Golpe do falso advogado cresce no país: veja como se proteger

Especialistas explicam como podem ser vendidos os créditos com segurança

Anna França

Ilustração sobre golpes (Pixabay)
Ilustração sobre golpes (Pixabay)

Publicidade

As fraudes envolvendo supostos advogados tem avançado tanto que já chamam atenção da Justiça diante dos milhares de brasileiros que aguardam decisões trabalhistas e pagamentos de precatórios. Com a digitalização de processos e documentos públicos, além das longas filas para liberação de indenizações, a área acabou abrindo espaço para ação de golpistas, que vem se sofisticando na abordagem, usando até mesmo logotipo dos tribunais, petições reais e até inteligência artificial para simular vozes.

O perigo tem sido tão grande que a própria Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) decidiu criar neste ano uma equipe especializada para enfrentar o problema. Segundo o Eduardo Ferrari, presidente da Comissão de Força-Tarefa para Enfrentamento do Golpe do Falso Advogado da OAB-SP, a regra número um para quem tem processo judicial é simples: não interagir com contatos inesperados. “Jamais converse com alguém que afirma ser do escritório sem antes checar. E é fundamental reforçar que não existe pagamento para liberar indenização. Isso é mentira”, afirma.

Ferrari explica ainda que a fraude costuma seguir um roteiro conhecido. O golpista diz representar o advogado real, envia documentos manipulados e solicita uma transferência urgente para liberar um suposto valor. “A conta é sempre de terceiro, o que já demonstra o golpe. A pessoa deve parar o diálogo e contatar o escritório usando o número que já conhece imediatamente. E hoje é preciso estar ainda mais atento porque os golpistas estão usando inteligência artificial para imitar vozes, então o ideal é confirmar presencialmente”, explica.

Continua depois da publicidade

Sobre a venda de precatórios, Ferrari diz que a prática é legal e ressalta que a decisão é pessoal. Mas exige rigor. “Se a pessoa tiver interesse, deve certificar-se de que está lidando com um advogado sério e buscar referências reais. Vender crédito sem orientação adequada é um risco enorme.”

Golpe sofisticado

Para o advogado Léo Rosenbaum, especialista em direitos do consumidor, o golpe se disseminou porque o processo judicial digitalizou documentos antes restritos. “O estelionato está cada vez mais refinado. O golpista entra nos sistemas judiciais PJe ou no e-SAJ, consegue baixar uma petição verdadeira, troca a assinatura, coloca o brasão do tribunal e envia por WhatsApp dizendo que ‘o alvará saiu, mas falta pagar uma taxinha via PIX’”, explica.

Rosenbaum destaca ainda que a proteção é mais simples do que parece, mas a pessoa precisa estar atenta. Mensagem de número novo é golpe, porque se a pessoa sempre fala pelo WhatsApp oficial do escritório, é preciso ignorar qualquer outro número, especialmente com DDD desconhecido. Além disso, tribunal nunca cobra taxas via PIX. “Nem Justiça, nem advogados verdadeiros pedem depósito para liberar precatório. É proibido.”

O cliente sempre deve validar por conta própria. Para isso, basta entrar no site do tribunal e conferir se o documento existe. Depois, retome a conversa somente pelo canal oficial que você já conhece.

Rosenbaum reforça que a venda de precatórios é permitida, mas “nunca deve ocorrer via WhatsApp ou ligação de número estranho. Apenas com contrato formal, advogado independente e protocolo no tribunal.

Leia Mais: Golpes: conheça sete táticas de criminosos que usam serviços judiciários como iscas

Continua depois da publicidade

Sinal de alerta

O criminalista Antonio Gonçalves chama atenção para a pressão emocional usada pelos golpistas. “Desconfie de quem liga pedindo providências urgentes. Intimações verdadeiras chegam pelo correio, com aviso de recebimento. Não se abre link nem documento recebido por e-mail ou telefone sem confirmar com seu advogado”, diz.

Para Gonçalves, os golpes prosperam porque muita gente aguarda há anos por uma decisão: “A demora gera ansiedade. O golpista explora isso com promessas de ‘liberação imediata’. E se pedir dinheiro, é golpe na certa.”

O advogado alerta que, apesar da venda de precatório se uma alternativa legítima, ela envolve um desconto muitas vezes significativo assim como a incidência de Imposto de Renda. “Por isso, é essencial avaliar com cautela, fazer as contas e consultar seu advogado para confirmar tudo. Soluções mágicas não existem.”

Continua depois da publicidade

Explosão de golpes

O cenário brasileiro ajuda a explicar a onda de fraudes:

Veja quando a venda de créditos judiciais é segura

A expectativa frustrada com tanto tempo para receber acaba virando um terreno fértil para criminosos que prometem atalhos. Mas, apesar da proliferação de golpes, existe, sim, uma alternativa legal e regulamentada para quem não quer esperar anos pela liberação: a cessão de crédito judicial, prevista no art. 286 do Código Civil.

Empresas como a Anttecipe.com, especializada na compra de processos trabalhistas e precatórios, explica que a análise é feita diretamente pelo número do processo. Após verificar a existência de ordem de pagamento em sentença ganha em segunda instância, bem como valores acima de R$ 80 mil, a empresa apresenta uma proposta ao titular do crédito, segundo o CEO da Anttecipe, Herbert Camilo.

Continua depois da publicidade

“Cada caso é analisado e, se houver acordo, a Anttecipe pode pagar até 80% do valor líquido que o reclamante tem direito no processo, em 24h após a assinatura do contrato”, disse, acrescentando que o processo é transparente e rápido, ajudando o cliente a transformar um valor preso há anos em recursos disponíveis imediatamente.

A companhia atua há mais de 20 anos no setor, reunindo especialistas das áreas jurídica, financeira e operacional e reforça que, diferentemente dos golpes, tudo é feito com contrato formal, análise documental e sem solicitações de PIX antecipado, “diferença fundamental em relação aos golpes.”

Anna França

Jornalista especializada em economia e finanças. Foi editora de Negócios e Legislação no DCI, subeditora de indústria na Gazeta Mercantil e repórter de finanças e agronegócios na revista Dinheiro