Tentação

Mega-Sena pagou R$ 2,5 milhões por vencedor. Dá para largar o trabalho e viver de renda?

Retornos da renda fixa diminuem possibilidades para os assessores do PT que levaram a bolada de R$ 120 milhões na última quarta-feira

SÃO PAULO – Um grupo de assessores do PT na Câmara levou um prêmio de R$ 120 milhões pago pela Mega-Sena na última quarta-feira (19). A aposta foi feita em forma de um bolão de 49 cotas, o que significa que cada vencedor levará para casa cerca de R$ 2,48 milhões (líquidos de imposto de renda, como qualquer prêmio da Mega). Após o baque da notícia (uma das participantes do rateio teria passado mal, emocionada), o que provavelmente passou pela cabeça de cada uma dessas pessoas foi: dá para parar de trabalhar?

Atenção à inflação

Rodolfo Rosina, Head da área de educação financeira do escritório de investimentos Lifetime, alerta que, se o rentista quer viver de dividendos pelo resto da vida, deve sempre calcular a rentabilidade de seus investimentos em termos reais, ou seja, descontando os efeitos inflacionários, para manter um poder de compra adequado às expectativas.

“A cada ano que passa, o valor investido fica menor, ou seja, seu rendimento vai diminuindo. Na contramão, a inflação vai deixando seus custos maiores”, explica. A maneira mais simples de conseguir uma rentabilidade corrigida pela inflação no Brasil é a partir da compra de títulos do Tesouro Nacional indexados ao IPCA (NTN-B).

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Investindo nesta quinta-feira (19) em uma NTN-B com juros semestrais, o vencedor da Mega teria um pagamento de até 3,5% mais a inflação (remuneração da NTN-B com vencimento em 2050 nesta quinta). Dessa forma, descontando imposto de renda, a renda mensal seria de R$ 6 mil mais IPCA, garantindo manutenção do poder de compra.

Vale destacar que, nesse caso, os juros são pagos semestralmente. Isso significa que o investidor teria de passar o primeiro semestre trabalhando normalmente se não tiver reserva para sobreviver.

Outras opções em renda fixa

Com a política atual de juros, os investimentos mais seguros do mercado brasileiro, os de renda fixa, dificultam o cenário para quem quer viver de renda. A Selic, taxa básica de juros, foi cortada para 5,5% na última reunião do Copom (comitê de políticas monetárias) e a expectativa é de novos cortes. A XP, por exemplo, revisou a estimativa para a Selic em 2019 para uma projeção de 4,5%, estável até o fim de 2020.

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Tudo isso significa que aplicações indexadas ao CDI (como CDBs) e à própria Selic (caso da poupança e do Tesouro Selic) rendem cada vez menos. Em 12 meses, a poupança rende meros 3,85% neste cenário.

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“Se investirmos esse capital na caderneta de poupança, teremos um ganho real de aproximadamente 0,85% ao ano, ou uma renda mensal de R$ 1.700,00”, calcula Paulo Saad, sócio-fundador do escritório de investimentos private Wflow, considerando inflação de 3% ao ano. É uma renda maior que um salário mínimo atual, porém menor que o salário dos vencedores do bolão. Segundo agências de notícias, os salários mais baixos do grupo vencedor giram em torno de R$ 4 mil. Certamente, não seria possível parar de trabalhar, portanto.

O especialista diz, ainda, que um investimento em crédito privado prefixado, que isenta a pessoa física de IR (como debêntures incentivadas), nas taxas atuais, 3,5%, o que significaria uma renda mensal de R$ 7 mil. O pagamento é, assim como no caso da NTN-B mencionada, semestral.

Em investimentos a partir de um ano, um CDB rendendo 100% do CDI paga, após o desconto do imposto de renda referente ao período (17,5%), 4,54%. Se o investidor encontrar um CDB com taxa de 120% do CDI, consegue rentabilidade de 5,45% em 13 meses, líquidos de IR.

Mas as taxas não são prefixadas, então diminuiriam junto com a Selic se os cortes continuarem. Uma remuneração de 100% do CDI significa 4,13% em um ano com desconto do imposto de renda (17,5% a partir de 13 meses) caso a Selic efetivamente chegue a 5% ao ano.

Dividendos em renda variável

Se tiver maior apetite ao risco, o vencedor da Mega pode diversificar a carteira e tentar garantir um rendimento mensal mais robusto partindo para a renda variável. Neste caso, importante entender que o rendimento esperado não será necessariamente atingido, já que não se trata mais de renda fixa.

Neste universo, os fundos imobiliários são uma categoria muito buscada, já que, em geral, pagam dividendos mensais.

A mediana do dividend yield de fundos imobiliários listados na Bolsa brasileira nos últimos 12 meses é de 7,88%, conforme dados da Economática que consideram 127 fundos (vale destacar que, desses 127, oito não pagaram dividendos no período). Além dos dividendos, o investidor ainda poderia ganhar com a valorização das suas cotas de FIIs – mas também perderia com eventual desvalorização.

“Considerando um dividendo anual constante de 7,8% em um fundo imobiliário (e esse valor pode mudar de fundo para fundo), no primeiro ano a renda seria de R$ 191 mil”, calcula Rosina, da Lifetime, considerando um investimento do valor total (R$ 2,5 milhões) em FIIs com esse patamar de pagamento de dividendos. Isso significa uma renda de R$ 15,9 mil por mês.

Se quiser se arriscar em ações, o investidor também pode ganhar com dividendos. Levantamento do InfoMoney mostrou que a mediana do dividend yield dos papéis do Ibovespa nos últimos 12 meses ficou em 3,67%, mas, novamente, é possível ganhar com a valorização dos papéis (e há o risco de perder com desvalorização). Leia mais sobre o tema aqui.

Por fim, o mercado imobiliário “de tijolo”, ou seja, comprar e vender imóveis, pode trazer uma renda mensal a partir de compra de imóveis para aluguel. Especialistas defendem que o momento agora é ideal para compra de imóveis, principalmente se houver possibilidade de pagar à vista, já que os valores estão descontados após os anos de crise. Leia mais aqui.