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El Niño aumenta risco de enchentes; veja o que muda no seguro residencial

Especialistas explicam quais danos dependem de cobertura adicional e como eventos climáticos extremos influenciem preços, franquias e aceitação de riscos

Vitor Oliveira

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O El Niño não provoca diretamente todos os eventos climáticos extremos, mas pode alterar padrões de chuva, temperatura e seca e aumentar a probabilidade de ocorrências severas em determinadas regiões do Brasil.

Para o seguro residencial, isso significa maior exposição a riscos como alagamentos, enchentes, vendavais, destelhamentos, queda de árvores, danos elétricos e, em áreas de encosta, deslizamentos e desmoronamentos.

Os efeitos do fenômeno variam conforme a região e as características de cada episódio. De acordo com Pedro Luiz Valls, pesquisador do Centro de Estudos em Riscos Climáticos e Resiliência da FGV, o El Niño costuma estar associado a maior risco de seca no Norte e em parte do Nordeste e a maior propensão a chuvas volumosas no Sul do país.

Na prática, a ocorrência de eventos severos pode aumentar a quantidade e o valor das indenizações. Cristiane Junqueiro, head interina de Novos Negócios da Simple2u, que opera no segmento, afirma que o impacto não está apenas no número de sinistros (ocorrência do risco previsto no contrato de seguro).

“Tempestades mais intensas e chuvas concentradas tendem a causar danos mais extensos e, consequentemente, indenizações de maior valor”, diz.

A dimensão das perdas pode ser observada em grandes eventos recentes. Segundo dados da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), as solicitações de indenizações de seguros provenientes das fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 superaram os R$ 6 bilhões. Em quantidade, as solicitações de seguro Residencial e Habitacional chegaram a 29,7 mil.

“Esses números não devem ser interpretados como efeito exclusivo do El Niño, mas mostram a escala financeira que eventos extremos podem assumir para o mercado segurador”, explica Valls.

Leia mais: El Niño e seguro de vida: por que o clima também entra na conta das seguradoras

Cobertura depende do contrato

Um dos principais pontos de atenção para o consumidor é que a contratação de um seguro residencial não significa, necessariamente, proteção contra todos os danos provocados por chuvas intensas e outros eventos extremos.

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A cobertura básica costuma proteger contra riscos tradicionais, como incêndio, queda de raio e explosão. Já enchentes, alagamentos, vendavais, granizo, danos elétricos e desmoronamentos podem depender de coberturas adicionais, limites específicos e condições previstas no contrato (apólice).

“A cobertura exata depende do contrato. Muitas pessoas imaginam que todo seguro residencial cobre enchente, mas essa proteção pode depender de contratação específica ou de cláusulas adicionais. Por isso, é essencial ler a apólice e verificar se há cobertura para inundação, alagamento, vendaval, granizo e desmoronamento”, alerta Valls.

Junqueiro diz que a cobertura para alagamentos está disponível no mercado por meio de coberturas adicionais, mas ressalta que há diferenças entre as seguradoras em relação a desmoronamento e movimentação de solo.

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“O principal desafio do mercado hoje não está na existência dessas coberturas, mas na conscientização dos consumidores sobre sua importância e adequação aos riscos específicos de cada região”, observa.

Leia também: Mudanças climáticas pressionam sistema de seguros em países mais pobres

Regiões de maior risco podem ter mudanças nas apólices

Quando uma região passa a registrar maior frequência de eventos extremos, as seguradoras podem reavaliar os riscos assumidos. Entre as possíveis medidas estão alterações nos prêmios (valor que os clientes pagam para contratar um seguro), franquias (valor pago para acionar o seguro) e limites de cobertura, além da exigência de medidas preventivas e de restrições na aceitação de determinados riscos.

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“O seguro é precificado com base na análise da probabilidade e da severidade das perdas. Por isso, quando determinadas regiões passam a registrar maior recorrência de eventos extremos, os modelos atuariais tendem a incorporar essas novas evidências ao longo do tempo”, acrescenta Junqueiro.

Segundo ela, isso não significa necessariamente um aumento imediato do preço do seguro após um evento climático específico. A tendência é de reavaliação gradual dos parâmetros de análise, precificação e aceitação dos riscos.

“Se o risco aumenta muito e não há investimento em drenagem, infraestrutura, prevenção e ordenamento urbano, o seguro pode ficar mais caro ou menos disponível justamente para as regiões que mais precisam de proteção”, pontua Valls.

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Eventos extremos pressionam seguradoras

Eventos climáticos severos também representam um desafio operacional para as seguradoras porque podem provocar muitas perdas ao mesmo tempo e em uma mesma região.

“As seguradoras trabalham com provisões técnicas, resseguro, diversificação geográfica, modelos de catástrofe e planos operacionais de atendimento emergencial. O desafio dos eventos climáticos severos é que eles geram sinistros correlacionados: muitas perdas acontecem ao mesmo tempo, na mesma região e pelo mesmo fator climático”, diz Valls.

Após um evento de grande magnitude, a estrutura de atendimento pode ser reforçada, com mais equipes de regulação (processo em que a seguradora verifica o que aconteceu, confirma a cobertura e calcula o prejuízo), ampliação de canais digitais e priorização de casos urgentes, conclui Junqueiro.

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