card? E quem emite?

Um dos temas mais relevantes neste cenário é que o processo de imigração nos Estados Unidos envolve dois órgãos diferentes, com funções distintas.

A análise de elegibilidade é sempre feita pelo USCIS, que integra o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (Department of Homeland Security) e é responsável por decidir se o candidato tem direito ao Green Card.

Mas a etapa final depende de onde o solicitante está:

• Se estiver nos Estados Unidos, o próprio USCIS conclui o processo;
• Se estiver fora, a entrevista e a emissão passam pelos consulados americanos.

Os consulados fazem parte do Departamento de Estado dos Estados Unidos (United States Department of State), que tem maior influência direta do Poder Executivo. Na prática, isso cria uma diferença importante:

• Quem está dentro dos EUA – com um visto de estudante, por exemplo – tende a ter um processo mais estável;
• Quem está fora pode ser impactado por decisões administrativas, como suspensão de vistos ou mudanças operacionais.

“A elegibilidade é sempre analisada pelo USCIS. O que muda é quem vai emitir o Green Card“, resume Haverroth.

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Política migratória

Dados oficiais mais recentes ainda refletem majoritariamente o período do governo de Joe Biden, quando os Estados Unidos mantiveram um alto volume de concessão de Green Cards – cerca de 1 milhão por ano, dentro dos limites legais. No entanto, ainda não há estatísticas oficiais consolidadas suficientes – divulgadas pelo Departamento de Segurança ou Departamento de Estado dos EUA – para medir com precisão o impacto do atual governo de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025.

Mesmo assim, os relatos são de “mudança”. A experiência do primeiro mandato de Trump já indicava uma linha mais restritiva na imigração, com aumento de exigências e maior rigor na análise dos processos.

Além disso, como os consulados estão subordinados ao Departamento de Estado – mais diretamente influenciado pelo Executivo –, decisões políticas afetam o ritmo e a condução dos pedidos feitos fora dos Estados Unidos.

Uma decisão recente do Departamento de Estado americano reforça como fatores administrativos e políticos podem impactar diretamente o processo migratório. Desde janeiro de 2026, o governo americano mantém uma suspensão na emissão de vistos de imigrante, incluindo Green Cards, para cidadãos de diversos países, entre eles o Brasil.

A medida continua em vigor e não tem prazo oficial para ser encerrada, sendo descrita pelas autoridades como “válida até nova revisão”. Na prática, essa limitação afeta principalmente candidatos que estão fora dos Estados Unidos e dependem da etapa consular para concluir o processo.

Oficialmente a medida não representa uma suspensão generalizada de todos os vistos e categorias temporárias, como turismo e negócios, continuam sendo emitidas normalmente.

Maria Luiza Dourado

Repórter de Finanças do InfoMoney. É formada pela Cásper Líbero e possui especialização em Economia pela Fipe - Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas.