Metade dos paulistas compram via app e comércio digital se consolida em São Paulo

Pesquisa de hábitos digitais do Seade indica, porém, que as desigualdades sociais devem limitar o avanço dos aplicativos fora dos grandes centros

Anna França

(Foto: Shutterstock)
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Metade dos paulistas já utiliza aplicativos para comprar produtos ou contratar serviços e oito em cada dez consumidores que adquiriram mercadorias ou serviços pelos apps utilizaram o celular. Os dados, que fazem parte da Pesquisa Seade de Hábitos de Consumo por Aplicativos 2023-2025, só confirmam que a economia digital segue a passos largos no Estado de São Paulo.

Por outro lado, o levantamento revela também um pouco do retrato das desigualdades socioeconômicas e territoriais do consumo por meio do e-commerce.

O estudo, que mostrou uma estabilidade no indicador ao longo dos três anos analisados, indica que a adesão é desigual. A penetração dos aplicativos é mais alta na capital (53%) do que no interior (47%), e ainda mais expressiva entre jovens, pessoas com ensino superior e moradores de famílias com renda acima de 10 salários-mínimos.

Entre os mais jovens (18 a 29 anos), 65% usam apps para consumo. Entre os mais pobres, apenas 22%. Segundo a Seade, esse padrão só reforça a exclusão digital como uma barreira ao pleno desenvolvimento do comércio eletrônico em todas as camadas sociais.

A diferença também aparece na distribuição regional. As maiores taxas de adesão foram registradas na Região Metropolitana de São Paulo (54%), no Vale do Paraíba e Litoral Norte (53%) e na Baixada Santista (52%). Já as regiões de Piracicaba (45%) e Sorocaba (47%) registraram índices mais baixos.

O tamanho dos municípios parece ser um fator determinante: nas cidades com mais de 500 mil habitantes, 52% usam aplicativos, ante 38% nas com até 20 mil habitantes.

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Comércio na palma da mão

A pesquisa mostra que o uso de aplicativos para consumo é cada vez mais rotineiro: 28% dos usuários realizam compras diariamente e outros 38% pelo menos uma vez por semana. Entre os mais jovens, 74% consomem com essa frequência, revelando que esse modelo já se enraizou como um hábito cotidiano nessa faixa etária.

Neste cenário, o smartphone é o principal dispositivo de acesso: 80% das compras ou contratações por aplicativos foram feitas pelo celular, índice que se manteve estável no triênio. O protagonismo do celular é explicado não só por seu uso massivo – 87% dos paulistas acessam a internet por ele –, mas também porque os aplicativos são pensados para ambientes móveis, com interfaces mais simples e intuitivas.

Pix ganha espaço

O cartão de crédito permanece como o principal meio de pagamento (62%), mas o Pix tem ganhado força: passou de 19% para 27% das transações entre 2023 e 2025. Essa tendência é mais evidente entre os consumidores de menor renda e escolaridade.

Entre os mais pobres, o Pix já representa 36% das transações, superando o cartão de crédito como principal meio de pagamento. A popularização do Pix revela uma mudança no comportamento financeiro digital, principalmente nos segmentos antes menos bancarizados.

Diferenças entre o consumidor jovem e o idoso

O tipo de produto adquirido também varia conforme o perfil. Comida pronta (lanches e refeições) lidera a lista da última compra feita por 37% dos usuários de aplicativos, sobretudo entre os mais jovens (54%) e os mais ricos (45%). O transporte, com 13%, aparece em segundo lugar.

Já entre os consumidores com 60 anos ou mais, 56% indicaram que compraram outros itens, como medicamentos, roupas ou cosméticos.

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Essas preferências sugerem que os aplicativos ainda são mais associados à conveniência e rapidez entre os jovens, enquanto os mais velhos os utilizam em situações mais pontuais e práticas, como farmácias ou compras planejadas.

A chegada massiva dos marketplaces também contribui para essa diversificação, inclusive entre consumidores de menor renda, que encontram nesses ambientes produtos populares e de menor valor agregado.

Adesão tímida a serviços

Apesar do avanço das plataformas digitais, o uso de aplicativos para contratar serviços domésticos ou cuidados pessoais ainda é tímido. Apenas 7% dos entrevistados contrataram serviços de limpeza ou manutenção da casa por aplicativo, e somente 3% utilizaram a tecnologia para cuidados de pessoas.

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Os dados sugerem que, ao contrário da alimentação e transporte, essas atividades ainda não foram absorvidas pelo cotidiano digital da maioria dos consumidores, possivelmente devido ao custo ou à informalidade do setor.

Perspectivas

A pesquisa da Fundação Seade mostra que o consumo por aplicativos está consolidado no Estado de São Paulo, mas a inclusão digital ainda é um desafio estrutural. Renda, escolaridade, faixa etária e local de residência continuam sendo fatores determinantes para o acesso e uso de tecnologias digitais no consumo cotidiano.

Se por um lado há um mercado robusto e crescente, por outro, a expansão do e-commerce via aplicativos esbarra em desigualdades socioeconômicas históricas, limitando o alcance de seus benefícios, segundo a Seade. Com o avanço da digitalização financeira e comercial no Brasil, o desafio agora é garantir que mais pessoas possam participar plenamente dessa nova economia.

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro