Gestão de risco de crédito: na prática, você sabe o que significa?

Bancos, ao concederem empréstimos, buscam garantias. Você, se emprestasse dinheiro a alguém, não faria o mesmo?

Publicidade

SÃO PAULO – Responda rápido: você emprestaria seu dinheiro para alguém que não conhece, sem qualquer garantia de que terá esta quantia de volta?

Pois bem, a gestão de risco de crédito, resumidamente, se refere a essa questão: qual a garantia dos bancos ao concederem empréstimos.
Kumagae Hinki Jr, diretor de Gestão de Risco da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), usa esse exemplo ilustrativo para explicar o tema: imagine-se emprestando dinheiro a um vizinho. Gostaria de ter algumas garantias, certo?

Qual o risco?

Em primeiro lugar, é preciso entender que o negócio bancário se baseia na intermediação de riscos. O principal deles, justamente, é o risco do pagador não saldar a dívida contraída.

Ferramenta do InfoMoney

Baixe agora (e de graça)!

Diante dessa realidade, a instituição financeira trabalha com duas visões distintas de risco, visando encontrar maneiras de se precaver, criando formas diferentes de provisão em cada uma delas.

A visão “esperada” de risco se resume a fatos que podem dificultar ou impedir o pagamento da dívida, e que são previsíveis. Para estas situações, o banco conta com suas reservas operacionais.

Já a inesperada, como o próprio nome diz, se refere a fatores “surpresa”, ou seja, o fato do devedor perder o emprego e não conseguir saldar o compromisso, falecimento do devedor etc. Nessas situações, o banco conta com o dinheiro dos seus acionistas.

Continua depois da publicidade

Chances de “calote”

Segundo o diretor da Febraban, o foco das instituições financeiras hoje está em justamente conseguir quantificar quais as chances de se “sofrer um calote” ao emprestar dinheiro.

Para isso, metodologias são adotadas visando monitorar esse risco, daí o nome gestão de risco de crédito. De forma geral, existe o modelo massificado (também chamado de varejo), que mede o risco em um determinado grupo de pessoas (ou de microempresas), tomando por base modelos estatísticos. Neste caso, os clientes são “classificados” por probabilidade de inadimplência.

Há também o modelo individualizado, dividido em duas metodologias: o modelo estrutural (que se resume em analisar a condição de mercado, baseando-se na comparação entre valor da empresa e quantia devida) e o fundamentalista.

Na análise fundamentalista, são avaliados os índices financeiros (resultados alcançados pela empresa em determinado período, por exemplo) e alguns dados subjetivos, como qualidade da gestão, como a empresa está posicionada no mercado, idoneidade etc.

Como diminuir o risco?

A avaliação do risco de operação tem como objetivo, justamente, diminuir os seus efeitos. Para isso, o banco estabelece algumas garantias para o fornecimento do crédito, por meio de condições impostas no empréstimo.

Por exemplo, no caso de uma empresa, a instituição financeira fornece a quantia solicitada, mas com algumas condições pré-estabelecidas, como, por exemplo, de que o quadro societário não mude durante certo tempo, de que o nível de endividamento não supere determinado patamar ou que algum imóvel entre como garantia, caso a dívida não seja paga.

Continua depois da publicidade

Provisões

Como mencionado acima, com o objetivo de manter garantias, as instituições financeiras trabalham com provisões, estabelecidas de acordo com a qualidade do cliente (em relação a honrar seus compromissos) e a proporção do atraso no pagamento, segundo mostra a tabela abaixo, divulgada pela Febraban (resolução no 2.682-PDD, Bacen):













































Nível Atraso (dias) % provisão
AA 0,0%
A 0,5%
B 15 a 30 1,0%
C 31 a 60 3,0%
D 61 a 90 10,0%
E 91 a 120 30,0%
F 121 a 150 50,0%
G 151 a 180 70,0%
H >180 100,0%

Como se pode perceber na tabela acima, a provisão dos bancos ocorre mesmo para os clientes que não atrasam (A), visando a cobertura do custo operacional, segundo esclarece Kumagae Kingi Jr.

Oferta de crédito sob controle

O executivo da Febraban destaca, ainda, que os sistemas de medição de risco adotados pelas instituições financeiras estão cada vez mais apurados e contesta a idéia de que o crédito é oferecido sem critério a pessoas físicas e jurídicas, referindo-se ao crescimento de financeiras, por exemplo.

Continua depois da publicidade

Há todo um trabalho de análise em relação a isso. Novamente, utiliza o modelo do “emprestar ao vizinho”. Ninguém emprestaria uma quantia se não tivesse garantia ou mais informações sobre o devedor. As instituições financeiras agem da mesma forma: antes do crédito ser aprovado há um levantamento de dados, não se fecha nada sem análise, esclarece.