Minha Casa Minha Vida responde por metade das vendas e sustenta mercado imobiliário

Mesmo com juros altos, setor mantém vendas estáveis por causa do bom momento para emprego e renda, mas indústria do setor alerta para riscos ao FGTS e custos maiores

Anna França

Minha Casa, Minha Vida (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Minha Casa, Minha Vida (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Publicidade

O Programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) continua sustentando o mercado imobiliário brasileiro apesar da alta taxa Selic em 14,5%, respondendo por praticamente metade das vendas residenciais no país. Foi o que mostrou o levantamento divulgado nesta segunda-feira (25) pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), com base em dados de 221 cidades brasileiras.

Sozinho, o programa foi responsável por 49% de todos os imóveis vendidos no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 54.510 unidades comercializadas .

Os números só confirmam que o principal programa habitacional do país deixou de ser apenas uma política social e se consolidou como motor estrutural da construção civil. “O Minha Casa, Minha Vida hoje não é apenas um programa popular. Ele se transformou também em um programa para a classe média”, afirmou o vice-presidente da área da Indústria Imobiliária da CBIC, Ely Wertheim, durante coletiva.

Ferramenta do InfoMoney

Baixe agora (e de graça)!

Fonte: CBIC

Mercado resiste aos juros

Apesar do ambiente de crédito ainda apertado, as vendas seguem firmes. Foram 110.722 unidades vendidas no primeiro trimestre, alta de 4,1% em relação ao mesmo período de 2025, embora com leve recuo de 2,6% frente ao trimestre anterior, movimento considerado sazonal pelo setor.

“O pequeno recuo nas vendas não preocupa. No contexto atual, é praticamente estabilidade”, afirmou Celso Petrucci, economista-chefe do Secovi-SP e conselheiro da CBIC .

Os lançamentos, por outro lado, perderam ritmo. Entre janeiro e março, foram lançadas 97.802 unidades, queda de 4,9% na comparação anual e retração mais intensa de 32,1% frente ao quarto trimestre de 2025, tradicionalmente o período mais aquecido do calendário imobiliário. Ainda assim, o setor vê o movimento com naturalidade.

Continua depois da publicidade

Estoque segue saudável

A oferta final disponível chegou a 350.891 unidades, alta de 8,2% em 12 meses, mas recuo de 3,5% em relação ao trimestre anterior. Segundo a CBIC, se nenhum novo imóvel fosse lançado a partir de agora, o estoque atual seria consumido em cerca de 10 meses, um nível considerado confortável. “Até 20 ou 24 meses é absolutamente normal para o setor. Portanto, não há excesso de estoque”, afirmou Wertheim .

Dependência crescente do MCMV

O peso do programa habitacional chama atenção. Além de responder por 49% das vendas, o Minha Casa Minha Vida representou cerca de 50% dos lançamentos do trimestre. Mas, segundo a própria CBIC, quando se olha além dos grandes centros monitorados, essa dependência pode ser ainda maior.

Petrucci afirmou que, no conjunto do país, o programa pode representar entre 65% e 70% do mercado imobiliário residencial nacional. A participação varia fortemente por região:

Segundo o setor, diferenças urbanísticas e regras municipais ajudam a explicar a disparidade.

Brasileiro quer comprar imóvel

Mesmo com juros altos, a demanda segue viva. Pesquisa da Brain Inteligência Estratégica, apresentada durante a coletiva, mostra que 49% dos brasileiros pretendem comprar imóvel nos próximos 24 meses, acima dos 44% registrados no primeiro trimestre de 2025 .

Entre os principais motivos:

Continua depois da publicidade

A casa de rua segue como o tipo preferido (47%), seguida por apartamentos (35%).

Segundo o setor, a força do mercado se explica pela combinação entre emprego aquecido, renda média maior e expectativa de queda futura dos juros.

Leia Mais: Casa própria em tempos de juro alto: comprar agora ou esperar?

Continua depois da publicidade

Ameaças no radar

Apesar do desempenho positivo, executivos da construção alertaram para riscos que podem pressionar custos e desacelerar o mercado.

Entre as preocupações:

Segundo a CBIC, mudanças trabalhistas sem compensação de produtividade podem elevar os custos da construção em até 10%, com impacto maior sobre habitação popular. Outro ponto sensível é o FGTS, principal fonte para formação de fundos para aquisição de casa própria. “Os ataques ao FGTS são bastante nocivos e isso preocupa o setor de forma geral”, alertou Petrucci .

Continua depois da publicidade

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro