Tecnologia

Leilão do 5G tem grandes teles com as faixas mais importantes e empresas novatas “mais flexíveis”, dizem técnicos

Maior leilão da história da Anatel marca oferta de internet de quinta geração, que deve impactar todos os setores da economia no país a partir de 2022

Por  Dhiego Maia -

GONÇALVES (MG) — O controle das “estradas de abrangência nacional” por onde o 5G vai percorrer no país ficou com as grandes teles. Já as de “âmbito regional” terão uma participação importante dos provedores de internet.

É com essa analogia que executivos e especialistas do setor de telecomunicação analisam o resultado do maior leilão da história da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), no qual o governo captou mais de R$ 7 bilhões, para as licenças de faixas de radiofrequência que serão usadas pela internet de quinta geração.

O leilão, que foi aberto em cerimônia com a presença do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e se estendeu até a noite desta quinta-feira (4), tornou público os lotes arrematados pelas empresas nas faixas de 700 MHz, 3,5GHz e 2,3 GHz.

O certame só terminará nesta sexta (5), quando serão conhecidos os ganhadores dos lotes da faixa 26 GHz.

Quinze empresas foram habilitadas pela Anatel no certame: cinco são prestadoras de telefonia e dados móveis e as dez restantes atuam como provedores de internet.

“As três operadoras de telefonia brigaram na faixa mais importante porque é nela em que poderão vender os seus serviços”, disse Juarez Quadros, consultor e ex-presidente da Anatel.

A competição imposta por Claro, Telefônica, dona da marca Vivo (VIVT3), e TIM (TIMS3) se deu na faixa de frequência de 3,5 GHZ. As três gigantes do mercado atingiram o limite de aquisição da faixa, que é de 100 MHz.

A Claro desembolsou cerca de R$ 418 milhões; a Vivo, pouco mais de R$ 500 milhões; e a TIM, R$ 431 milhões, só para terem o total máximo previsto da “estrada mais cobiçada” para o 5G.

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As empresas que atuam nesta frequência têm a mão a possibilidade de levar internet mais rápida ao consumidor final. É por isso que a frequência de 3GHz é a mais usada nos países onde a tecnologia já é uma realidade.

Em contrapartida, as teles terão de cumprir obrigações específicas, como expandir para 13 mil quilômetros a extensão de cabos de fibra ótica na região Norte; construir a Rede Privativa de Comunicação da Administração Pública Federal, para sustentação dos serviços de governo; e “limpar” a faixa que, no momento, é a responsável pela transmissão de TV via parabólica — os usuários de parabólicas terão de ser migrados para faixas entre 10,7 GHz e 18 GHz.

No âmbito regional, a Brisanet surpreendeu. O maior provedor de internet do Nordeste arrematou por R$ 1,250 bilhão o controle do lote da região onde atua —um ágio de 13.741%, o maior do certame. E ainda estendeu seus tentáculos de atuação para o Centro-Oeste, com mais R$ 105 milhões de lance.

Quem também não quis perder o seu mercado foi o Consórcio 5G Sul, formado pelos provedores Unifique e Copel Telecom. Numa briga disputada lance a lance com a Mega Net pela faixa de 3,5 GHz da região Sul, o Consórcio só conseguiu bater o martelo quando decidiu desembolsar R$ 73,6 milhões.

Outro provedor foi mais além: a Winity II Telecom, do fundo de Infraestrutura Pátria Investimentos, venceu o lote nacional de 700 MHz, com lance de R$ 1,427 bilhão e ágio de 805% sobre o preço mínimo. E virou, com o lance bilionário, a mais nova prestadora nacional de serviços móveis.

“Os executivos da Winity sabiam o que estavam fazendo”, afirma o consultor João Moura. “Essa faixa será a que terá maior potencial de inquilinos”.

Usada para levar o 4G para localidades remotas, mas compatível com o 5G, a faixa de 700 MHz será “muito disputada por quem vai operar nas faixas superiores, como a 3,5”, completa Moura.

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O compartilhamento de faixas entre as empresas, algo permitido nas licenças, deve “oxigenar esse mercado que é tão competitivo”, analisa Quadros, ex-presidente da Anatel. “Essas empresas novatas terão a propensão de compartilhar o seu espectro cedendo partes para concorrentes no mercado secundário de uma forma mais proativa do que foi agora”, aponta Moura.

“Os provedores são mais tranquilos nisso e, acho, que deve funcionar por isso. No passado, as operadoras tradicionais não tinham parcerias com terceiros”, complementa Moura.

Para Eduardo Tude, presidente da Teleco, o que ocorreu nesta quinta foi o início de uma corrida que será “longa e exigirá muitos processos”. “Estamos falando de um país que vai implantar 5G ao mesmo tempo em que muitas regiões nem internet tem”, diz.

Lotes para a região Nordeste terminaram sem interessados, como pontua Quadros. Os grandes valores de ágios também mostraram “a complexidade em se fazer um plano de negócios com a tecnologia”, afirma Moura.

Segundo André Sacconato, consultor da Fecomercio/SP, o que esteve sob leilão nesta quinta “foi a possibilidade de a empresa ter uma via para fornecer o 5G”.

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O consultor da Fecomercio/SP lembra que alguns pontos poderiam ter sido resolvidos antes do leilão, como a burocracia para a instalação de antenas do 5G. “As empresas terão de instalar muito mais antenas com a nova tecnologia do que fazem hoje com o 4G. O custo disso deve impactar o andamento da abrangência do novo serviço”.

Às 19h55, a Algar Telecom arrematou o último lote do dia ao custo de R$ 57 milhões e ágio de 1.027% em relação ao preço mínimo oferecido. “Foi um dia histórico”, classificou Abraão Balbino, presidente da Comissão Especial de Licitação da Anatel. Mais cedo, o ministro das Comunicações Fábio Faria já havia dito que o “Brasil será o primeiro país da América Latina com 5G”.

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“Agora é torcer para que não haja nenhuma judicialização do processo”, finaliza Moura.

Lotes arrematados
Confira abaixo como cada empresa atuou no leilão desta quinta:

FAIXA DE 700 Mhz

Lote A1 (nacional) – Winity II – R$ 1.427.872.491,87 (ágio de 805%)

FAIXA DE 3,5 GHz

Lote B1 (nacional) – Claro – R$ 338 milhões – (ágio de 5,18%)
Lote B2 (nacional) – Vivo – R$ 420 milhões – (ágio de 30,69%)
Lote B3 (nacional) – TIM – R$ 351 milhões – (ágio de 9,22%)
Lote B4 (nacional) – não teve lance, foram habilitados lotes D33 a D36
Lote C1 (Norte) –não teve lance
Lote C2 (Norte e estado de SP) – Sercomtel – R$ 82 milhões – (ágio de 719,68%)
Lote C3 (estado de SP) – não foi aberto porque não houve lances no C1
Lote C4 (Nordeste) – Brisanet – R$ 1,250 bilhão – (ágio de 13.741,71%)
Lote C5 (Centro-Oeste) – Brisanet – R$ 105 milhões – (ágio de 4.054,27%)
Lote C6 (Sul) – Consórcio 5G Sul – R$ 73,6 milhões – (ágio de 1.454,74%)
Lote C7 (RJ, ES, MG) – Cloud2U – R$ 405,1 milhões – (ágio de 6266,25%)
Lote C8 (MG, MS, GO, SP) – Algar Telecom – R$ 2,35 milhões – (ágio de 358,5%)

Lotes relativos a frequências do B4 (não arrematado):

Lote D33 (nacional) – Claro – R$ 80,338 milhões – (ágio de 0%)
Lote D34 (nacional) – TIM – R$ 80.337.720,46 – (ágio de 0%)
Lote D35 (nacional) – Telefônica (Vivo) – R$ 80.337.720,46 – (ágio de 0%)
Lote D36 (nacional) – como nenhuma operadora estava apta a participar e as três maiores já tinham arrematado os lotes 33-35, o 36 foi considerado deserto (não teve lance).

FAIXA DE 2,3 GHz

Regionais:

Lote E1 (Norte) – Claro – R$ 72 milhões – (ágio de 101,79%)
Lote E2 (região Norte e estado de SP) – não foi aberto porque o E1 foi arrematado
Lote E3 (estado de SP) – Claro – R$ 750 milhões – (ágio de 755,1%)
Lote E4 (Nordeste) – Brisanet – R$ 111.385.964,11 – (ágio de 0%)
Lote E5 (Centro-Oeste) – Claro – R$ 150 milhões – (ágio de 381,15%)
Lote E6 (Sul) – Claro – R$ 210 milhões – (ágio de 259,65%)
Lote E7 (RJ, ES, MG) – Telefônica (Vivo) – R$ 176,8 milhões – (ágio de 124,75%)
Lote E8 (algumas localidades em MG, MS, GO e SP) – Claro – R$ 32 milhões – (ágio de 406,19%)

Regionais com menos espectro:

Lote F1 (Norte) – Telefônica (Vivo) – R$ 29 milhões – (ágio de 1,59%)
Lote F2 – não foi aberto porque o F1 foi arrematado
Lote F3 (estado de SP) – Telefônica (Vivo) – R$ 231 milhões – (ágio de 229,21%)
Lote F4 (Nordeste) – deserto, não teve lance
Lote F5 (Centro-Oeste) – Telefônica (Vivo) – R$ 30 milhões – (ágio de 20,28%)
Lote F6 (Sul) – TIM – R$ 94,5 milhões – (ágio de 102,3%)
Lote F7 (estados RJ, ES e MG) – TIM – R$ 450 milhões – (ágio de 616,69%)
Lote F8 (região sul de MG e localidades em GO, MT e SP) – Algar Telecom – R$ 57 milhões – (ágio de 1.027,08%)

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