Mesmo com altas taxas, consumidor segue tomando crédito: como explicar?

Na opinião de Altamir Lopes, os consumidores mantêm o hábito de não observar as taxas, e sim se a prestação "cabe no bolso"

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SÃO PAULO – O aumento da taxa básica de juros (Selic), usada pelo Banco Central para conter a inflação, ainda não surtiu efeito no volume de crédito concedido no país, mesmo com os juros mais altos para as pessoas físicas.

De acordo com a Nota de Política Monetária e Operações de Crédito, divulgada na terça-feira (29) pelo Banco Central, em junho a taxa de juros média subiu 0,4 ponto percentual, chegando a 38%. Para pessoas físicas, a taxa subiu para 49,10% ao ano – a mais alta desde abril de 2007 (49,90%). No caso do cheque especial, uma das modalidades mais caras, os juros chegaram a 159,10% ao ano.

Na opinião do chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, os consumidores ainda mantêm o hábito de não observar as taxas de juros, e sim se a prestação “cabe no bolso”.

Mas por que isso acontece?

Racionalidade limitada

Segundo estudo do economista Domingos Rodrigues Pandeló Júnior, professor do Ibmec São Paulo, com os prazos cada vez mais alongados na contratação de um empréstimo, as pessoas, mesmo com os juros altos, não consideram as taxas na hora da compra, ficando atentas apenas ao valor das prestações, mais baixo por conta do maior tempo para o pagamento.

“Quando o assunto é a tomada de crédito, os indivíduos têm demonstrado uma grande falta de racionalidade econômica”, concluiu o economista.

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Apesar de estudos concluírem que, na tomada de decisões econômicas, a emoção fala mais alto que a razão, um conhecimento um pouco maior de operações matemáticas poderia ajudar o consumidor a manter seu planejamento financeiro mais alinhado.

De acordo com o professor de matemática do Colégio Módulo, Antonio Carlos Lessa, mesmo que não seja de forma aprofundada, é necessário identificar fatores importantes dentro de uma operação financeira, como juros e prazos, e suas diferentes formas de apresentação.

“Mas, para que isso ocorra, é necessário um conhecimento prévio dos sistemas financeiros que regem nossa sociedade”, explicou.

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Efeito no bolso

De acordo com os últimos dados do BC, a taxa de juros do cheque especial passou de 8,19% a.m para 8,26% a.m. No crédito pessoal, a taxa foi de 3,34% a.m. para 3,52% mensais, enquanto para a aquisição de veículos a taxa mensal subiu de 2,25% para 2,28%.

Na tabela abaixo, é possível analisar o impacto das taxas de juros em cada modalidade de crédito, em determinados exemplos selecionados:

























Modalidade Valor contratado Período para
pagamento
Gasto final
(juro antigo)
Gasto final
(novo juro)
Cheque especial R$ 1,5 mil um mês R$ 1.622,85 R$ 1.623,90
Crédito pessoal R$ 2 mil dez meses R$ 2.385,47 R$ 2.407,25
Compra de carro R$ 25 mil 60 meses R$ 45.802,99 R$ 46.126,29

Compilação: InfoMoney

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Princípio do prazer

Outra explicação para esse comportamento poderia estar na psicanálise. De acordo com a psicanalista e representante no Brasil da Iarep (International Association for Research in Economic Psychology), Vera Rita de Mello Ferreira, as pessoas constumam seguir o que Freud costumava chamar de “princípio do prazer”, ou seja, vale mais o prazer imediato de uma aquisição do que o planejamento para uma compra futura. E isso acontece, segundo ela, com um único objetivo: driblar o sentimento de frustração e proporcionar satisfação momentânea.

Segundo a especialista, o grande desafio do ser humano é passar a usar mais a razão do que a emoção e passar a seguir o que o pai da psicanálise chamava de “princípio da realidade”, caracterizado pelo adiamento da gratificação, ou seja, o planejamento e ponderação das ações.

Manutenção do crescimento

Na última reunião, em 23 de julho, o Copom (Comitê de Políticia Monetária) optou pelo aumento de 75 pontos-base na taxa básica de juro, que passou de 12,25% a.a. para 13% anuais.

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A intenção do governo com o aperto monetário é reduzir o crédito e, conseqüentemente, o consumo, com o objetivo de aliviar a alta dos preços.

No entanto, segundo a Agência Brasil, o Banco Central afirmou que, nos 13 primeiros dias úteis de julho (até o dia 17), na comparação com o mesmo período de junho, o volume de crédito referencial para taxas de juros (operações consideradas para cálculo das taxas médias de juros das modalidades de crédito) cresceu 1,6% no total, 0,2% para as pessoas físicas, excluídas operações de leasing, e 2,7% para as empresas.

A taxa de juros média subiu 1,3%, chegando a 39,3%. Para pessoas físicas, a taxa aumentou 2,1% (51,2% ao ano) e para as empresas, 0,9% (27,4% ao ano). No caso do cheque especial, os juros chegaram a 162,4% ao ano.