Devedores Anônimos: você é um deles?

Doença pode ser identificada e grupos de apoio ajudam no tratamento. Faça o teste e identifique se você sofre desse mal

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“Papai não precisa me comprar tanto presente, eu sei que você gosta de mim”. Foi apenas quando ouviu essa frase da filha de 8 anos que João* se deu conta que suas compras estavam passando do limite. “Que criança não gosta de ganhar brinquedo? Apenas quando ouvi minha filha reclamando que ganhava muito presente que me dei conta que o hábito de comprar tinha passado os limites do bom senso”, contou o técnico de informática em uma reunião dos Devedores Anônimos (D.A.), em uma noite gelada de quinta-feira em São Paulo.

Criado formalmente em 1976 na igreja de St. Stephen em Nova York, e hoje presente em diversos países (no Brasil inclusive), a irmandade dos Devedores Anônimos surgiu nos mesmos moldes dos Alcóolatras Anônimos, mas com o objetivo de buscar a cura para quem gasta sem controle por meio da troca de experiências entre pessoas que sofrem desse mal.

“Hoje é sabido que o consumo compulsivo é uma doença. É bom conversar com quem lhe entende porque há muito preconceito. As pessoas acham que você gasta demais porque quer, porque é sem-vergonha. Às vezes, é difícil você fazer a pessoa entender que também sofre ao perceber que gastou tudo que tinha ou até se endividou para comprar algo que nem precisava”, desabafa a secretária Janine*, que está em recuperação. 

Terapia em grupo
Na prática, o Devedores Anônimos nada mais é do que um grupo de terapia. De acordo com especialistas, o benefício desse tipo de tratamento é que o paciente fica em contato com pessoas que estão passando por situações parecidas com as suas. Através da troca, todos começam a se sentir mais fortes para enfrentar o problema e passam a vê-lo de uma forma diferente. 

“Cada caso é um caso, e há quem precise de outras formas de tratamento, mas, para mim, que já frequento o Devedores Anônimos há oito meses, acho que só esse tratamento está sendo suficiente. Lá eu tenho a certeza de estar sendo ouvida, sinto que existem pessoas que se importam comigo e com minhas dificuldades, sem falar que não há custos, o que, para uma pessoa que gasta demais, é um incentivo”, conta Janine. 

De acordo com os preceitos da irmandade, para participar de suas reuniões, basta chegar e se sentar. “Não analisamos a sua dívida: você pode dever milhões, ter perdido todo o crédito, se achar apenas compulsiva, não ter dívidas significativas e, até mesmo, ter fobia em gastar dinheiro. Para ser membro, basta que você esteja convencido de que é um devedor compulsivo ou que poderia ser. O único requisito para ser membro é o desejo de parar de fazer dívidas sem garantia. Não há taxas ou mensalidades para ser membro do DA”, diz uma frase na primeira página do site dos Devedores Anônimos. 

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Psicopatologia
Como disse Janine, consumo compulsivo é, sim, uma doença. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma disfunção psíquica é um transtorno que se caracteriza essencialmente pela falha em resistir a um impulso, instinto ou desejo de realizar um ato que é prejudicial ao indivíduo ou outras pessoas. 

O Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso, serviço do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, explica que são sintomas clássicos a preocupação excessiva e perda de controle sobre o ato de comprar; o aumento progressivo do volume de compras, as tentativas frustradas de reduzir ou controlar as compras, as compras para lidar com a angústia ou outra emoção negativa, as mentiras para encobrir o descontrole com compras, os prejuízos nos âmbitos sociais ou problemas financeiros causados por compras, roubo, falsificação, emissão de cheques sem fundos ou outros atos ilegais para poder comprar. 

Vale ressaltar que, de acordo com participantes do D.A. em São Paulo, a maior parte dos que procuram ajuda são pessoas bem-sucedidas, de classes sociais elevadas. “Meu salário é bom, o da minha esposa também. E vejo que grande parte dos meus colegas aqui não está nessa situação por falta de entrada de dinheiro. Essa é uma doença que não escolhe classe social”, diz José.

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 Identificando o problema
Para quem tem dúvidas se é um consumidor compulsivo, os Devedores Anônimos preparam um questionário. Se você responder sim a oito ou mais questões, tudo indica que você tem um problema com endividamento compulsivo ou está prestes a ter um. Não perca tempo e procure ajuda. 

1. Suas dívidas estão fazendo sua vida familiar infeliz?

2. A pressão de suas dívidas está tirando a atenção de seu trabalho diário?

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3. Sua reputação está sendo afetada por suas dívidas?

4. Suas dívidas estão fazendo você pensar que é menos do que é?

5. Você já deu informação falsa para obter crédito?

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6. Você já fez promessas irrealistas para seus credores?

7. A pressão de suas dívidas está fazendo com que você seja descuidado com o bem-estar da sua família?

8. Você teme que seu empregador, família ou amigos descubram até que ponto vai seu endividamento?

9. Quando você se depara com situação financeira difícil, a possibilidade de um empréstimo lhe dá uma sensação desenfreada de alívio?

10. A pressão de suas dívidas já lhe causa dificuldade em dormir?

11. A pressão de suas dívidas já o fez considerar se embebedar?

12. Você já pegou dinheiro emprestado sem considerar adequadamente a taxa de juros que você vai ter que pagar?

13. Você normalmente espera uma resposta negativa quando é submetido a uma apuração de crédito?

14. Você já desenvolveu um esquema rigoroso para pagar suas dívidas e depois, sob pressão, acaba não o cumprindo?

15. Você justifica suas dívidas falando para si mesmo que você é superior a outras pessoas, que quando você tiver sua vez liquidará suas dívidas de um dia para o outro?

Onde buscar ajuda

Rio de Janeiro
Igreja Santíssima Trindade
Rua Senador Vergueiro,141- Flamengo

São Paulo
Igreja Nossa Senhora Perpétua do Socorro
Rua Sampaio Vidal, 1.055 – 1° andar – Jardins – São Paulo/SP

Igreja Santa Ifigênia
Rua Santa Ifigênia, 30 – Centro – São Paulo/SP

Paróquia São Luís Maria de Mont Fort
Rua Dr. Carmelo D’ Agostinho, 149 – São Paulo/SP

PRO-AMITI – Serviço do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
R. Dr. Ovídio Pires de Campos, 785 – São Paulo

* Os nomes foram trocados para manter o anonimato dos entrevistados, uma premissa dos Devedores Anônimos.

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