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O Mapa da Inadimplência no Brasil, divulgado nesta terça-feira (5) pela Serasa, aponta que o país chegou a 82,8 milhões de inadimplentes em março, um avanço de 1,35% em relação a fevereiro. O número de dívidas subiu 1,83%, chegando a 338,2 milhões.
O valor médio das dívidas por pessoa está em R$ 6.728,51, aumento de 1,98% em relação ao dado anterior. E o valor médio de cada dívida já supera o salário mínimo, chegando a R$ 1.647,64.
A pesquisa aponta que a participação do setor financeiro na inadimplência do consumidor subiu 23,6% desde a pandemia. O indicador saiu de 38% no período pré-pandemia para aproximadamente 47% no período recente, segundo a Serasa.
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Segundo Aline Maciel, diretora da Serasa, esse salto nas dívidas bancárias reflete uma mudança estrutural no acesso ao crédito no país, reflexo do aumento da bancarização dos brasileiros, impulsionado pelo avanço das classes D e E.
Quase metade das dívidas (47%) está concentrada no setor financeiro, foco do programa Desenrola 2.0, lançado pelo governo federal para favorecer a quitação das dívidas. São 27,3% de dívidas com bancos e cartões de crédito e 20,2% com financeiras. Outros 21% são atrasos em contas básicas de consumo, como água, luz e gás, e 11,5% em serviços – segmentos que estão fora do escopo do programa.
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O levantamento ouviu 1.904 pessoas inadimplentes. A margem de erro da pesquisa é de 2,2 pontos porcentuais.
Motivos do endividamento
O mapeamento aponta que o desemprego ou a perda de renda é o principal motivo de endividamento, citado por 38% dos respondentes.
Para Fernando Gambaro, gerente de Comunicação da Serasa, o dado chama a atenção porque o mercado de trabalho do país vem apresentando indicadores positivos como baixa histórica de desemprego e aumento da renda.
Com a perspectiva de queda menor de juro ao longo do ano, e possível mudança no mercado de trabalho com a desaceleração da atividade econômica, o quadro de inadimplência tende a piorar.
Segundo Maciel, o estudo revela que grande parte das dívidas está, na verdade, ligada à falta de planejamento. Outros motivos citados incluem gastos de emergência com saúde e acidentes (16%) , descontrole e desorganização financeira (13%) , apoio financeiro a familiares ou amigos (10%) e atrasos em contas bancárias (7%). Segundo Gambaro, ao somar esses quadros de inadimplência, chega-se a 46% de motivos que estão diretamente atrelados à necessidade de maior educação financeira.
Cartão de crédito como “extensão da renda”
A pesquisa aponta que 73% dos inadimplentes possuem dívidas com o cartão de crédito. Dentro deste percentual, 37% têm dívidas que ultrapassam a marca de R$ 10 mil e 36% convivem com essas pendências há mais de dois anos, configurando dívidas antigas.
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Gambaro alerta que as dívidas com cartão de crédito são as mais caras do mercado. Ele avalia que o cartão tende a ser o início do acesso ao crédito durante o processo de bancarização. “O brasileiro acaba usando cartão de crédito como extensão da renda”, complementa Aline Maciel. Para as instituições financeiras, o cartão atua como um produto primário para começar a conhecer o consumidor e entender se podem conceder produtos de valores mais altos e com garantias no futuro, visando minimizar a inadimplência.
O crédito pessoal e os empréstimos bancários também aparecem como peso no bolso do brasileiro, com mais da metade (53%) dos entrevistados possuem esse tipo de dívida. Neste grupo, 50% devem mais de R$ 10 mil e 43% convivem com a dívida por um período superior a dois anos. Já o cheque especial e o limite da conta afetam 33% dos entrevistados.
O cheque especial e o limite da conta é motivo de dívida para 33% e, entre eles, 35% têm dívidas superiores a R$ 10 mil e 36% estão com ela há mais de dois anos.
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Desenrola 2.0: alívio temporário e busca por descontos
Com 47% das dívidas dos brasileiros concentradas em bancos e financeiras, este contingente torna-se o foco principal do programa Desenrola 2.0, que começa nesta terça.
Para facilitar as renegociações, a Serasa atua como um canal de comunicação dos bancos, ajudando a pulverizar as ofertas do programa e concentrando todas as oportunidades em um único app. Até agora, o Desenrola 2.0 conta com 7,7 milhões de ofertas, um número classificado como “inicial” por Maciel, visto que a lista completa de participantes ainda está em formação.
O programa vem ao encontro de dados que foram observados na pesquisa da Serasa. Para 69% dos inadimplentes, o acordo com desconto é o principal atrativo para renegociar dívidas. Outros fatores incluem a redução de juros (64%) , a oferta de um parcelamento acessível (58%) e a expectativa de aumento da renda (36%).
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“O desconto sempre aparece para nós como principal gatilho para o consumidor fazer as negociações e, claro, precisa ter uma parcela que caiba no bolso”, afirma a diretora da Serasa.
Apesar do otimismo com a nova fase de negociações, os especialistas adotam cautela. Aline Maciel ressalta que o país ainda convive com juros elevados e que “o programa sozinho não vai fazer milagres”. Ela relembra que, na versão anterior, o Desenrola conseguiu suavizar a situação, mas não resultou em uma redução significativa, barrado pelo estoque altíssimo de dívidas. Gambaro observa que o programa anterior estancou o crescimento da inadimplência temporariamente, fazendo o gráfico da dívida “andar de lado”, mas não teve força suficiente para inverter a curva.
Ainda assim, a avaliação sobre o Desenrola é positiva como política de fomento à recuperação de crédito. “O alívio é temporário, mas isso não quer dizer que não é importante”, pontua Gambaro. “Ele é importante para as pessoas buscarem melhorar a situação financeira, mas não deve se encerrar ali. Precisamos fazer um movimento para melhorar a situação financeira”.
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O Desenrola 2.0 é voltado para quem tem renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105), os descontos vão de 30% a 90% da dívida.
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